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Coluna do Carpe #07: a ascensão do Battle Royale

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Cair de paraquedas em uma ilha com outros 99 jogadores, buscar recursos e sobreviver: é um conceito simples, mas que chacoalhou a indústria nos últimos meses. A popularidade dos jogos de battle royale superou a de nomes consagrados e já são os games mais jogados e assistidos no mundo todo. Hoje discutiremos as origens do gênero, a briga entre dois gigantes e o que podemos esperar do futuro. Trata-se de uma moda passageira ou uma nova era para os jogos multiplayer?

Não é tão novo assim

As ideias que fundamentam o gênero existem há décadas, tanto nos videogames quanto em outras mídias. Armor Battle, por exemplo, é um jogo de 1978 onde tanques lutam em uma arena até que reste apenas um. Estamos falando de um game lançado para o Intellivision, concorrente do Atari 2600.

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Entretanto, o principal responsável pela popularização do conceito como conhecemos é um filme japonês chamado "Battle Royale", lançado em 2000, que por sua vez, é adaptação de um livro de mesmo título publicado um ano antes. Nele, o governo autoritário de um Japão distópico obriga jovens a lutarem em uma ilha até que sobre apenas um. Não é a toa que dá nome ao gênero. Jogos Vorazes, filme de 2012, também apresenta um contexto muito semelhante e foi ainda mais popular no ocidente.

As primeiras implementações de battle royale nos jogos vieram de mods criados pelos próprios jogadores. Os primeiros a ganharem popularidade foram os “Hunger Games” em Minecraft, que uniam a base de sobrevivência do jogo e seu mundo aberto a regras inspiradas em Jogos Vorazes. Foi uma febre no YouTube e Twitch no ano de lançamento do filme.

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Alguns mods também começaram a surgir em DayZ, jogo de sobrevivência em um apocalipse zumbi. O maior deles era encabeçado por Brendan Greene, conhecido na comunidade como "PlayerUnknown". Ao contrário da cena que surgiu em Minecraft, suas inspirações ligavam diretamente a Battle Royale, filme de 2000.

O mod foi tão bem sucedido que Brendan acabou sendo contratado pela Sony para dar consultoria em "King of the Kill", uma implementação de battle royale no game H1Z1. Sua popularidade foi tanta que o modo tornou-se um jogo a parte, com uma comunidade ativa desde 2013.

Dois titãs

O maior passo para a consolidação do gênero foi dado quando Brendan uniu-se a Bluehole, publicadora sul-coreana, para o desenvolvimento de seu próprio game standalone. PlayerUnknown's Battlegrounds entrou em acesso antecipado na Steam em março de 2017 e, em questão de poucos meses, já era o game mais popular na plataforma, desbancando jogos como Dota 2 e GTA V. Estima-se que o jogo vendeu cerca de 20 milhões de cópias até o fim de 2017, batendo também o recorde de 1 milhão e 400 mil jogadores simultâneos na Steam. Sem dúvidas foi o principal responsável pela popularização do gênero e, por alguns meses, reinou sozinho.

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Vários outros jogos tentaram pegar carona nessa nova tendência, como GTA Online, com a expansão “Motor Wars”, e Paladins, com seu modo “Battlegrounds” (o nome deixa bem claro de onde veio a inspiração). Porém, o verdadeiro rival de PUBG surgiu apenas em setembro de 2017.

Em desenvolvimento há 5 anos, Fortnite é originalmente um game de sobrevivência com foco em seu modo cooperativo e na construção de fortalezas. Um cruzamento entre  Minecraft e Left 4 Dead, de acordo com seus próprios desenvolvedores. Entretanto, a ascensão de PUBG motivou a Epic Games a lançar sua própria aposta no gênero, Fortnite: Battle Royale, que logo tornou-se um título a parte e carro-chefe da empresa.

As semelhanças entre os jogos e a crescente popularidade de Fortnite até renderam problemas entre seus estúdios. Além de indiretas sobre um possível plágio, houve receio por parte da Bluehole de que as atualizações na Unreal Engine 4, motor utilizado no jogo, chegassem de maneira atrasada a equipe. Isso porque a dona da ferramenta é ninguém menos que a Epic Games. Eles poderiam intencionalmente prejudicar o jogo concorrente através de sua engine. Outra questão que incomodou o time de Brendan foi a menção de seu jogo sem consentimento na divulgação de Fortnite: Battle Royale, onde diziam claramente que o jogo é uma alternativa a PUBG.

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O título da Epic Games logo tornou-se o maior nome no gênero. Já ultrapassou seu concorrente em jogadores ativos e espectadores nos serviços de streaming, e isso, claro, se dá a uma série de fatores.

Fortnite é gratuito, enquanto que PUBG é pago. Além disso, o game está disponível em todas as principais plataformas do mercado (PC, PlayStation 4 e Xbox One) desde seu lançamento, ao passo que PUBG começou apenas no PC, chegando ao Xbox One meses depois e ainda sequer possui uma confirmação para desembarcar no PlayStation 4.

As semelhanças entre os jogos e a crescente popularidade de Fortnite até renderam problemas entre seus estúdios.

Ambos os jogos receberão versões para dispositivos móveis, como celulares e tablets. Trata-se de um movimento importante para a consolidação do gênero no enorme mercado asiático. A diferença é que, no caso de Fortnite, haverá crossplay entre as versões de mobile e outros dispositivos, como consoles e PCs. É um passo para largar na frente também nessas plataformas.

Veio para ficar

Quem vencerá essa disputa? Sinceramente, pouco importa. Acredito que há espaço no mercado para os dois, até porque, nenhum gênero é feito de um jogo só. Apesar de suas semelhanças, PUBG e Fortnite também possuem inúmeras diferenças e apelo a públicos distintos.

É inegável: a Epic Games pegou carona no sucesso de PUBG e tomou decisões estratégicas fundamentais para não apenas consolidar-se no gênero como também dominá-lo. Estamos falando de uma empresa muito maior e mais experiente do que a Bluehole. Ainda assim, PUBG continua gigante – e em crescimento. Enquanto seu estúdio continuar trabalhando duro em novos conteúdos e atualizações não há muito o que temer. É um cenário semelhante ao de League of Legends e Dota 2.

Quem vencerá essa disputa? Sinceramente, pouco importa.

Quanto a cena competitiva, ainda é cercada de incertezas. Apesar de sua enorme popularidade, grandes empresas por trás das maiores ligas e campeonatos ainda não abraçam o battle royale como um eSport. Acredita-se que isso se dá a sua natureza aleatória e baseada na sorte, ou mesmo o fato de ainda serem títulos recentes. De qualquer forma, creio que dificilmente jogos tão populares ficarão de fora por muito tempo.

Battle royale tem se provado um gênero que veio para ficar, sucedendo tendências como os MMORPGs e MOBAs. Seu conceito simples de entender é chamativo e acessível, e sua imprevisibilidade faz com que a fórmula seja viciante tanto para quem joga quanto para quem assiste. A tendência é que continue crescendo nos próximos anos, principalmente entre as grandes publicadoras.

Estamos vivendo um momento único na indústria, onde um sucesso arrasador surge, captura milhões de jogadores e logo é desafiado por outro jogo ainda maior. Um cenário altamente imprevisível onde novas tendências atingem proporções cada vez maiores. Que época para se estar vivo, meus amigos.

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A Coluna do Carpe vai ao ar toda quinta-feira aqui no Voxel – caso ainda não tenha visto, vale a pena conferir a última edição.

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