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Coluna: caixas de loot com itens cosméticos também são um problema

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No último ano, é difícil passar uma semana que seja sem ouvir notícias relacionadas às infames “caixas de loot”. Se antes elas estavam relacionadas somente aos jogos que apostam em mecânicas do tipo, mais recentemente elas passaram a envolver também a política, já que muitos querem regular o que consideram um “jogo de azar” que pode ser acessado facilmente por crianças.

Em meio a essa discussão, criou-se uma divisão entre “caixas de loot feitas do jeito certo” e aqueles que estão erradas e prejudicam a indústria. A principal diferenciação surge do fato de que, enquanto algumas empresas usam a mecânica de forma que afeta diretamente a jogabilidade e progressão de seus títulos, outras preferem apelar somente para “itens cosméticos” — o que não seria um problema em si.

Apesar de concordar que, ao conceder somente mudanças de aparência, certas caixas de loot são menos danosas, não considero que elas são totalmente inofensivas assim. E também discordo quando dizem que elas não afetam em nada a maneira como um game funciona — fosse assim, ninguém teria motivos para investir nelas e gerar tanto lucro para as produtoras.

Caixas de loot em si são um problema

A grande questão é que todo o conceito por trás das caixas de loot é problemático, ao menos do ponto de vista ético. Se no passado qualquer item extra era oferecido como parte desbloqueável de um jogo, mediante o cumprimento de certos desafios, na geração em que o PlayStation 3 e Xbox 360 ganharam espaço, eles se transformaram em algo que você poderia pagar caso assim desejasse.

Caixas de loot

O problema das caixas de loot é que elas mudam essa relação. Se antes você podia abrir a carteira para comprar exatamente aquilo que queria, agora a história é outra: o consumidor está pagando não pela certeza de obter a recompensa que deseja, mas sim por uma “chance” de conseguir algo interessante.

E é justamente esse o quesito que faz com que mecânicas do tipo possam ser comparadas facilmente a jogos de azar. Você pode até ter a garantia de que vai receber algo em troca por seu investimento, mas nunca a de que aquilo que é realmente o desejado — o que, somado a animações visualmente impressionantes e sons interessantes, atacam a compulsão e convencem de que vale a pena “comprar somente mais uma” porque o prêmio desejado está “logo ali”.

todo o conceito por trás das caixas de loot é problemático

Ao tornar seu sucesso incerto, as caixas de loot são uma ferramenta bastante competente para incentivar você a continuar jogando — ou pagando — para benefício ainda maior das desenvolvedoras. Ao alimentar de forma constante a seleção de itens que podem ser obtidos, não somente uma empresa se certifica de que os jogadores sempre vão querer algo a mais, como diminuem as chances de que eles obtenham aquilo rapidamente.

“Mas é só cosmético”

O problema das caixas de loot é evidente nos games em que isso impacta a jogabilidade: Star Wars Battlefront II foi duramente criticado (com razão) por atrelar a evolução de personagens a recompensas obtidas de forma aleatória. Assim, na prática, quem gastava mais tinha mais chances de fortalecer seus personagens, resultando em partidas desbalanceadas (e menos divertidas) para quem preferiu evoluir somente jogando — processo em que a sorte desempenhava um peso desmedido.

No entanto, não dá para dizer que o uso de mecânicas do tipo não é problemático também em itens que só concedem recompensas cosméticas. Afirmar isso é não somente tirar o crédito de diretores de arte que se esforçam para bolar visuais atraentes, como também é ignorar que a maneira como seu personagem aparece frente aos demais jogadores é importante, especialmente em games que dependem de sistemas online.

O argumento de que “é só algo cosmético” parte do pressuposto de que a maneira como seu personagem aparece não importa, e isso não poderia estar mais longe da verdade. Especialmente em games que apostam em interações sociais constantes, ter um visual que denota sua personalidade e o diferencia dos demais é muito importante.

Destiny 2

Prova disso pode ser encontrada em Destiny 2: caso a aparência “não importasse”, os jogadores não ficariam tão revoltados com a maneira como os shaders — recurso que permite mudar as cores de equipamentos — funcionam. Se no primeiro game eles eram gratuitos e podiam ser usados livremente, na sequência eles se tornaram limitados, mas você podia comprá-los usando dinheiro real.

A importância da aparência é tão válida em um game como Destiny 2 quanto é em Overwatch — game que muitos usam como exemplo de “caixas de loot feitas da maneira certa”. Você prefere jogar com a versão original de Soldier 76 a que todo mundo tem acesso ou é mais divertido usar sua versão ciborgue, que vai diferenciar você durante as partidas? O mesmo acontece com outros personagens, e a Blizzard sabe muito bem bolar roupas que são bem mais divertidas do que os modelos-padrão oferecidos por ela.

Overwatch

Se itens cosméticos não importassem, não haveria motivo algum para empresas cobrarem por eles e os colocarem dentro de caixas de loot. Ninguém pagaria por um pacote para tentar conseguir a nova skin do Genji se isso não tivesse alguma importância dentro do jogo — diabos, muitos aguardam ansiosamente pelos eventos promovidos pela desenvolvedora justamente pelas novas roupas que vão surgir.

Levando em consideração que, em um jogo como PLAYERUNKNOWN`s Battlegrounds, um item raro pode demorar 80 ANOS para surgir naturalmente, me admira como alguém ainda considera que caixas de loot cosméticas ainda são “inofensivas”. Elas não vão fazer você ter menos chances do que outros jogadores, mas influenciam sim na diversão e na maneira como você se percebe dentro de um jogo.

Cosméticos afetam o aproveitamento de um game

Como aponta Jim Sterling em um dos vídeos da série Jimquisition, a aceitação de que está “tudo bem” jogar itens cosméticos em caixas de loot com chances aleatórias foi algo programado aos poucos pela indústria de games. Se antes vivíamos em um ambiente no qual itens cosméticos eram liberados naturalmente, aos poucos fomos convencidos de que eles eram algo pelo que deveríamos pagar.

Um dos maiores exemplos dessa mudança é a série Metal Gear Solid: se no primeiro game da série o terno usado por Snake era liberado após você terminar a aventura, em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain o processo é muito mais rápido e conveniente — basta abrir a carteira e pagar pelo item que, no passado, trazia uma sensação de conquista e servia como um “status” que provava que você realmente se dedicou ao game.

Metal Gear Solid V

A grande questão é que, embora uma roupa diferente possa não fazer você ter desvantagens em relação a outro jogador do ponto de vista mecânico, ela traz sim impacto sobre a jogabilidade. Afinal, qualquer coisa que possa fazer com que você se divirta mais e se sinta mais envolvido com o universo de um game acaba impactando na experiência de gameplay oferecida por ele.

Caso contrário, não veríamos comunidades de Dark Souls dedicadas ao que é chamado de “Fashion Souls”, em que as roupas de seu personagem contam muito mais visualmente do que pelos bônus que elas oferecem. E isso não é algo novo: em um game como Ragnarok Online, por exemplo, aquilo que você vestia na cabeça do personagem denotava seu nível de dedicação ao game, suas preferências pessoais e até mesmo a guilda a que você pertencia.

qualquer coisa que possa fazer com que você se divirta mais e se sinta mais envolvido com o universo de um game acaba impactando na experiência de gameplay

Se a parte cosmética não importasse para a experiência, ninguém estaria criticando um game como Xenoblade Chronicles 2 pelo fato de que as armaduras dos personagens não mudam. Algo do tipo não é “mero detalhe”, contribuindo para a sensação de que você está evoluindo de alguma forma e servindo como estímulo para que os jogadores queiram avançar e descobrir peças de roupa diferentes.

Quando todas essas questões são deixadas de lado e uma parte importante da experiência de um jogo é colocada dentro de um sistema aleatório (e eticamente questionável), isso é sim motivo de preocupação. Aceitar que está “tudo bem” que caixas de loot existam, contanto que elas só tragam conteúdos cosméticos, é abrir o caminho para que, no futuro, a indústria se torne cada vez mais predatória — como bem provou a aceitação de que estava “tudo bem” cobrar por itens e skins que antes faziam parte dos jogos que comprávamos. 

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