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Coluna do Carpe #13: a fórmula da Sony

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No momento, estou jogando God of War e amando a experiência. Entretanto, não pude deixar de notar como a Sony Santa Monica, estúdio responsável pelo game, se inspirou fortemente em outro título da publicadora, lançado em 2013: The Last of Us.

São muitas as semelhanças. O relacionamento paternal entre Kratos e Atreus lembra muito o de Joel e Ellie: o adulto ensinando a criança a sobreviver em um mundo hostil, em constante conflito com seu lado “durão”.

O paralelo não se restringe a narrativa. O garoto interage com os ambientes estabelecendo diálogos que aprofundam a trama e desenvolvem os personagens. Também auxilia nos combates, avisando caso algum inimigo esteja prestes a atacar pelas costas ou se há qualquer recurso útil por perto. Lembra em muito o comportamento de Ellie.

Até mesmo alguns detalhes menores, como quando Kratos ajuda Atreus a alcançar algum local alto para, a partir de lá, derrubar uma corrente para que o pai possa subir. Troque as correntes por cordas ou escadas e voilà.

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The Last of Us foi um marco para a indústria e, principalmente, para a Sony. Não é todo dia que uma nova propriedade intelectual conquista tanta popularidade e prestígio, ainda mais tão rapidamente.

Apesar de não ter sido nenhuma revolução em termos de game design ou narrativa, se tratando mais de uma evolução de conceitos vistos em jogos como Resident Evil 4 ou até mesmo a saga Uncharted, sem dúvidas elevou o nível de exigência. Apresentou uma trama mais madura e profunda do que a maioria das histórias vistas nessa mídia, com setpieces memoráveis e um gameplay sólido e acessível.

É claro que, com tanto sucesso, muitos outros estúdios quiseram pegar carona em sua fórmula. Só que isso foi ainda mais nítido dentro da própria Sony.

Uma família na contramão do mercado

God of War não é o único jogo da publicadora a apresentar semelhanças com The Last of Us. Na realidade, vai muito além disso. Há uma identidade compartilhada entre vários dos projetos que carregam o selo da Sony, algo que tomou força justamente de 2013 em diante e a partir do trabalho da Naughty Dog.

Jogo de aventura cinematográfico com perspectiva em terceira pessoa; foco no single player; narrativa intimista e emocionante. Quantos jogos recentes da marca é possível encaixar nesta descrição? God of War, Horizon: Zero Dawn, Uncharted 4: A Thief's End, The Last Guardian, The Order: 1886… isso sem mencionar alguns que ainda vão sair, como The Last of Us: Part II e Days Gone.

Há uma identidade compartilhada entre vários dos projetos que carregam o selo da Sony, algo que tomou força justamente de 2013 em diante e a partir do trabalho da Naughty Dog

É claro que, apesar de suas semelhanças, cada um destes títulos possui características que os tornam únicos. Mas que há uma espécie de “mesmo DNA”, como se todos fizessem parte de uma única família, não dá para negar.

É interessante observarmos ainda como esse movimento vai na contramão das tendências de mercado e, mesmo assim, tem dado certo.

Apesar de os jogos single player seguirem firmes e fortes, é o multiplayer quem tem dominado. Os games mais populares e rentáveis da atualidade são experiências sociais, como Fortnite, PlayerUnknown’s Battlegrounds, League of Legends e Counter-Strike: Global Offensive.

Várias das grandes publicadoras têm seguido por esse caminho, como a Eletronic Arts (FIFA; Star Wars: Battlefront 2; Anthem), Ubisoft (The Division; Rainbow Six: Siege; For Honor), Activision (Call of Duty; Destiny; Overwatch) e Microsoft (Halo 5: Guardians; Gears of War 4; Sea of Thieves). Por que então a Sony optou por uma abordagem tão diferente?

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Em primeiro lugar, o prestígio. Sua fórmula costuma ser muito bem recebida, principalmente por parte da crítica, e isso é importante para a Sony. Fortalece o nome da marca entre os gamers, faz dela o “top of mind” no mercado.

A ideia é ser a primeira empresa na cabeça das pessoas quando o assunto é “jogos de qualidade”, que se destacam entre os demais. Bons conteúdos exclusivos são uma das formas mais óbvias de agregar valor a um produto, e um claro exemplo disso são as séries e filmes originais do Netflix.

É também uma forma de evitar a concorrência direta com alguns dos gigantes da indústria, que dificilmente são superados. Apesar de a enorme demanda por experiências multiplayer, não há lugar para todos, o mercado é muito competitivo.

Overwatch e Paladins, por exemplo, dominam o segmento dos “shooters de herói”, não sobrando muito espaço para títulos como Battleborn, LawBreakers e Gigantic. Até mesmo Quake: Champions e Team Fortress 2, gigantes de outrora, estão “penando” para conquistar seu lugar ao Sol neste segmento.

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O mesmo vale para os MOBAs ou a sensação do momento, Battle Royale. League of Legends e Dota 2 não deram muitas chances a Heroes of the Storm ou Paragon, assim como PUBG e Fortnite atropelaram os mods de Arma 2 e H1Z1: King of the Hill.

Vários dos maiores jogos multiplayer já estão no PlayStation, exclusivos ou não. Às vezes, somar é mais sensato do que dividir

Porque brigar neste espaço se há uma demanda por experiências single player sendo cada vez menos atendida? Vários dos maiores jogos multiplayer já estão no PlayStation, exclusivos ou não. Às vezes, somar é mais sensato do que dividir.

Vale ainda dizer que a ideia de uma identidade como publicadora não é única da Sony. Os jogos da Bethesda, por exemplo, carregam muitas semelhanças entre si. A grande maioria deles são em primeira pessoa e com foco no single player. É o caso de The Elder Scrolls, Fallout, Wolfenstein, DOOM, Dishonored e Prey.

Bom ou ruim?

Se isso é bom ou não, só o tempo dirá. Consumidores, no geral, tendem a confiar mais em empresas que possuem um posicionamento claro e firme. É nítido como a Sony conseguiu criar uma aura em torno de seus jogos, sempre muito aguardados. Consolidou sua marca.

Alguns dizem de que isso resulta em uma falta de variedade na plataforma PlayStation, mas discordo. Seria, caso não houvessem centenas de jogos multiplataforma entre os mais diversos gêneros. Creio que, no geral, há uma variedade bem satisfatória sendo ofertada no PS4, independentemente da publicadora.

Que a Sony não permaneça eternamente em uma zona de conforto, com a sensibilidade para mudar quando necessário

Ainda há outro ponto a ser levado em consideração e que, aí sim, sinto certo receio: essa receita pode saturar. Novos jogos tentando apenas repetir experiências do passado, em uma fórmula tão exaurida, sem reais novidades, que já perdeu todo seu impacto.

Às vezes é necessário reinventar a roda e isso nem sempre é fácil. Que a Sony não permaneça eternamente em uma zona de conforto, com a sensibilidade para mudar quando necessário.

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É bem possível que você não goste dessa tal “fórmula da Sony”, mas visto a recepção de seus jogos e os ótimos números do PlayStation 4, não dá para negar que tem dado certo. E é como dizem: não se mexe em time que está ganhando.

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A Coluna do Carpe vai ao ar toda quinta-feira aqui no Voxel – caso ainda não tenha visto, vale a pena conferir a última edição.

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