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Coluna do Carpe #22: os jogos multiplayer de hoje não são para mim

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Cada vez mais tenho optado por jogos single player, e isso não é à toa. É claro, sempre preferi experiências assim e isso ainda pesa muito, mas também sinto que os jogos multiplayer de hoje estão diferentes, se direcionando a públicos nos quais não me identifico. Parece que eles não são mais feitos para mim.

Durante a sétima geração de consoles, meu tempo investido em single player e multiplayer até que foi bastante equilibrado. Destaque para a franquia Call of Duty, a qual joguei muito em meu Xbox 360 e, durante anos, comprei todos os jogos na pré-venda, jogando intensamente até o último nível possível.

Hoje, praticamente não tenho mais jogado multiplayer, e quando jogo, passo longe de vários dos títulos mais populares do mercado. Sim, eu mudei, minha rotina já não é mais a mesma, mas acredito que os jogos também estão diferentes. Uma coisa só deixou a outra ainda mais nítida.

A grande tendência

A moda são os tais “games as service”, ou jogos-serviço, que já mencionei diversas vezes aqui na coluna. São títulos pensados na longevidade, com uma base de usuários ativa por muitos anos.

Geralmente possuem uma barreira de entrada baixa, custam pouco ou até são gratuitos, e lucram através de pequenas compras dentro do jogo, como DLCs e microtransações. É comum que possuam atualizações frequentes e gratuitas, uma estratégia para fidelizar os jogadores e mantê-los consumindo por muito tempo. Também são conhecidos como “jogos-plataforma”, justamente porque são pensados de maneira mais abrangente do que um simples produto de mídia.

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Quanto mais tempo o jogador investe nestes jogos, melhor para as suas produtoras, pois significa servidores povoados e chances maiores de consumo. Por conta disso, jogos-serviço estão lotados de sistemas e práticas que incentivam uma permanência maior do jogador, como recompensas pelo tempo investido ou até “punições” para quem opta por algo diferente. Não é algo tão escancarado, mas está lá.

Algo bem comum nestes jogos é o famigerado grinding, que consiste em repetições das mesmas atividades a fim de “subir as barrinhas de XP” ou conseguir itens importantes. Nenhum jogador é forçado a isso, mas terá certas dificuldades em evoluir no game caso se recuse e, como consequência, pode ser deixado de lado por seus amigos. Torna-se quase uma obrigação.

Nenhum jogador é forçado a isso, mas terá certas dificuldades em evoluir no game caso se recuse e, como consequência, pode ser deixado de lado por seus amigos

Você pode até jogar apenas uma hora de Destiny 2 por dia, mas dificilmente conseguirá, neste ritmo, acompanhar os outros jogadores. Algumas atividades do jogo, como as raids, não podem ser feitas sozinho, e se algum membro da equipe não possui o nível mínimo para participar, ficará para trás. Como alguém que possui cada vez menos tempo livre no dia a dia, jogos assim tornam-se experiências frustrantes para mim.

Felizmente, nem todos os jogos atuais funcionam desta forma. Ainda é possível se divertir jogando casualmente em títulos como Counter-Strike: Global Offensive ou Overwatch, mas até mesmo estes jogos te incentivam de inúmeras formas a um nível maior de comprometimento, como se você estivesse perdendo a “verdadeira experiência”.

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É possível dizer que os jogos-serviço demandam um certo tipo de exclusividade por parte do jogador. Por exigirem um alto nível de comprometimento, boa parte dos gamers simplesmente não possuem o tempo livre necessário para se dedicar a mais de um ou dois jogos neste estilo. Muitos não veem isso como um problema, mas, pelo menos no meu caso, prefiro aproveitar várias experiências diferentes do que me limitar.

Escrevo isso como alguém que já se dedicou muito ao primeiro Destiny, entre 2014 e 2015. O investimento de tempo no jogo foi tão grande que acabei me privando de vários games que saíram durante estes anos, como os aclamados The Witcher 3: Wild Hunt e Metal Gear Solid V: The Phantom Pain.

Por exigirem um alto nível de comprometimento, boa parte dos gamers simplesmente não possuem o tempo livre necessário para se dedicar a mais de um ou dois jogos neste estilo

Videogames, no geral, também se tornaram experiências muito mais conectadas. Nos jogos multiplayer, assim como em uma rede social, as interações entre jogadores são parte integral da experiência.

Por conta disso, jogar com os amigos passou a ser algo praticamente obrigatório em diversos títulos recentes. Como já mencionei, as raids em Destiny 2 só podem ser realizadas em grupos, e diferentemente de outras atividades do jogo, exigem um nível de comunicação e conhecimento das mecânicas que desestimula o matchmaking comum, com jogadores aleatórios.

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Em Sea of Thieves, é até possível jogar sozinho, mas a experiência torna-se cansativa e chata após pouco tempo. O brilho do jogo está, justamente, em se organizar como um time no comando do navio e na caça aos tesouros.

É um jogo onde, enquanto uma pessoa cuida do timão, outras ajustam as velas, sinalizam inimigos no horizonte e atiram com os canhões. Cada um tem o seu papel, todos trabalhando coordenadamente através de um mesmo objetivo.

Isso sem falar que o nível de dificuldade para os lobos solitários sobe exponencialmente, já que, além de precisarem cuidar de tudo sozinhos, estão muito mais vulneráveis a grupos hostis espalhados pelo mundo. O barco para um jogador é menor, mais lento e possui menos poder de fogo.

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Essa necessidade de jogar com os amigos imposta em vários jogos não é um problema, em si. Cada jogo possui a sua proposta e o seu público, oras! A questão é que, hoje em dia, reunir quatro ou seis pessoas, como uma tripulação completa em Sea of Thieves ou uma party para raids em Destiny 2, não é para qualquer um.

Já perdi as contas das vezes em que uma raid complicada se estendeu por mais tempo do que deveria e fomos obrigados a desistir, já que parte do grupo precisaria acordar cedo no dia seguinte. Só a ideia de reunir todo mundo para jogar no mesmo horário, pessoas que, muitas vezes, possuem rotinas tão diferentes, nem sempre é fácil.

Está cada vez mais difícil encontrar jogos multiplayer que não exijam tanto comprometimento, o bom e velho “for fun”, feitos para te divertir e não para “sugar a sua vida” ou esvaziar os seus bolsos.

Jogos multiplayer estão sendo direcionados a pessoas que possuem muita disponibilidade de tempo ou que estão dispostas a sacrificar o pouco que possuem após o trabalho ou nos fins de semana em um ou dois jogos, abrindo mão de várias outras experiências.

São rumos compreensíveis da indústria, não culpo os desenvolvedores, mas confesso que isso me deixa levemente chateado. Está cada vez mais difícil encontrar jogos multiplayer que não exijam tanto comprometimento, o bom e velho “for fun”, feitos para te divertir e não para “sugar a sua vida” e esvaziar os seus bolsos.

Felizmente, há jogos para todos os gostos e rotinas, e pelo menos quanto ao single player, estou muito bem servido. Enquanto for possível jogar Zelda: Breath of the Wild ou The Elder Scrolls V: Skyrim no ônibus, não tenho muito do que reclamar.

Qual é a sua opinião? Possui uma percepção parecida com a minha ou pensa diferente? Vamos conversar no campo de comentários!

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