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Coluna: não gostou do final do jogo? Bata o pé! Alguém pode te ouvir

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Talvez eu precise rever algo que insinuei em outra coluna, escrita há uns bons dois meses. Naquela ocasião, DLCs e grande parte do conteúdo digital que é vendido após o lançamento de um título me pareciam unicamente armas na mão de escroques, mais interessados em arrendar mais alguns reais do seu bolso do que em realmente aperfeiçoar um produto — por exemplo, estendendo a experiência de forma realmente válida.

Mas algo ocorreu. Algo que pode simplesmente mudar o panorama da atual conectividade e distribuição de conteúdos por vias exclusivamente digitais — embora não necessariamente de uma forma positiva. Trata-se do verdadeiro levante organizado por fãs de Mass Effect 3, todos indignados com o final teoricamente pouco digno para a trilogia do multissexuado comandante Sheppard.

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Mas então, que um jogador ou cinéfilo fique indignado com um final potencialmente tosco é algo assim tão novo? Com certeza não — a menos que você considere títulos de Atari 2600, nos quais a simples existência de um final já era um verdadeiro luxo! A grande surpresa aqui é o fato de uma publicadora realmente ter dado atenção ao caso, considerando ainda a possibilidade de mudar o script, de forma que o desfecho possa condizer com as expectativas de fãs ciosos e indignados.

Birra + obra de caridade

Mas a comunidade de Mass Effect 3 foi ainda mais longe: há atualmente uma petição formada no site Chipin intitulada “Refazer Mass Effect”. Embora algo assim soasse inacreditável há alguns anos, a ideia é realmente simples: chamar a atenção da BioWare para a produção de um novo final, enquanto uma vultosa quantia é ajuntada para o fundo de caridade “Child’s Play” — algo em que nem o próprio Bono Vox teria pensado.

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Parece exagero? Bem, há quem tenha optado até mesmo por vias legais para resolver o assunto. O usuário do fórum oficial da BioWare El_Spiko chegou a entrar com uma ação na Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos, denunciando “propaganda enganosa” (sério mesmo?), já que a empresa, segundo ele, não produziu um final de acordo com as expectativas criadas ao longo da trilogia. Isso deve significar alguma coisa.

Vozes de usuários vs. indústria de jogos (round 1)

Talvez já seja incrivelmente batido dizer que a internet nos deu mais voz. Diferentemente do sentido de mão única que existia na indústria do entretenimento antigamente, hoje qualquer um dotado de um computador com conexão tem um belo megafone, com o qual pode gritar contra autoridades, celebridades e, é claro, com desenvolvedores de jogos.

Se isso é positivo? Provavelmente. O desenvolvimento de bens de consumo (no que se incluem os jogos, naturalmente) é hoje incrivelmente integrado, e um usuário indignado pode tanto incomodar uma fábrica de geladeiras quanto cobrar uma postura ética do seu artista favorito.

Talvez, em certa proporção, nós tenhamos mesmo nos tornado mais ativos do ponto de vista produtivo. Isso pode realmente melhorar a qualidade do que nos é ofertado nas prateleiras... Mas também pode acabar simplesmente podando artistas e jogando bueiro abaixo propostas que, às vezes, podem ser inovadoras, e por isso mesmo mal compreendidas — não, eu não me refiro aqui ao final de ME 3 em particular.

 Vozes de usuários vs. indústria de jogos (round 2)

Talvez um exemplo simples ajude aqui a ilustrar o que, me parece, deveria ser uma preocupação tanto da indústria quanto (principalmente) dos usuários diante da novela criada em torno do desfecho da trilogia da BioWare.

Trata-se do filme “O Nevoeiro”, de Stephen King (SPOILER ADIANTE!). Diante da morte certa, um grupo de sobreviventes de um ataque de origem desconhecida decida simplesmente desistir. Entretanto, há mais pessoas no carro do que balas no revolver. Dessa forma, alguém precisará “ficar” para encarar uma morte muito mais penosa.

Esse alguém é David, o “herói” do filme, que corajosamente mata a todos, incluindo o próprio filho, para em seguida esperar pelo pior... Acabando por ser surpreendido pelo fato de que o exército (quem diria?) já estava controlando a situação. Independentemente da intensidade do seu julgamento moral, é pouco provável que o desespero de David não tenha incomodado pelo menos um pouco.

Vozes de usuários vs. indústria de jogos (round 3)

Na verdade, muita gente acabou realmente chocada com o terrível final de “O Nevoeiro”. Elas poderiam mudar o filme? Afinal, aquilo incomodou, elas esperavam outra coisa do final. Quem sabe David poderia ter descoberto uma bazuca escondida entre arbustos próximos. Ou a música do rádio do carro pudesse operar mudanças fisiológicas nos cérebros das estranhas criaturas ("Marte Ataca!", alguém?), que acabariam implodindo.

Mas não, o final foi horrível, mas também questionador. Stephen King quebrou um padrão ali, provavelmente indo contra o final estereotipado que boa parte da audiência esperava. E o mesmo deve valer para Mass Effect 3 e tantos outros jogos que devem vir.

Quer dizer: será sempre válido que nós nos coloquemos entre o criador e sua obra? Ou isso pode massificar ainda mais uma indústria que já pena com a superexploração de formatos? Em outras palavras: será que eu, um fã, sempre sei o que é melhor e mais válido para a minha franquia preferida — unicamente porque estou em vantagem numérica e tenho a internet a meu favor? Ou será que ser surpreendido por uma criação pode ser algo vantajoso, ajudando ainda a romper padrões cansados e noções “da maioria”?

Caso o primeiro caso seja a verdadeira resposta, talvez eu encaminhe ainda hoje um email à SEGA. Sabe, o final de Sonic The Hedgehog não exatamente me agradou. Aquela coisa de simplesmente encontrar Esmeraldas do Caos e liberar animaizinhos do cativeiro. Quer dizer, e se ele terminasse com uma fêmea da espécie ou... Encontrasse uma bazuca?! Enfim. Melhor deixar pra lá.

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