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Coluna do Carpe #01: Essa é realmente a pior geração de videogames?

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Carpenido

NOTA DO EDITOR: "Faaaaaala rapeize, aqui é o Carpenedo...". Se você ainda não ouviu essa frase, talvez precise conhecer o Matheus Carpenedo. Ele é produtor de conteúdo sobre games na internet e um dos jovens talentos que habitam esse imenso mundo da internet, mais especificamente o YouTube.

Reforçando o compromisso do Voxel em trazer conteúdos diferentes e especiais, convidamos o Carpe pra habitar um espacinho semanal aqui no site com uma coluna na qual ele vai abordar os mais diversos assuntos da indústria de games, seja no âmbito dos jogos, dos consoles, dos serviços, das empresas e tudo mais que diz respeito a isso.

Então já deixe marcado: todas as quintas a Coluna do Carpe vai ao ar. Compartilhem o conteúdo e deixem seus feedbacks e opiniões nos comments - assim você dá mais força para que a gente traga ainda mais novidades pro Voxel.

Sem mais delongas... Fala, Carpe!

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Esse é um assunto recorrente em discussões de videogames: parece que essa geração de jogos mais decepciona do que entrega. Expectativas não alcançadas, práticas abusivas, declínio dos games single player… Escuto muito que o cenário “já foi melhor”. Será que estamos mesmo vivendo um dos piores momentos da indústria? Ou se trata de uma percepção equivocada?

Sim, foram muitas decepções. Jogos que prometeram o céu, campanhas de marketing estrondosas, mas que acabaram vítimas do próprio hype. Nem sempre são jogos ruinsé bom deixar isso claro, mas simplesmente não atingiram as expectativas criadas, e, por conta disso, deixaram um gosto amargo. Watch Dogs, Evolve, The Order: 1886, No Man's Sky, Mass Effect: Andromeda… A lista vai longe.

Há também aqueles games que vieram quebrados no lançamento, repletos de bugs ou incompletos. Títulos que, por erros de projeto, pressão das publicadoras ou até mesmo pura ganância, foram lançados antes da hora. “Dá para arrumar via atualização por download, né? Então, depois a gente dá um jeitinho.” Driveclub, Assassin's Creed: Unity e o port de Batman: Arkham Knight no PC que o digam.

Agora, esses games ao menos saíram. Nos últimos anos, vimos vários títulos aguardadíssimos sendo cancelados, e as razões quase sempre não convencem. Vão desde problemas no orçamento até desavenças entre as empresas envolvidas. Silent Hills, Scalebound e o Star Wars da Visceral Games são alguns dos melhores que nunca teremos a chance de jogar.

Relacionado a isso, ainda há a crise dos jogos single player. Sim, algumas franquias vão de vento em popa, como The Legend of Zelda, mas várias outras fracassaram em suas expectativas comerciais, muitos jogos sequer se pagaram. Sagas tradicionais como Deus Ex, Hitman e Mass Effect já entraram na geladeira, sem planos de novas sequências tão cedo.

Quanto aos jogos multiplayer, seu domínio nos consoles também veio acompanhado de várias práticas abusivas. Conceitos que antes apareciam apenas em jogos gratuitos, como itens desbloqueáveis através de dinheiro real, hoje marcam presença até mesmo em games de “preço cheio”. As famigeradas lootboxes mudaram a forma como enxergamos os desbloqueios nos jogos: o que antes era por mérito ou esforço agora é por sorte, quase como em jogos de azar. Polêmicas como a de Star Wars: Battlefront 2 tomaram repercussão até fora da esfera dos games. Aliás, nem os jogos com foco em single player escaparam, já que Terra Média: Sombras da Guerra e Need for Speed: Payback, por exemplo, contam com microtransações que aceleram seu progresso — e tornam a experiência bem cansativa para quem opta por jogar à moda antiga.

As famigeradas lootboxes mudaram a forma como enxergamos os desbloqueios nos jogos: o que antes era por mérito ou esforço agora é por sorte, quase como em jogos de azar

Porém, apesar de tudo, ainda acredito que há muito o que comemorar. Eu sei, pode parecer estranho vir com esse papo após listar tantos problemas, mas é justamente para observarmos como, na maioria das vezes, colocamos mais peso em nossas decepções e temos aquela velha mania de romantizar o passado.

As gerações passadas trouxeram grandes jogos, claro, mas a atual também. The Witcher 3: Wild Hunt, Bloodborne, Fallout 4, DOOM, Horizon: Zero Dawn, Zelda: Breath of the Wild, Super Mario Odyssey… são inúmeros os games que atingiram um altíssimo patamar de qualidade técnica e criativa, verdadeiras obras-primas, e que serão lembrados no futuro como clássicos. Além desses óbvios blockbusters, existem muitos outros jogos excelentes que acabam passando abaixo do radar de muitos, como Dishonored 2, Alien: Isolation, Prey, Sunset Overdrive e Deus Ex: Mankind Divided. Dizer que não estão à altura dos games no passado é uma baita injustiça.

Também não dá para deixar de falar dos jogos independentes. Ferramentas de desenvolvimento acessíveis, aliadas a políticas abertas das publicadoras, possibilitaram que novos talentos surgissem de todos os cantos do planeta. Nunca vimos tantos títulos indie, e vários deles tão ou mais incríveis que as maiores experiências AAA. Diversos games realmente inovadores, movidos pela paixão, e que acabaram influenciando até algumas das maiores franquias do mercado.

Quem diria que o gigante Resident Evil se inspiraria em Amnesia e Outlast, por exemplo? Ori and the Blind Forest, Inside, Hellblade: Senua's Sacrifice, Cuphead, Life is Strange e Rocket League são apenas alguns dos games independentes que chacoalharam a indústria nos últimos anos. Vale mencionar até a febre do momento, PlayerUnknown’s Battlegrounds. A ideia não veio de uma grande empresa com rios de dinheiro, mas sim de Brendan Greene, um modder da comunidade de ARMA 2. É um game que surgiu graças ao ecossistema atual, onde qualquer um pode desenvolver e publicar um jogo.

Ferramentas de desenvolvimento acessíveis, aliadas a políticas abertas das publicadoras, possibilitaram que novos talentos surgissem de todos os cantos do planeta

Agora, talvez o melhor disso tudo: games nunca foram tão acessíveis. Promoções arrasadoras são comuns tanto em serviços online quanto no formato físico, e assinaturas oferecem um ótimo custo-benefício para quem quer jogar muito pagando pouco. Os gigantes do mercado se deram conta de que a única maneira de vencer a pirataria é oferecendo um serviço melhor.

Você muito provavelmente tem uma lista imensa de jogos aí no seu backlog, diversos jogos que comprou em alguma sale da Steam e não jogou até hoje. O Xbox Game Pass, por exemplo, oferece um catálogo de mais de 100 jogos, incluindo todos os novos exclusivos da Microsoft Studios, e por apenas R$ 30 ao mês. Nem mesmo nos “tempos da destrava” tínhamos acesso a tantos jogos por esse mesmo valor.

Os gigantes do mercado se deram conta de que a única maneira de vencer a pirataria é oferecendo um serviço melhor

Isso tudo levanta algumas questões: será que o problema não está em nossas expectativas? Essa é, definitivamente, a geração do hype. Somos diariamente bombardeados por trailers e informações sobre os títulos vindouros, como nunca antes. A internet é um poderoso veículo de divulgação, mas geralmente não trabalha a nosso favor. Lembre-se: o principal interesse dos estúdios e publicadoras é fazer você comprar, pouco importa se isso pode prejudicar sua experiência. É por isso que vemos tantas promessas vazias, ou trailers que já revelam todas as surpresas que teríamos jogando.

Outro ponto: a nostalgia, um sentimento de saudade idealizada, quase que irreal. Alguns games podem estar diretamente atrelados a boas lembranças de nossa infância ou adolescência, os colocando em verdadeiros pedestais, praticamente inalcançáveis. A qualidade do jogo se confunde com o bom momento que vivíamos quando os jogamos. Admita: sempre há aquele game de que gostamos apenas pela nostalgia e hoje reconhecemos que não era tão bom assim. Você talvez até já tenha se frustrado ao jogá-lo recentemente.

Muito se discute também sobre a ausência de grandes inovações. É inegável: o salto evolutivo dessa geração em relação ao da anterior foi discreto, tanto nos gráficos quanto na escala e na proposta dos jogos. A transição do SNES para o Nintendo 64, por exemplo, tirou o Mario de plataformas chapadas e o colocou em ambientes 3D, literalmente uma nova dimensão. Enquanto isso, Uncharted 4: A Thief’s End (PS4) apenas repete e aprimora a mesma fórmula consagrada lá em 2009, no PlayStation 3. A enxurrada de remasterizações nessa geração só escancara que, com exceção dos visuais, pouco mudou.

Porém, isso não é algo necessariamente ruim. Videogames estão passando por um processo de consolidação como mídia de entretenimento. O mesmo já aconteceu em outras formas de arte. O cinema, por exemplo, existe desde o século XIX e, embora fosse algo bem experimental em seu início, já segue patrões bem definidos há décadas. Filmes recentes, no geral, não são tão diferentes de vários dos lançamentos da década de 80: mesma duração, clichês, formas de se contar a história… claro, com exceção de alguns aspectos técnicos.

Videogames são uma mídia recente, se comparados ao cinema ou à música, é natural que em seus primeiros anos houvesse um ritmo evolutivo muito mais acelerado. Estamos vivendo o momento em que a indústria está encontrando seus padrões. Isso não quer dizer que a inovação morreu, que fique bem claro. Sempre há espaço para novas ideias, principalmente entre os desenvolvedores independentes. Porém, não espere uma nova revolução técnica a cada 5 ou 6 anos, como foi na década de 90.

Videogames estão passando por um processo de consolidação como mídia de entretenimento

A verdade é que estamos mais exigentes, está cada vez mais difícil nos impressionar. O mercado saturou, e isso, aliado à nostalgia, faz com que novas experiências dificilmente tenham o mesmo impacto daquelas no passado. Entretanto, não muda o fato de que a indústria nunca foi tão grande, e existem inúmeros jogos de qualidade saindo todos os anos. Basta deixarmos as decepções de lado e darmos uma chance aos que merecem.

O que você pensa a respeito? Essa geração é realmente tão ruim quanto pintam por aí? Conte pra gente no campo de comentários.

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