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Vingadores: o que um jogo cancelado dos heróis pode ensinar à Square Enix?

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Sabe aquela expressão: o que olhos não vêem o coração não sente? Ela é, basicamente, o resumo da expressão da maioria de nós ao ver pela primeira vez o vídeo de pré-Alpha de um jogo d’Os Vingadores planejado para a geração passada que foi vazado em meados de 2015, chamado de The Avengers. Quem diria que algo tão bom cairia em um limbo sem volta?

Nós aproveitamos a semana de lançamento do novo filme da Marvel, “Vingadores: Guerra Infinita”, para relembrar um pouco do histórico de um dos games mais promissores dos heróis da companhia e fazer uma reflexão: como a Square Enix pode (e deve) pensar um pouco fora da caixa para o novo título dos Avengers dessa geração? The Avengers, projeto cancelado da THQ, pode ser o norte para essa resposta.

Avengers

O que era o game The Avengers da THQ?

O ano era 2012, data do lançamento do primeiro "Os Vingadores" (um dos filmes mais aguardados da última década). Como toda grande obra cinematográfica hollywoodiana, campanhas de marketing andam de mãos dadas com o longa-metragem. Brinquedos, roupas, acessórios, material escolar, animações e, como não pode deixar de faltar, jogos que envolvam a marca “Vingadores” acompanharam o lançamento do filme, pegando a crista da onda para divulgar ainda mais o nome e render lucros maiores às companhias envolvidas.

Avengers

Em 2010 a – agora  extinta – THQ Studio Australia (posteriormente junto com a Blue Tongue Entertainment) conseguiu algo bem legal: os direitos para trabalhar em um jogo de Os Vingadores, que seria lançado em 2012 para acompanhar o lançamento nas telonas. Até aí, nada de novo sob o sol, já que os heróis da Marvel já haviam aparecido em inúmeros títulos. O projeto começou como um game de ação em terceira pessoa para Xbox 360 e PS3 e teria uma jogabilidade bem padrão do que vemos por aí. Que original, né?

Mas eis que em um lampejo de criatividade ou uma epifania milagrosa que caiu como um trovão na equipe ajudou a ajudou a ter uma ideia: e se eles tentassem algo diferente dessa vez? Nesse momento surgiu o conceito de The Avengers, um jogo que traria os principais vingadores por uma nova perspectiva: a primeira pessoa. Como diria depois Matthew Ota, designer sênior da THQ, a decisão foi para “diferenciar o título do longo histórico de games de ação em terceira pessoa que a Marvel já tinha”.

Antes de dar continuidade ao especial, vamos fazer uma pausa aqui. Estamos falando de algo elaborado em 2010 e que, talvez, hoje não seja tão incrível. Antes de mais nada, se você não conhece esse jogo que estou me referindo (ou não se lembra direito), dê uma olhada no gameplay abaixo:

Sim, ele era promissor desse jeito. Mesmo sendo uma build pré-Alpha (ou seja, praticamente no começo do desenvolvimento), é possível ver muitos elementos muito bem-trabalhados e alguns conceitos que, para a época, eram novos ou pouco explorados. Analisando friamente o material acima, é possível ver muitas características que os atuais e famosos shooters de arena têm. Um jogo em primeira pessoa que tem armas, golpes corpo a corpo e habilidades com recarga: mesmo sendo um PvE, isso é bem similar ao que Overwatch faz hoje em dia. Um shooter que não é bem um shooter.

Em suma, The Avengers seria uma espécie de brawler ou beat 'em up em primeira pessoa que focaria no multiplayer cooperativo. A ideia era que até quatro pessoas pudessem jogar em splitscreen, resgatando o espírito da tal "jogatina dos anos 90" em que todos se reuniam no sofá de casa para se divertir. Se você optasse por jogar sozinho, a THQ Australia compensaria os demais heróis com uma inteligência artificial de altíssima qualidade.

Entre as idas e vindas, discussões e planejamentos, a ideia de trazer o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra foi consolidada como conteúdo adicional (e ainda mais, caso o jogo desse muito certo). Muitas outras coisas foram colocadas em pauta também, inclusive a opção de ter um modo jogável apenas com o Kinect (lembre bem disso). Mas o outro elementos que realmente chamava atenção era a história do título.

Esqueça o filme: a história seria inspirada nos quadrinhos

Além do gameplay bem empolgante, havia algo além que tornava The Avengers da THQ tão promissor: mesmo o lançamento sendo programado para acompanhar o longa-metragem, ele não era um jogo do filme. A história seria inspirada na saga “Invasão Secreta” da Marvel e teria os Skrull como vilões (pelo menos isso é tudo que se sabe).

Secret War

Isso por si só já é interessante, pois a equipe entraria de cabeça nos quadrinhos e não estaria atrelada à trama do longa-metragem “Os Vingadores”. Porém, o trabalho da THQ Australia foi um pouco além: o responsável pelo enredo do jogo seria Brian Michael Bendis, o criador de “Invasão Secreta” e “Guerra Secreta” (não confundir com “Guerras Secretas”, no plural). Em outras palavras: a própria mente criativa da HQ que serviu como inspiração seria quem iria guiar o roteiro para o lugar certo.

Isso mostra que o game poderia ser algo além. Ter o roteirista original da saga pelo qual o game era inspirado era realmente um aspecto bem importante para a qualidade do projeto. Segundo Bendis, a história estava quase completa e traria os maiores heróis da terra lutando contra os Skrull, que planejavam escravizar a raça humana e criar alienígenas que mesclavam os poderes dos Vingadores, X-Men, Quarteto Fantástico e demais equipes.

BendisBendis, o roteirista da Marvel (agora na DC) e do game

O tom, que já parecia mais sério e sóbrio, só foi reforçado com o que vimos no gameplay: execuções dos Skrull em clima cinematográfico e alguns elementos mais complexos.

O que deu errado?

Tudo era muito promissor. O jogo estava bonito, a ideia era legal e o desenvolvimento estava andando. Mas “andando” não era a palavra certa e talvez “correndo” seja o melhor termo. Como expliquei no primeiro subtópico, The Avengers tinha como intuito surfar na crista da onda do lançamento do filme “Os Vingadores” em 2012. Mas para isso acontecer, a equipe precisava acelerar, já que errar o timing poderia ter um impacto significativo no marketing e aceitação do jogo.

Contudo, um único estúdio era muito pouco para entregar a qualidade alta que a equipe esperava no tempo definido. Eis que chegou a Blue Tongue Entertainment, outra desenvolvedora que ajudaria a acelerar as coisas. Mas por uma reviravolta do destino, o período parecia não ser o certo para uma tentativa mais ousada.

THQ

Como vocês devem se lembrar, a THQ entrou com pedido de falência em 2013 e muitas de suas franquias foram distribuídas para outras publishers. Apesar de ser algo além do nosso ponto na linha temporal, guarde essa informação. Em 2011, quando o jogo estava a todo vapor e a THQ enfrentava turbulências financeiras (alguns jogos e periféricos estavam causando muitos prejuízos), a produção começou a ficar muito cara. Muito cara mesmo.

Para uma empresa que pensavam em entrar com pedido de falência, manter dois estúdios na Austrália estava ficando difícil. Vamos contextualizar ainda mais a situação: em 2011, o dólar australiano estava subindo e a THQ, como uma empresa americana, estava gastando mais com suas divisões australianas do que com as estadunidenses.

Em algum momento desse processo, manter The Avengers até 2012 (e sem a garantia completa de que o jogo de fato sairia junto com filme e traria lucros) se tornou inviável. Pode ser que desse certo, mas com a situação financeira da THQ seria um suicídio prematuro e o último prego do caixão. O risco era simplesmente muito alto: dar continuidade a um projeto diferente demais, caro demais e com garantias de menos ficou fora de questão.

Thor

Quando a situação se tornou crítica, a THQ recorreu à Marvel e tentou convencê-la de que dar continuidade ao game The Avengers seria algo muito bom – afinal, quem é que vai pedir dinheiro e dizer que seu peixe não é tudo isso? A editora se negou a financiar o restante do título e, infelizmente, a produtora teve que vender os direitos para outra publisher para diminuir o prejuízo.

A empresa que adquiriu os direitos de um jogo d' Os Vingadores foi ninguém menos que a Ubisoft. Mas se você ainda espera algo promissor no futuro, pode tirar o cavalinho da chuva: essa carta na manga já foi gasta e eles realmente lançaram um game dos heróis em 2012, perto do lançamento do longa-metragem. Você deve estar confuso, né? Afinal, como assim um título dos Avengers saiu em 2012 e você não se lembra?

Se você é um desses que não sabe que raio de game é esse, não o culpo: ele foi realmente muito apagado e nada promissor. Estamos falando de Marvel Avengers: Battle for Earth, um jogo para Xbox 360 que utilizava o Kinect como pilar de sua jogabilidade (e que depois foi portado para o Wii U). Sim, esse jogo, que teve 62 de média no Metacritic no Xbox 360 e 50 no Wii U. E acredite se quiser, mas ele realmente foi inspirado na saga “Invasão Secreta”. Nada contra o título e houve pessoas que gostaram bastante, mas ele simplesmente não estava à par com a ideia original.

Mas e aí? Agora que a THQ voltou à ativa e os filmes d’Os Vingadores estão com tudo, não há chances de o projeto retornar? Muito improvável (para não dizer impossível). Quando o vídeo vazado do game surgiu dos confins da internet (obrigado DidYouKnowGaming) e nos deixou tristes por saber que ele quase existiu, Bendis, o roteirista, se pronunciou no Tumblr e disse, em suma, que o game está morto mesmo e não há o que fazer.

Basicamente, Bendis comentou o essencial: apesar de a ideia ser muito legal (“MUITO”, em caixa-alta, nas palavras dele) e ele simplesmente não entender como deixaram o projeto ser cancelado, o roteirista disse qualquer resquício que ainda exista está datado em pelo menos uma geração tecnológica. E é verdade. Portanto, não tenha esperanças. Mas há alguma luz no fim do túnel para compensar isso. Sim, o jogo da Square Enix dos Avengers.

Avengers

O que a Square pode (e deve) retirar disso?

Temos algumas verdades aqui. A Square Enix é uma empresa gigantesca e costuma entregar grandes games AAA de altíssimo custo de produção, fato. O teaser de Avengers Project da Square parece seguir essa linha de qualidade e tom maduro, fato. O jogo será desenvolvido pela Crystal Dynamics e a Eidos, fato. Mas é isso. Não há absolutamente mais nada de informações sobre o título.

Avengers

E convenhamos: até os grandes erram a mão de vez em quando. É difícil pensar que um título AAA grande como esse e com bastante tempo de desenvolvimento seja ruim, mas até agora não temos como ter certeza. Ele pode ser um "mais do mesmo" ou até cancelado, é impossível prever (lembrete: a Square não tem um histórico bom em entregar games de forma rápida e quase sempre os desenvolvimenttos são conturbados).

Onde eu quero chegar com isso? Basicamente, se a Square Enix quer algo que cause um impacto, é preciso pensar fora da caixa como a THQ Australia fez uma vez. Não me entenda mal: eu amo os jogos da série Batman: Arkham e o novo Spider-Man da Insomniac parece muito, muito promissor, mas mais uma vez o ciclo está se repetindo: os desenvolvedores estão se apegando à uma fórmula segura e que é comprovadamente garantia de sucesso, e estão desgastando-a. Desde que Batman: Arkham Asylum surgiu em 2009, a maioria dos games de heróis se apropriaram desse estilo.

Hoje, Spider-Man parece incrível. E um jogo d’Os Vingadores com o mesmo estilo em 2019 ou 2020? Talvez nem tanto. Se isso acontecer, dificilmente ele será ruim, mas quando um estilo começa a ser iterado repetidas vezes, os prejudicados somos nós. A lição que fica no fim do dia é que a THQ, mesmo com as suas dificuldades, quis ousar. Em 2018, talvez The Avengers, que era em primeira pessoa e um brawler, não fosse nada de outro mundo. O tempo passou, assim como os paradigmas mudaram de lá pra cá. Mas em 2012? Ele poderia ter sido pioneiro.

E o que a Square Enix precisa para ser pioneira? Certamente trazer uma nova perspectiva à indústria ajudaria muito. Como isso pode ser feito somente os game designers sabem, mas é preciso ousar. Um jogo de aventura que siga os mesmos padrões ou até mesmo um RPG é algo muito esperado, mas o grande "X da questão" é como eles se destacarão com o que já existe.

Avengers

A empresa não precisa necessariamente reinventar a roda (se conseguir, melhor ainda, mas não é preciso). Um jogo de heróis em mãos competentes já têm seu valor com pouco esforço, isso é fato. Mas se traçarmos um paralelo com um God of War, por exemplo, fica visível que é possível se reinventar sem necessariamente inovar na indústria – afinal, o novo jogo da Sony compilou muitos elementos já existentes e poucos prováveis de se imaginar em uma franquia já em andamento.

Cory Barlog, diretor de God of War, disse em inúmeros casos que foi preciso convencer a equipe a aceitar ideias que pareciam pouco convencionais. Ninguém comprou a ideia de uma câmera em terceira pessoa, em trazer Kratos à mitologia nórdica e de nunca cortar a câmera, mas no fim foi tudo isso que ajudou a criar um título espetacular. O que a Square Enix pode fazer por Vingadores que ninguém mais fez? A Marvel não é muito forte na parte dos games, mas isso pode mudar com um enredo de primeira, uma perspectiva diferente.

Avengers

Com o único teaser disponível, vemos que provavelmente a temática será a desolação e a derrota. A Square Enix pode muito bem maturar essa ideia e trazer algo que nenhum outro jogo de herói realizou até o momento. A escolha da Crystal Dynamics pode ser a solução, afinal, foi ela quem conseguiu reinventar Tomb Raider. No fim, não queremos um Avengers com cara de Final Fantasy ou Tomb Raider: queremos um Avengers com a excelência da Square.

Portanto, para fechar o artigo, largo a pergunta nas suas mãos: será que a Square Enix vai ousar?

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