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Coluna: Yakuza é uma série única no mercado e você deveria dar uma chance

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Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Voxel sobre o assunto.

Atualmente, a série Yakuza está chegando ao seu sexto título e, mesmo com demora para chegar ao Ocidente, a franquia tem sua base de fãs extremamente fiel que surta de felicidade a cada nova iteração (me considero um deles, inclusive). Mas, mesmo com tamanho carinho dos seus seguidores, os games não tem a popularidade que merecem por aqui. Por quê?

A grande verdade é que Yakuza é um pouco mal interpretado por essas bandas. Se olharmos o Metacritic e as análises do Voxel, todos os títulos da série sempre tiveram notas boas e foram elogiados à rodo, mas o estigma de nicho sempre ficou. Mas chegou a hora de desmitificar a franquia e mostrar porque ela vale seu tempo e no mínimo uma chance.

Yakuza 6

Shenmue: onde a série começa

A SEGA sempre foi uma empresa focada nos arcades. Não necessariamente as máquinas de arcade, mas em experiências do estilo. Diversos consoles da companhia sempre foram recheados de games da modalidade, como Soul Calibur, Daytona, The House of the Dead e muitos outros gêneros. No meio dessa jornada, a SEGA desenvolveu o que foi considerado por muitos uma obra-prima: Shenmue, um título que fugia um pouco desse padrão.

Esse é o ponto. Para entender a série Yakuza, primeiro devemos olhar para o passado e analisar o que veio antes. Shenmue é uma verdadeira peça além do seu tempo. Muitos anos antes de se discutir o que seria um bom mundo aberto e como um ambiente virtual deveria ser preenchido de atividades, Shenmue já tirava de letra, tudo isso somado a um combate com elementos de beat ‘em up que só a SEGA sabe fazer.

Shenmue 1 & 2

Apesar de serem franquias bem distintas e espaçadas uma das outras, Shenmue é quase como o protótipo do que Yakuza viria a ser um dia, misturando um mundo aberto muito rico, imersão cultural no ambiente da narrativa e um sistema de luta que misturava elementos de beat 'em up arcade com visões um pouco mais modernas.

Shenmue já tinha muitos elementos do que Yakuza reapresentaria no futuro, mas ainda melhor

Depois do Dreamcast, a saga de Shenmue foi para um limbo (retornando apenas em 2015 com o anúncio do terceiro game na E3) e ficou lá por muito tempo. Mas a ideia, a experiência e o espírito da série sobreviveram em Yakuza, que renasceu no PlayStation 2 com parte do que Shnemue trouxe à mesa e adicionou sua própria dose de originalidade.

O espírito arcade evoluído, consolidado e modernizado

O primeiro ponto que deve ser desmitificado na franquia Yakuza é que ela não é o GTA japonês. O mundo aberto e a temática “gangster” trazem similaridades, claro, mas os dois jogos são bem diferentes. A comparação com a série da Rockstar é um ótimo ponto para atrair jogadores, mas também pode ser um tiro pela culatra: Yakuza é uma experiência muito mais arcade e com apresentação completamente diferente, algo que pode quebrar expectativas.

Yakuza

O estilo arcade de beat ‘em up não é algo muito comum hoje em dia e, basicamente, se resume a títulos indies aqui e ali, explorando a nostalgia dos órfãos de Double Dragon, Cadillac and Dinossaurs e por aí vai. Seguindo na contramão da indústria, Yakuza abraçou esse estilo em decadência (não confundir com deterioração ou alguma outra palavra negativa, já que estamos falando apenas da popularidade) e o expandiu, o transformou. Evoluiu.

Yakuza é nada mais nada menos que um beat ‘em up muito robusto, mas que soube aproveitar as tendências do mercado e adaptar elementos que surgiram com o passar dos anos. A franquia é um misto do clássico Shenmue com tudo que há de moderno, como árvore de habilidades para criar senso de progressão, sidequests para prolongar a jogatina, humor que deu um tom característico à série, combate único, mini games exóticos e por aí vai.

Yakuza

O combate caiu como uma luva em um game que se passa no Japão, já que isso reflete a cultura e a lei nipônica em dificultar o acesso às armas de fogo. Tudo é resolvido no mano a mano, que é um dos pilares da jogatina. Esses elementos dão um tom leve à jogatina e cria a sensação singular que cada título da franquia proporciona.

Yakuza soube trabalhar um gênero em decadência e deixá-lo moderno, misturando seu próprio DNA com elementos novos

Esse é o ponto que Yakuza mais acerta, de longe. Com o passar do tempo, a franquia conseguiu construir seu próprio DNA e fundir aspectos modernos em cada novo game. Tudo isso somado ao fato de a SEGA ter mantido um estilo tão distinto vivo e aprimorado nos dias de hoje, temos algo realmente impressionante. Chega a ser curioso observar uma série com tantos contrastes coexistindo em perfeita harmonia. Mas essa fórmula de bolo funciona, e muito bem.

Um verdadeiro mergulho imersivo na cultura japonesa

Yakuza pode ser sobre muitas coisas: bater em malandros na rua, se aventurar no submundo dos atritos e desentendimentos das famílias da yakuza, fazer sidequests divertidas ou só explorar o mundo. Mas para muita gente é simplesmente o gostinho de estar no Japão mesmo a milhares de quilômetros de distância.

Yakuza

A série Grand Theft Auto, por exemplo, traz uma ambientação típica americana e nos passa uma sensação clara de vida estadunidense (até porque a narrativa é uma grande crítica/sátira do estilo de vida de lá), mas mais por consequência do que intuito. Yakuza vai um pouco além: ele tem a intenção de retratar o Japão de perto, no dia a dia, na cultura, nos hábitos e em tudo que há de diferente nas Terras do Sol Nascente.

Diferentemente de um GTA, o conteúdo de Yakuza é condensado em um ambiente menor, não espalhado em um mundo aberto vasto. As sidequests estão distribuídas nas esquinas e parques todos os cantos de Kamurocho, distrito fictício de Tokyo, e cada uma delas é traz um golinho de imersão no Japão.

A série GTA passa uma sensação de vida americana; Yakuza cria um verdadeiro mundo imersivo no Japão

Não é como se outros títulos não tivessem feito isso, como é o caso de Sleeping Dogs. Esse é um título muito mais próximo da proposta de Yakuza, já que se apoia no combate corpo a corpo e também retrata muitos elementos da cultura de Hong Kong, mas ainda é um game que se apoia mecânica e estruturalmente em elementos de GTA.

O mais legal de tudo é que os protagonistas da franquia são, geralmente, brutamontes que desconhecem algumas bizarrices e referências pop que circulam pela cidade, resultando em explicações detalhadas para o jogador, ajudando assim os ocidentais a entenderem mais do que estão jogando. Completando, há muitos mini games sensacionais e que não vemos todos os dias, como baseball, karaokê, casas de arcade da SEGA, conversas em bares nada convencionais, administração de cabarés e por aí vai. As atividades são das mais variadas e completamente diferente de tudo que você vê em outros games do gênero.

Narrativa séria e política (mas também escrachada)

Grande parte da exploração na série Yakuza o levará para sidequests engraçadas ou que mostram o bizarro, criando um humor bem singular. Contudo, quando nos empreitamos nas missões principais, o tom muda da água pro vinho: a trama geralmente aborda conflitos sérios e recheados de contextos sócio-políticos japoneses.

Yakuza

E, com seis games grandes na lista, pode ser meio difícil pensar de onde começar. Apesar de as duas melhores escolhas já existirem no PlayStation 4 (Zero, que é um prequel, e Kiwami, que é o remake do 1), a parte boa é que cada jogo tem uma trama que pode ser saboreada sem muitos problemas caso você não tenha jogado dos demais títulos.

Se tudo é tão bom, como a série se perdeu no Ocidente?

Aqui vem a pergunta de um milhão de dólares: se Yakuza é tudo isso, porque ele chega com atraso no Ocidente e não é tão popular por aqui? Do que se relata, o principal problema mora na divulgação da série por aqui e em alguns problemas no primeiro game, que chegou para o PlayStation 2.

Até hoje, a série Yakuza carrega uma mancha no Ocidente por causa do marketing do título, que foi amplamente divulgado como o “GTA japonês”. Não só isso não é correto como também é díspar, já na década de 2000 a franquia da Rockstar era amplamente conhecida por sua violência exacerbada, mundo aberto grande e jogabilidade livre com carros. Yakuza não é sobre isso. Em uma era que clones de GTA apareciam de todos os lados, qualquer impressão negativa poderia queimar o filme de um novo título.

Yakuza

Isso por si só já gerou um certo “marketing enganoso”, mas havia ainda mais. Na época, a SEGA localizou 100% o game para o Ocidente, o que incluiu mudar alguns aspectos do jogo para se encaixarem na cultura do lado de cá do mundo. Alguns mini games foram cortados, diálogos tiveram seu significado alterado e a dublagem (que teve até Mark Hamill, o Luke Skywalker) foi completamente distorcida para associar os membros da yakuza com gângsteres americanos.

Isso é um sincretismo cultura muito, muito pobre, já que gangsteres e yakuza estão longe de ser a mesma coisa. Tudo isso limou parte da graça do jogo: oferecer uma imersão na cultura japonesa. Portanto, vimos japoneses com gírias da periferia americana, diversos palavrões que não existiam e um tom completamente diferente do original, tudo para que o game parecesse mais “violento e parecido com GTA”.

Com o passar do tempo, muitos jogadores não retornaram à franquia e muitos novatos encararam a série como algo em andamento. Nunca é fácil introduzir games e conceitos tão diferentes no mercado ocidental, mas com o passado cambaleante da série até hoje impacta suas impressões por aqui. Felizmente, a SEGA corrigiu tudo isso e hoje a franquia vem ganhando cada vez mais destaque e espaço no coração dos fãs.

Yakuza é um dos últimos bastiões de um excelente gênero em baixa

Há inúmeros motivos pelos quais você deveria dar uma chance para a série Yakuza. Jogatina leve, gostosa e descompromissada para os mais casuais, narrativa tensa e muito bem trabalhada para os fanáticos por história, mundo aberto enorme e com altíssima atenção aos detalhes, sidequests divertidas e escrachadas como alívio cômico e por aí vai.

Yakuza

Para um game considerado de nicho, o jogo é bem abrangente em sua audiência e traz uma combinação difícil de se criticar. É difícil de pensar que algumas decisões esquisitas na era PlayStation 2 podem ter criado uma mancha que ainda é difícil de tirar. O fato é: Yakuza é muito, muito bom. Não há beat 'em up no estilo arcade de uma maneira tão bem trabalhada quando à da franquia. Podemos lembrar da série Batman: Arkham e alguns outros games como Mad Max, mas nenhum deles tem um foco tão grande 

Como todos os jogos que existem por aí, é sempre uma questão de opinião pessoal e bagagem cultural, e não necessariamente você vai se dar bem com a franquia. Mas o ponto é que a SEGA realmente empenha um grande esforço e capricho na série, criando algo realmente singular no mundo dos games. Se você tem a curiosidade, deixarei a recomendação com todo carinho: dê uma chance para Yakuza.

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