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Por que o Game Pass da Microsoft está deixando alguns lojistas putos?

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Quando a Microsoft anunciou no dia 23 de janeiro que todos os lançamentos futuros da Microsoft Studios fariam parte do sistema Game Pass, muitos jogadores comemoraram. O sistema de assinaturas, que já era interessante, passou a ser ainda mais atraente: pagar R$ 29 mensais significa garantir acesso automático a lançamentos como Sea of ThievesState of Decay 2 e os próximos Forza — sem contar um catálogo com mais de 100 jogos variados.

Enquanto a decisão da empresa sem dúvida é benéfica aos consumidores, ela não agradou muitos lojistas, principalmente aqueles que atuam de forma independente (leia-se, aquele que estão fora do círculo de redes como a Gamestop, a BestBuy e a Target). Em questão de poucos dias, a rede australiana Gameware anunciou que não ia estocar mais produtos relacionados ao Xbox, decisão que foi seguida por várias lojas britânicas, incluindo a Extreme Gamez.

Game Pass

Mas por que um anúncio que beneficia tanto os consumidores é encarado de forma tão negativa pelos lojistas? A resposta para isso pode ser encontrada em um conflito que começou há alguns anos graças ao aumento do mercado digital em um mundo no qual versões físicas de games ainda existem (e dependem de lojistas para prosperar).

Digital X Físico

Já parou para pensar por que um jogo digital custa os mesmos US$ 60 de um game físico, mesmo não tendo caixinha ou mídia física, e ainda por cima exigindo que você pague uma conexão de internet para conseguir jogar? A resposta é simples: caso decidisse abaixar o preço da versão digital, uma empresa iria desagradar muito os vendedores que, coincidentemente, também oferecem ao público seus consoles e acessórios.

É exatamente isso que a Microsoft fez ao anunciar que seus lançamentos estariam presentes no Game Pass: ao incluir títulos de peso no serviço, a empresa trouxe uma desvantagem evidente para o lojista que tem que, obrigatoriamente, vender jogos novos pelo preço cheio. Isso é especialmente problemático para lojas independentes, que não têm poder suficiente para comprar em grandes quantidades e aumentar seu lucro com cada unidade vendida.

Xbox

A decisão também é problemática ao dar um golpe duro no mercado de usados, que, muitas vezes, é a maior fonte de renda de quem venda jogos físicos. Ao tornar muito vantajoso para o consumidor apostar em um sistema de assinaturas, a empresa passou a mensagem de que não vale a pena gastar com caixinhas, por mais que ela estejam sendo vendidas com desconto.

Obviamente, isso não significa que todo mundo vai partir para o Game Pass e deixar de comprar os jogos da Microsoft Studios. Não somente há quem ainda prefira ter uma coleção de games físicos, como para muitas pessoas o meio digital simplesmente não é viável: mesmo em países desenvolvidos, ainda há várias regiões em que o download de um game completo pode levar dias ou meses para ser finalizado.

Negócio inviabilizado

“Por que devemos dar suporte a eles e vender seus consoles e acessórios se vamos tirar muito pouco disso? Não tiramos nada de sua seleção digital. É basicamente sem sentido. Podemos muito bem ir para onde temos suporte, que é a Sony:”, afirmou  à Games Industry Stuart Benson, que trabalha na Extreme Gamez.

Outra questão que deve ser levada em consideração é o fato de que, embora lojistas tenham algum lucro com a venda de consoles e acessórios, a margem é bastante pequena. Além disso, é muito mais comum ver pessoas entrando em uma loja atrás de um game novo do que de um hardware, que é muito mais caro — salvo em épocas específicas do ano, como as vendas de final de ano.

“Por que devemos dar suporte a eles e vender seus consoles e acessórios se vamos tirar muito pouco disso?"

“Se eles vão fazer isso, eu não vou me incomodar em reestocar o Xbox. Você só faz 3 ou 4 libras em jogos para Xbox como o novo Monster Hunter, se você tem sorte”, explicou Stephen Stangroon, da rede Stan’s Games. “Eles estão matando o mercado de segunda mão. Eu imagino que nem o público vai gostar disso no final — vendi um Monster Hunter essa manhã e o cara já trouxe ele de volta”.

“O Game Pass vai ter um efeito em todos os títulos first party”, explica Paul Lemesurier, da Sholing Video. “Já dissemos à Exertis [distribuidora da Microsoft no Reino Unido] que não vamos estocar Sea of Thieves. Por que se incomodar quando os supermercados vão vender ele por menos do que custa, vendedores online vão quebrar a data de rua — que são uma piada — e enviar até cinco dias antes do que nós, e agora a Microsoft está vendendo o Game Pass por um trocado”.

Game Pass

Já Chris Bowman, da Console Connections, afirma que os lojistas independentes não vão conseguir se manter lucrativos ao vender somente os vale-presentes do Xbox. “As pessoas ainda querem produtos em caixas, mas com o preço do Xbox Game Pass, por quanto tempo eles vão continuar fazendo isso?”, afirmou. “Se a Sony e a Nintendo seguirem isso, é fim de jogo”.

O consumidor é que dita as regras

Enquanto alguns vendedores acreditam que esse é o fim da linha no que diz respeito às vendas de jogos físicos de Xbox, alguns têm uma visão menos dramática do assunto. É o caso de Robert Linday, que lidera a cadeia de lojas Games Centre na Escócia. Segundo ele, uma decisão como a do Game Pass era inevitável tanto para a Microsoft quanto para a indústria de games em geral.

“Claro que isso vai ter um impacto em lojistas tradicionais, mas as vendas digitais já estão constantemente afetando as vendas físicas há um bom tempo”, explicou ele à Games Industry. “É só questão de tempo antes que as publicadoras deixem os parafusos ainda mais apertados e monopolizem as vendas diretas de games”. Segundo ele, no fim das contas são os hábitos dos consumidores que vão ditar o mercado, não quem faz parte do comércio.

“Claro que isso vai ter um impacto em lojistas tradicionais, mas as vendas digitais já estão constantemente afetando as vendas físicas há um bom tempo”

A Microsoft afirmou que, até o momento, a resposta à ampliação do Game Pass foi recebida de forma positiva e que ela está trabalhando com alguns revendedores selecionados para promover o serviço. “De fato, estamos agradavelmente surpresos com a demanda dos vendedores até agora e estamos considerando se vamos ou não ampliar nossos planos de distribuição. Estamos abertos a feedbacks sobre nossos planos e vamos continuar evoluindo eles de maneira apropriada”, afirmou um representante da empresa.

Sea of Thieves

Até o momento, o anúncio das mudanças no Game Pass parece não ter tido grande impacto sobre a venda dos títulos da Microsoft, mesmo aqueles que serão ofertados como parte do serviço. Prova disso é que a versão digital de Sea of Thieves chegou a figurar entre os itens mais vendidos da Amazon, superando inclusive o desempenho do aguardado God of War, da rival Sony.

No fundo, quem se beneficia de ter mais opções de compra é o consumidor, que pode decidir se prefere pagar a mensalidade do sistema de assinaturas ou se quer ter o jogo fixo (em formato físico ou digital) em sua coleção. Fato é que iniciativas do tipo, junto a ofertar como o EA e o Origin Access, têm tudo para mudar a maneira como jogamos nos próximos anos — e resta aos lojistas tentar se adaptar a isso.

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