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O streaming é o futuro? A indústria de games acredita que sim

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Plataformas que prometem acesso a um catálogo de jogos novos sem que você tenha que baixá-los ou ter uma mídia física não são nenhuma novidade. O Gaikai, por exemplo, surgiu com essa proposta lá em 2008, oferecendo uma tecnologia que permitia jogar games remotamente através de vários dispositivos — ideia atraente que fez com que a empresa fosse comprada pela Sony em 2012.

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No entanto, esse mundo mágico onde poderíamos ter acesso a games recentes com o melhor gráfico possível nunca realmente decolou até agora. Os motivos para isso são variados: faltas de investimento em infraestrutura, pouco apoio das desenvolvedoras e uma rede de internet com qualidade muito variada entre diferentes países são alguns deles — isso sem contar com a resistência cultural de muitos consumidores, que não gostam da noção de “não ter” um jogo pelo qual pagaram.

Isso não impediu que, na E3 de 2018, o assunto voltasse com força renovada. Enquanto a Microsoft “puxou o barco” com que o que depois ficou conhecido como o Project X Cloud, nomes como Electronic Arts, Ubisoft, Bethesda, Google, Amazon e a operadora Verizon também demonstraram interesse na tecnologia, que promete “democratizar” games de uma forma nunca antes vista.

O futuro chegou?

Para quem vive no Brasil, imaginar um futuro em que todos terão uma internet boa o suficiente para um streaming 4K de alta qualidade com baixa latência parece um sonho distante, mas tem muitos executivos que acreditam que essa vai ser a regra em breve — ao menos nos Estados Unidos. Exemplo disso é Yves Guillemot, CEO da Ubisoft, que já afirmou mais de uma vez que a próxima geração de consoles deve ser a última nos moldes tradicionais.

Quem também aposta em uma ideia semelhante é a Microsoft, que aposta bastante no Project X Cloud como parte importante da família Xbox. Apesar de agir de forma mais cuidadosa, afirmando que o streaming pode demorar algum tempo para se estabelecer, ela acredita que já terá uma plataforma funcional dentro de 3 anos — isso sem deixar de lado modelos mais tradicionais de oferecimento de games.

O motivo para essa empolgação é simples: o estabelecimento do streaming deve permitir atingir um público ainda maior — pense no pessoal que só tem um smartphone, e usa ele para jogar Fortnite, por exemplo, tendo acesso a uma biblioteca com qualidade gráfica e gameplay semelhantes a um console tradicional.

o estabelecimento do streaming deve permitir atingir um público ainda maior

Ao colocar tudo na nuvem, muitas empresas conseguiriam quebrar as barreiras impostas pelos hardwares que temos disponíveis atualmente. Imagine se uma empresa Triplo A não tivesse que passar de quatro a cinco anos trabalhando com os limites de um console, podendo aproveitar a última linha em tecnologias assim que elas estivessem disponíveis, sem se preocupar em perder público por conta de limitações da plataforma que as pessoas têm em casa.

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“Hoje temos 200 milhões de jogadores nos consoles e 2 bilhões de jogadores no total, globalmente. Os games criados para essas 200 milhões de máquinas em breve vão poder ser acessados pelos 2 bilhões”, afirmou Guillemot ao Kotaku. “Eu penso que em 10 anos vamos ter 5 bilhões de pessoas que vão poder acessar os games que criamos. Isso vai mudar totalmente a atitude da indústria — e sua percepção”.

Todd Howard, da Bethesda, apoia essa impressão e acredita que o streaming pode ter no games o mesmo efeito que teve no acesso a músicas e a filmes. O chefão do Xbox, Phil Spencer, também está animado com essa perspectiva e acredita que a tecnologia vai fazer com que criadores não tenham mais que lidar com as limitações de um dispositivo específico.

"eu quero ter a plataforma que permite a esses criadores atingir 2 bilhões de pessoas"

“Nosso foco é trazer jogos com a qualidade de consoles que você vê na TV ou no PC a qualquer dispositivo. Eu penso que nossa esperança é que isso vai aumentar os consumidores e o engajamento, também... Eu quero ver os criadores com os quais tenho relacionamentos  criar jogos grandes e imersivos e eu quero ter a plataforma que permite a esses criadores atingir 2 bilhões de pessoas, e não ter que tornar seus estúdios em algo que faz jogos de combinar três pontos, em vez de jogos single player com histórias porque essa é a única maneira de atingir essas plataformas”, afirmou Spencer ao Kotaku.

Mais experimentação

Ao atingir um público maior e ampliar as fronteiras do mercado de games, o streaming pode também ajudar a termos jogos Triplo A com estilos mais variados. Para isso, contribui também o aumento dos sistemas de assinaturas no melhor “estilo Netflix”, tal qual o Xbox Game Pass e o EA/Origin Acess.

“Se você olhar para a era Netflix em que vivemos — eu ia dizer uma ‘era dourada’ [ri], ah, que se dane —, vivemos em uma era dourada da televisão porque uma plataforma de assinatura como a Netflix, a HBO e a Amazon permitem fazer muito mais experimentos, trabalhar com muito mais formatos”, afirmou ao US Gamer o produtor-executivo de Anthem, Mark Darrah.

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Segundo ele, o modelo atual trabalha com orçamentos, expectativas e objetivos bastante similares entre diferentes projetos, o que acaba tornando algumas ideias inviáveis. “Eu penso que, quando você olha para um mundo de assinaturas, ele abre a porta para novas possibilidades. Como games que não são feitos para mais de 300 mil pessoas, mas são construídos e orçados de forma adequada”.

“Você tem seu House of Cards para a Netflix, mas também tem seus especiais de comédia ou seus documentários de crimes reais, e não são somente os gêneros que são diferentes. O tamanho e a escala dessas coisas — orçamentos e tudo mais são coisas diferentes”, explicou Darrah. Segundo ele, o formato desse tipo de serviço também proporciona uma maior experimentação, já que você “já está pagando” e não vai perder muito se investir seu tempo em algo desconhecido.

“Você tem seu House of Cards para a Netflix, mas também tem seus especiais de comédia ou seus documentários de crimes reais"

Enquanto os comentários de Darrah foram feitos especificamente em relação aos serviços de assinatura já vistos atualmente, não é difícil ver como o streaming se encaixa nisso. É muito mais fácil ver empresas como a Microsoft integrando suas ofertas a assinaturas da Live (e, possivelmente, do Game Pass) do que oferecendo o streaming nos moldes do PlayStation Now, que cobra preços bastante “Premium” de certos títulos — o que torna mais atraente apostar no velho modelo de mídia física do que na tecnologia de transmissão.

Uma empresa que já mostrou o quanto o aumento de um alcance de um game pode ser benéfico para os negócios é a Epic Games. Ao oferecer Fortnite: Battle Royale para todas as plataformas possíveis, a empresa conseguiu financiar projetos como a Epic Games Store, ao mesmo tempo em que diminuiu a fatia que cobra dos desenvolvedores que usam sua Unreal Engine 4.

Futuro repleto de incertezas

Lendo tudo isso que escrevi até agora, fica fácil se seduzir pelo que o streaming promete. Afinal, pelo que as empresas estão vendendo, só teremos vantagens: jogos mais acessíveis, com servidores mais povoados e com uma maior diversidade de gênero — tudo isso sem ter que pagar por um console novo, ao mesmo tempo em que os gráficos continuariam evoluindo constantemente.

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Embora teoricamente tudo isso seja possível, ainda será preciso “ver para crer” para acreditar que o streaming realmente vai ser uma alternativa viável à jogatina tradicional. A latência dos servidores deve ser um dos principais adversários das empresas, especialmente em jogos que exigem respostas imediatas — em muitos casos, “bom o suficiente” nunca será bom o bastante para jogadores que existem respostas perfeitas de seus comandos.

Também teremos que lidar com questões como a descentralização dos serviços: você estaria disposto a pagar duas ou mais assinaturas para ter acesso ao catálogo de tudo o que deseja jogar? Porque com nomes como a Electronic Arts e a Microsoft nesse mercado, tenha certeza de que essas companhias vão “segurar” seus títulos nos serviços que elas pretendem oferecer.

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A popularização do streaming também deve acentuar as discussões sobre o que é “ter” um game na atualidade. Se até mesmo possuir uma cópia física não é mais garantia de poder jogar um título para sempre (no caso de experiências online que encerram suas atividades), a saída de um jogo de um sistema de streaming é só questão de o contrato de licenciamento acabar — algo que quem assina a Netflix já testemunhou diversas vezes.

O que está certo é que, em 2019, devemos ver muitas notícias e lançamentos relacionados à tecnologia, que parece finalmente ter atingido o nível de maturidade que a indústria esperava. Se isso vai dar certo ou não, somente o tempo vai dizer — mas não vai faltar em quem aposte pesado para que isso se transforme em um modelo de negócios viável em larga escala.

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