Análise de 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors

Quase um livro interativo

A história de um grupo de pessoas sequestradas e postas para participar de um bizarro jogo de sobrevivência não é algo inédito. Diversas mídias já exploraram o enredo, seja nos cinemas (“Jogos Mortais”), seja nas histórias em quadrinhos (“Battle Royalle” e “Gantz”).

Com uma temática reaproveitada inúmeras vezes, como criar um game com a mesma proposta sem que pareça repetitivo ou previsível? Apesar de não ser a única solução, focar na evolução do enredo para prender o jogador do início ao fim é uma ótima alternativa.

É isso que a ChunSoft conseguiu fazer em 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors. O jogo é exatamente tudo aquilo que já foi visto em outros lugares, mas apresentado de forma que você simplesmente não tem ideia do que vai encontrar atrás de cada porta.

Mesmo com o cuidado tomado pela desenvolvedora para dar ao game uma experiência diferenciada, é inegável que ele ficou à margem dos principais lançamentos do Nintendo DS para 2010. Em um ano em que tivemos o retorno de Pokémon e Dragon Quest, é compreensível o fraco impacto que 999 obteve.

No entanto, isso não significa que a aventura tenha sido ignorada por completo. Se você tem uma boa memória, certamente irá lembrar que o título foi indicado às categorias de “Melhor Jogo de DS”, “Melhor História” e “Melhor Jogo que Ninguém Jogou” na votação feita pelo TecMundo Games. Ainda que não tenha levado nenhum dos prêmios, não podemos negar que a ChunSoft fez um ótimo trabalho e que merece ser conferido, mesmo que tardiamente.

Quando “Jogos Mortais” se passa dentro do “Titanic”

Img_normalA história de 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors já se inicia de maneira extremamente confusa. Sem se lembrar de absolutamente nada do que aconteceu, o jovem Junpei acorda dentro de um estranho quarto e com um estranho relógio indicando o número “5”. Aos poucos, sua memória vai voltando e ele se dá conta de que fora sequestrado na noite anterior por alguém vestindo uma máscara de gás.

A partir desse ponto, ele encontra outras oito pessoas na mesma situação e, juntos, descobrem que foram raptados por alguém que se denomina Zero. Segundo o misterioso sequestrador, eles agora fazem parte do “Nonary Game”, um jogo em que os nove indivíduos devem encontrar as nove portas para conseguir escapar da embarcação, que está destinada a afundar em nove horas.

Como é de se esperar, isso afeta profundamente o psicológico de cada personagem. Enquanto alguns sofrem com a pressão e o desespero da situação, outros agem de maneira mais racional e passam a duvidar dos demais – principalmente quando misteriosos assassinatos começam a acontecer.

Img_normalO grande destaque de 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors está na forma com que tudo isso é conduzido. Em vez de nos apresentar um cenário aberto e completamente explorável, a ChunSoft reaproveita um sistema semelhante ao utilizado pela Capcom na série Phoenix Wright. Com muito diálogo e descrições, o game é aconselhável somente para quem realmente tem paciência para acompanhar a leitura em inglês ou é apaixonado por grandes quebra-cabeças.

Img_normal999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors é o típico jogo que ou você ama ou odeia. Se você mergulhar de cabeça na história e se envolver com os mistérios da trama, certamente vai querer jogar cinco ou seis vezes para descobrir todos os segredos escondidos, sem se importar em rever as mesmas falas diversas vezes. Porém, se você não tem paciência para longos textos ou prefere algo com um pouco mais de ação, é bem provável que a desistência venha ainda na primeira tentativa.

No entanto, de maneira geral, o game se sai muito bem. Excetuando-se a jogabilidade (algo que precisa ser avaliado de acordo com o gosto de cada um), tudo no título é atraente. A narrativa, os personagens e a forma com que o enredo é construído conseguem prender o jogador à frente das duas telas do portátil.

Ainda que seja focado em um público muito específico, 999 surpreende, principalmente por se tratar de uma produção de um estúdio não tão conhecido. Mesmo com seus problemas, o título se mostra como uma agradável surpresa escondida entre a grande quantidade de lançamentos para Nintendo DS.

Um livro interativo

Lembra-se de quando dissemos que uma das principais alternativas para fugir do lugar comum da temática é apresentar um enredo que realmente instigasse o jogador a ponto de fazê-lo continuar cada vez mais? Pois 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors consegue fazer isso de maneira surpreendente, principalmente pela opção de deixar de lado o dinamismo característico dos video games para optar por uma linguagem muito mais literária.

Todas as cenas são descritas a partir do que o protagonista percebe. Esqueça a ação, a movimentação de NPCs (personagens não jogáveis) ou interação com o cenário: tudo isso só nos é passado em forma de texto, como em um livro. As únicas animações presentes são os desenhos de cada sobrevivente, colocados ali exatamente para que você tenha uma noção de quem é quem na trama, além de facilitar na hora das conversas.

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Porém, ao contrário do que possa parecer, essa abordagem mais próxima da literatura do que de um jogo não prejudica o andamento de 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors. É claro que o domínio do inglês é essencial, mas isso não impede que jogadores mais empenhados mergulhem da cabeça na história.

A trilha sonora também contribui bastante para isso. Como não temos praticamente nenhum auxílio visual para entendermos o que está acontecendo – as telas apresentam uma imagem estática do que é o ambiente, mas sem nenhuma interação a princípio –, o áudio é um grande estimulo à imaginação. Uma faixa mais agitada e efeitos de vidro quebrando e fadiga são apenas alguns exemplos de recursos usados para criar o clima de suspense.

Um desafio a cada porta

Img_normalMesmo que funcione muito bem neste caso, apenas textos não justificam a produção de um jogo. Se for apenas para conter palavras e diálogos, que publiquem um livro em vez de lançar um game. Portanto, para complementar a jogabilidade, 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors abusa dos quebra-cabeças à medida que você avança na história.

A parte mais divertida está no fato de os desafios serem  fundamentais na história. Como não estão lá simplesmente para prolongar a diversão, eles influenciam na forma com que você e os demais personagens interagem.

Como veremos mais adiante, o modo com que você constitui seu grupo altera os caminhos da trama e apresenta obstáculos diferenciados. Por conta disso, é preciso terminar o jogo mais de uma vez para conseguir resolver todos os quebra-cabeças existentes.

Ao contrário da maioria dos puzzles, encontrar a solução dos enigmas em 999 é realmente uma tarefa árdua. Isso porque não existem dicas disponíveis para ajudá-lo a sair de determinada sala ou como utilizar aquele item. Tudo tem de ser feito por meio de sua própria percepção e de ligações feitas a partir de conversas com os demais personagens.

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A dificuldade também se dá por exigir alguns conhecimentos um pouco mais complexos, envolvendo reações químicas para a criação de bombas e até mesmo um pouco de psicanálise. Ainda que tudo seja explicado pelos NPCs, é preciso prestar muita atenção nas falas para absorver os conceitos necessários para resolver os quebra-cabeças e compreender sua mecânica. De que outra forma você conseguiria construir uma bomba dentro de um frigorífico utilizando apenas gelo seco?

Múltiplos caminhos

Img_normalQuando descrevemos qual a proposta inicial de 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors, certamente você já imaginou de que forma o game acaba: o protagonista consegue descobrir quem é o vilão, derrota-o e consegue escapar ileso do barco antes que ele afunde.

Pois você está certo, mesmo que não completamente. Um dos pontos mais divertidos de todo o jogo – e que só é percebido no final – é que todas as suas decisões interferem no direcionamento do enredo.

Como o "Nonary Game" exige que o jogador forme grupos de até cinco pessoas para avançar por cada porta, você deve selecionar quais os outros personagens que vão acompanhá-lo daquele momento em diante. Cada decisão interfere não apenas nos desafios a serem encontrados, mas também nos próprios acontecimentos gerais.

Isso faz com que 999 não tenha somente um final, mas seis. O caminho para cada um deles é determinado a partir de suas escolhas, o que pode ser algo bom ou ruim. Imagine o quão frustrante deve ser chegar até o fim do game e não descobrir absolutamente nenhum dos mistérios. Pois essa é apenas uma das possibilidades oferecidas.

Essa artimanha da ChunSoft é uma maneira eficaz e instigante de ampliar o fator replay de Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors. Por ser um game em que a dinamicidade não é o grande forte da jogabilidade, fazer com que você sinta vontade de jogar novamente para preencher lacunas no enredo é uma ótima forma de prolongar a vida do título.

Haja paciência

Img_normalPor mais que a narrativa literária de 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors funcione perfeitamente no estilo apresentado, é inegável que em diversos momentos é preciso ter muita paciência para conseguir avançar. Por mais que a trama seja envolvente, é impossível evitar que a grande quantidade de texto não torne tudo muito maçante uma hora ou outra.

O curioso é que isso não é tão evidente durante os longos diálogos – onde seria normal isso acontecer –, mas na hora da ação. É a partir do momento que você abandona o papel de leitor passivo e passa a interagir com o cenário em busca de itens e pistas (em um sistema bastante semelhante aos clássicos point’n’click) que as coisas ficam realmente lentas.

Como você nunca está sozinho nas salas, os NPCs sempre vão dizer algo quando você tocar em algum objeto. O problema é que nem sempre é uma simples frase de “Esse não. Procure em outro lugar”, mas verdadeiros discursos que não acrescentam nada à narrativa. Agora multiplique isso para cada tentativa de encontrar algo e você simplesmente tem vontade de arremessar o DS pela janela.

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Como se não bastasse, a velocidade do texto não é ajustável. Não existe uma opção para você aumentar ou diminuir o tempo entre uma palavra e outra, o que faz com que você aperte todos os botões e toque na touchscreen na esperança que os personagens calem a boca de uma vez por todas.

Replay maçante

Dissemos que um dos pontos mais legais de 999: Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors é a existência de múltiplos finais, resultantes de suas escolhas durante toda a aventura. Pois é, isso é realmente interessante e nos faz querer jogar o game uma segunda ou terceira vez para descobrir detalhes ainda ocultos. No entanto, é preciso ter realmente adorado o título para fazer isso.

Img_normalA semelhança entre o jogo e um livro vai além do tipo de narrativa. São poucas as obras que você quer reler para perceber detalhes não identificados na primeira leitura. A grande maioria de publicações é conferida apenas uma vez e posta em uma estante por um bom período de tempo. E com 999 funciona da mesma maneira.

Após acompanhar os longos textos por horas, é necessário ter gostado muito da história para se aventurar a acompanhar todos os diálogos novamente. Nem mesmo a possibilidade de acelerar as falas já vistas (um recurso que só é adicionado depois de terminar o game) consegue melhorar esse fator replay.

A indicação de quais decisões foram tomadas anteriormente ajuda bastante a caminhar para os outros finais, mas não livram o jogador da sensação de déjà vu vivida em vários pontos. Os quebra-cabeças também sofrem do mesmo mal, já que deixam de ser desafios para se transformarem em empecilhos para a nova finalização.

Além disso, há a chance de que alguns finais simplesmente deixem o jogador revoltado com a resolução apresentada. Aquela cara de “Sério que joguei até aqui para isso?” pode ser um dos principais fatores a acabar com qualquer possibilidade de retorno ao navio – além de uma série de xingamentos.

73 ds
Bom