Análise de Ace Attorney Investigations: Miles Edgeworth

Porque nem tudo pode ser resolvido nos tribunais!

Novo Ace Attorney, nova oportunidade de retornar aos móveis de mogno e à formalidade dos tribunais. Ou será que não? Pois é, melhor olhar novamente. Embora Ace Attorney Investigation: Miles Edgeworth retome uma franquia nada menos que consagrada, o “spin-off” toma uma distância segura da fórmula tradicional da série para assumir uma faceta mais, digamos, detetivesca.

Hora de abandonar o conforto dos tribunais!Em outras palavras, nada de ficar confinado às salas de julgamento chafurdando em argumentos sem fim. A ideia agora é perambular pelas cenas de crime, interrogar testemunhas, botar alguma pressão (como de costume), etc. Isso em qualquer lugar, a qualquer hora.

Mas o protagonista de Investigations também traz, por si só, uma nova direção à série. Quem toda as rédeas da moça vendada (sim, a “infalível” Justiça) é Miles Edgeworth. Figura carimbada da série, Miles atuou como promotor em jogos anteriores. Aliás, é exatamente isso que ele faz também em Investigations.

Isso equivale a dizer que, em vez de defender casos praticamente perdidos, você agora terá o papel — muito mais estimulante, convenhamos — de acusar suspeitos, utilizando as lendárias capacidades dialéticas do Sr. Edgeworth para encontrar falhas em argumentos e botar uma série de meliantes atrás das grades.

Mas espere! Investigations não é apenas um Ace Attorney às avessas. Além da possibilidade de controlar Miles através dos cenários, o título ainda lança mão de diversas mecânicas novas — como se verá adiante —, e ainda executa um trabalho primoroso no que diz respeito ao ritmo das histórias encabeçadas pelo promotor. E mesmo os gráficos e sons parecem re passado por uma lima, o que é ótimo. Vamos aos detalhes.

A conclusão é bastante simples: caso você seja um fã da série, Investigations com certeza vai conquistá-lo através das novas mecânicas e possibilidades dedutivas. Vale o mesmo para o caso de você apreciar jogos voltados exclusivamente para trama e histórias densas — o que realmente não falta aqui.

Se você gosta de histórias lentas e profundas, Investigations é um prato cheioEntretanto, assim como acontecia com os jogos anteriores, Investigation não é um jogo voltado para a massa maior de jogadores. Em primeiro lugar, porque qualquer um que tenha mais interesse por cenas de ação vai fatalmente acabar entediado. E, além disso, é necessário ter um inglês pelo menos razoável para não acabar boiando na história e escolhendo opções aleatoriamente — um caminho bem curto para o “Game Over”.

Considerações à parte, Ace Attorney Investigations: Miles Edgeworth é realmente uma boa pedida dentro da proposta bastante particular da série Ace Attorney. Sem objeções!

Juiz Dredd nipônico

Uma das novidades mais interessantes de Investigations, e também uma das primeiras que salta à vista, é a possibilidade de conduzir o garboso promotor Miles Edgeworth através dos cenários, conferindo ao jogador uma liberdade que, se não é total, certamente não tem precedentes dentro da série. Quer dizer, quem jogou título anteriores deve bem se lembrar que a ideia era simplesmente pular de uma audiência em tribunal para outra.

Miles poderá agora perambular pelo cenário, acompanhar o trabalho dos peritos, avaliar cenas de crime e colher evidências. E, é claro, no topo disso, ainda poderá se valer da sua reconhecida capacidade lógica/dedutiva para julgar e sentenciar uma suspeita. Quer dizer, é o se poderia chamar de juiz Dredd nipônico.

Novas mecânicas dedutivas

Mas Ace Attorney Investigation não dá apenas liberdade de movimentação ao protagonista. O título também traz novas mecânicas para desmantelar planos diabólicos e raciocínios falaciosos. E isso começa na perspectiva do jogo: salvo raras exceções, toda a “ação” — por falta de um termo melhor — agora se passa em terceira pessoa. Primeira pessoa só mesmo na hora de examinar evidências.

Para controlar o promotor, vale tanto utilizar o direcional digital quanto (é claro) a boa e velha stylus — a tela inferior traz um esboço da área; basta apontar a direção e pronto. Uma vez próximo a certos objetos, eis que surge a opção “examine”, que permite uma avaliação mais cuidada de um modelo tridimensional do item — um ótimo toque, com certeza.

Já as batalhas lógicas (“cross-examinations”, nos títulos anteriores) continuam basicamente as mesmas. A diferença é que, em vez de um juiz e móveis de mogno ao fundo, agora você poderá ter qualquer configuração como cenário, desde a sala de Miles até um parque de diversão. No mais, é a boa e velha mecânica que vai convidá-lo a encontrar “furos” na argumentação das testemunhas. Cada escorregão dedutivo consome a barra de energia de Miles.

E, por fim, “Little Thief” é o novo dispositivo que permite a recriação de determinada cena de crime através de hologramas. A elaboração do ambiente é sempre baseada no nível de informações e evidências que você tiver à mão. Realmente uma ótima ajuda para encontrar as preciosas contradições do jogo.

Que a lógica prevaleça!

Encontre a ligação correta entre os fatos para não fazer feio 
perto do seu fã-clube!Uma dos dispositivos mais interessantes de Investigations é o novo “logic” (lógica). Conforme o nome sugere, trata-se da utilização das faculdades lógicas quase sobrenaturais de Miles. Funciona da seguinte forma: você colhe evidências nas cenas dos crimes, analisa e, por fim, concebe fatos isolados. A ideia então é encontrar uma ligação entre esses fatos para então produzir novas evidências. Novamente, erros lógicos consomem a barra de energia — e barra vazia significa “game over”.

A novas jogabilidade de Investigations ainda traz na bagagem “deduce” (dedução). A ideia aqui é bem mais simples: sempre que uma contradição se revelar entre as provas, Miles terá opções preestabelecidas para revelar em que ponto se encontra o raciocínio enganoso. E a barra de energia entra novamente em jogo, é claro. Portanto é bom pensar muito bem antes de escolher uma opção.

Lento porém envolvente

Verdade seja dita: Ace Attorney jamais foi uma série voltada para fãs de cenas de ação. A ideia central sempre foi muito mais intelectual e, por assim dizer, de ritmo bastante lento. São diálogos e mais diálogos, com alguns pouco intervalos, cujo único propósito é desvelar maquinações ardilosas e crimes hediondos. E isso é ótimo, é claro.

Bem, salvo pelos momentos em que Miles investiga as cenas de crime, o ritmo de Investigations mantém exatamente a mesma fórmula. Entretanto, o que poderia parecer tedioso e arrastado é complementado pelo arcabouço histórico muito bem construído. Através de pistas, suspeitos e maquinações insondáveis, Investigation é perfeitamente capaz de manter a atenção e a curiosidade do jogador do começo ao fim — incluindo ainda algumas quebras de linearidade muito bem-vindas.

Mas parte do chamariz da história vem do próprio papel cumprido pelo protagonista. Em vez de se manter na mesma posição segura dos protagonistas anteriores da série, Miles Edgeworth é constantemente parte crucial da trama, aparecendo até mesmo como suspeitos — ou simplesmente despertando o interesse amoroso de alguma “femme fatale”.

Arestas bem aparadas

Dentro do conceito da série, Investigations certamente traz arestas muito bem aparadas no que diz respeito a gráficos e sonso. São personagens coloridos e bem detalhados, belos panos de fundo e cenas de corte totalmente animadas. O fundo musical, embora sintético, cai ainda como uma luva nas cenas mais dramáticas. Enfim, arestas muito bem aparadas.

Desafio mediano

Embora resolver os enigmas e encontrar as falhar lógicas dos argumentos traga uma boa sensação de dever cumprido, Investigation não é o que se poderia chamar de desafio intelectual. Existem sutilezas e detalhes que podem escapar a uma mente particularmente desatenta, é claro. Entretanto, a maior parte dos desafios é razoavelmente óbvia — um afrouxamento em relação aos títulos anteriores em alguns pontos.

Movimentação errática

Não que seja via de regra. Mas às vezes, a nova mecânica de perambulação pelos cenários deixa um pouco a desejar. Quer dizer, pode acontecer de você parar em frente e um objeto e Miles deliberadamente analisar o que estiver ao redor. Isso diminui um pouco com o direcional digital — a movimentação é bem menos precisa com a stylus.

Raciocínio pronto

Investigations certamente traz alguns desafios que dão pano para a manga. Entretanto, você, o jogador, dificilmente estará por conta própria. Na maior parte das vezes, você apenas é convidado para resolver contradições um tanto preestabelecidas; sem muita liberdade de busca ou escolha de uma linha de raciocínio. Enfim, não se pode ter tudo.

82 ds
Ótimo