Mike é um espião eloquente, mas muito desajeitado

Img_originalMike Thorton. O sobrenome parece demandar um “n” antes do segundo “t” para se conformar a vários nomes encontrados na língua inglesa — falta esta que não se limita ao nome do protagonista, já que o jogo inteiro parece ter alguns elementos desaparecidos. Mas julgar um livro pela capa não é interessante, então é preciso explorar mais a fundo para ver o que Alpha Protocol pode proporcionar.

Concebido pela Obsidian Entertainment — a mesma desenvolvedora de Neverwinter Nights 2 — e publicado pela SEGA, o título promete ser um RPG de espionagem. Isso porque o cerne da jogabilidade é composto por elementos tradicionalmente vistos em jogos de operações especiais, mas grande parte da narrativa segue traços típicos de RPGs.

O objetivo parece ser o de misturar os dois mundos e criar um jogo de ação que não limite o jogador a eliminar todos os adversários que vê pela frente — o sistema de diálogo elaborado de Alpha Protocol permite vários outros caminhos para o alcance dos objetivos do protagonista. Mesmo assim, a trama não foge muito dos lugares-comuns vistos em formas de entretenimento que retratam espiões.

A grande diferença é, sem dúvida alguma, a possibilidade do jogador definir qual é o tipo de personagem que pretende interpretar — nas palavras dos próprios desenvolvedores, assumir comportamentos similares aos de três “JBs”: Jason Bourne, Jack Bauer e James Bond. Portanto, quem está familiarizado com o gênero não terá problemas em encontrar familiaridades durante a partida.

O conceito de Alpha Protocol é certamente muito bom. Mostrar vários lados da vida de um agente secreto — mesmo que de forma bastante romantizada — e explorar a capacidade de tomada de decisões do jogador é algo muito interessante. O problema é quando os desenvolvedores não conseguem transformar a ideia original em algo concreto.

Execução. Foi neste ponto que o título pecou — e pecou de forma tão grave que arrastou tudo o mais para baixo, diminuindo severamente a qualidade geral do game. Por mais que a pessoa goste da narrativa e se envolva com a história, ela não continuará jogando por muito tempo se a jogabilidade em si for frustrante e nada recompensadora.

Como sempre ressaltamos aqui no Baixaki Jogos, é importante para nós que um jogo cumpra sua promessa. Alpha Protocol prometia um jogo de espionagem com um forte elemento de interpretação. A interpretação está presente, mas como espião Mike Thorton deixa muito a desejar — especialmente em comparação a outros grandes nomes do gênero.

Variedade

Ao contrário da esmagadora maioria dos games do tipo, Alpha Protocol deixa o jogador escolher com bastante detalhe o perfil do personagem que irá interpretar. Desde o passado antes do recrutamento como agente da instituição que dá nome ao jogo até as habilidades atuais do protagonista, tudo é passível de modificação — incluindo a aparência.

Assim, é bem possível dar o tom desejado à experiência, já que apenas o nome de Thorton é imutável: ele pode ser desde um combatente experiente, proveniente dos batalhões das forças armadas norte-americanas, até um cidadão comum que resolveu adotar um estilo de vida nada convencional — trabalhando como mercenário nos grandes círculos mundiais de poder.

Img_original

Além disso, conforme o jogador progride na partida, a personalização se torna um elemento essencial da jogabilidade. Armas podem ser alteradas e montadas de acordo com as preferências do usuário, assim como vestimentas de proteção pessoal e os gadgets, acessórios que auxiliam o personagem bem ao estilo James Bond — como caixas de primeiros socorros, bombas de pulso eletromagnético.

Dinamismo

A trama se movimenta rapidamente, e as decisões devem ser tomadas da mesma forma. O sistema de diálogo do game é bem versátil e, junto às opções disponíveis durante as missões, faz com que exista uma sensação de ação constante — mesmo quando o jogador não está atirando em cabeças ou quebrando dentes através de socos bem dados.

Outra característica importante desse dinamismo é a interação entre decisões tomadas e desenrolar da história. Algumas das consequências das ações do protagonista são visíveis logo em seguida, enquanto outras só são descobertas muito mais à frente — e por vezes resultam em desfechos inesperados para algumas situações, especialmente as mais delicadas.

O controle que tudo isso proporciona ao jogador sobre o caminho que seu personagem deve tomar é, sem dúvida, o ponto alto de Alpha Protocol. Quem é que nunca quis retrucar seu chefe ao ouvir um comentário extremamente ignorante em jogos de espionagem? Recebeu ordens de matar alguém? Aqui é possível questionar o porquê disso — ou então escarnecer da pobre vitíma.

Img_original

Existe ainda um elemento bem interessante: as decisões tomadas influenciam também no desenvolvimento do personagem. Isso inclui habilidades e experiência ganhas, traços de personalidade gravados na ficha do protagonista e até mesmo troféus destravados. Ou seja, não é apenas algo da história — existe também integração com os sistemas de jogo.

Diversão ao acompanhar a trama

Alpha Protocol expõe uma história envolvente — com a possibilidade de moldar seus caminhos, e o próprio personagem, é fácil se sentir parte da trama. Assim, é interessante acompanhar os desenvolvimentos e assistir às consequências das decisões (que foram tomadas em questão de segundos). A equipe de escritores certamente conseguiu entreligar os eventos de forma muito boa.

Gráficos pobres

Img_originalA primeira coisa a ser notada. É impossível dizer que não houve esforço por parte dos desenvolvedores, já que as ideias que tentaram transmitir são realmente fenomenais — o problema, não só neste ponto como em quase todos os negativos, é que a execução deixou muito a desejar. E isso vale para quase todos os aspectos visuais do game.

Para começar, o carregamento de texturas leva em torno de dois segundos. Isso mesmo, quando você tenta mudar a aparência de Thorton ou altera a arma que está visualizando, o jogo demora aproximadamente dois segundos para processar a informação visual do elemento e mostrá-la na tela — antes disso você vê apenas um modelo borrado.

A taxa de quadros por segundo, por sua vez, é mais instável do que um mar em noite de tempestade. Sobe e desce incompreensivelmente, chegando a apontar zero em alguns momentos sem razão aparente. Os famosos screen tearings também são onipresentes, até mesmo na interface — o que torna tudo bastante incômodo.

As animações, especialmente em cutscenes, são bem pobres — chegando ao ponto de “tremer”, em alguns momentos, como se estivessem falhando. Ou seja, quase todos os aspectos gráficos do game possuem falhas, tornando difícil exaltar sequer um ponto positivo do estilo visual do jogo.

Interface nada intuitiva

Tudo bem que os menus dividem bem os conteúdos. Mas eles não recebem nomes claros ou mesmo dividem as tarefas a serem realizadas de forma adequada. Na hora de vender um item, por exemplo, é preciso entrar no sistema de equipamentos, removê-lo do personagem (caso o esteja usando), sair do sistema, entrar no sistema de compra de objetos, acessar as vendas para então conseguir realizar a transação.

Img_original

Tudo isso não seria tão ruim caso a interface fosse ágil, o que não é o caso. Animações lentas tornam cada processo de modificação dos atributos do personagem, de alteração dos equipamentos utilizados ou mesmo de consulta às informações disponíveis sobre os vários elementos da trama, extremamente frustrantes.

Ação truncada

Por mais que exista um imenso foco na parte mais “RPG” do jogo, a ação ainda é um elemento predominante. Portanto, era de se esperar que Alpha Protocol proporcionasse uma experiência sólida nesse sentido, coisa que não acontece. Os sistemas que regulam o combate, a furtividade e a câmera possuem inúmeros problemas que comprometem severamente o conjunto — e, consequentemente, o cerne do game.

O sistema de combate é extremamente impreciso: a mira é completamente desprovida de lógica quando o jogador não espera pelo menos três segundos imóvel antes de disparar em um alvo — e este ainda não pode estar muito longe; O combate corpo a corpo é composto de apenas um botão e não possui qualquer tipo de defesa eficiente; e a transição entre a luta armada e desarmada é inexistente, assim como é impossível dar socos quando está usando a cobertura.

O sistema de cobertura é praticamente inútil. É mais fácil o jogador usar o cenário por conta própria do que apertar o botão específico para colar Thorton na parede. Sem falar na completa falta de precisão da movimentação de um esconderijo para outro. Se o sistema não existisse, realmente não faria falta alguma.

Finalmente, o conjunto como um todo não encaixa. Não é divertido participar dos combates e não é incomum errar a ação pretendida, deixando o personagem em posição bastante delicada caso esteja em um local impróprio. Considerando que este ainda é um jogo de ação, o problema é extremamente importante e realmente puxa este título bem para baixo do patamar que se pretendia alcançar.

Linearidade dos mapas

Enquanto a trama pode ser alterada conforme as decisões do personagem, não podemos dizer o mesmo sobre as fases. Mesmo que existam alguns caminhos alternativos que facilitam passar por certos pontos, a linearidade é flagrante e não é incomum ter a sensação de que se está em um corredor — sendo empurrado adiante apenas pelas forças da narrativa que o fazem querer saber o que acontece em seguida.

Mal-acabado

Img_originalExistem vários pontos ruins em Alpha Protocol, como foi exposto acima, mas o conjunto geral é ainda mais fraco do que a soma de suas partes. A narrativa e o aspecto RPG do jogo não são suficientes para superar os sistemas pobres de combate e jogabilidade, além de o título possuir uma falta flagrante de qualidade.

A sensação que se tem é de que existe uma falta de polimento geral do game — na verdade, talvez até mais do que polimento, pois alguns problemas são tão profundos que necessitariam de uma revisão extensa do que foi montado. Seja como for, é algo que deixa o jogador pensando que o game não foi tão bem elaborado quanto merecia.

Compre com o menor preço:
60 ps3
Regular

Outras Plataformas

60 xbox-360