Um jogo mediano, mesmo aparentando ser um “MMO de GTA”

APB — ou All Points Bulletin — foi anunciado como uma das maiores promessas da desenvolvedora Realtime Worlds. Perante as informações relatadas antes do lançamento do título, muitas pessoas acreditaram que a jogabilidade seria semelhante ao que é encontrado em Grand Theft Auto IV. Com uma diferença básica: apenas online.

Portanto, o game distribuído pela Electronic Arts leva vários jogadores de todo o globo a travarem tiroteios frenéticos nas ruas da cidade conhecida como San Paro. Como o esperado, o conflito ocorre diretamente entre Criminals (criminosos) e Enforcers (policiais).

Uma característica interessante é que os agentes da lei têm a possibilidade de render e prender os bandidos em vez de simplesmente matá-los. Assim, quem decidir ser um Enforcer pode escolher entre a prisão e o extermínio dos inimigos. Mas, devido à resistência dos oponentes, demora um pouco para que o ato de prisão seja efetuado com sucesso. Além disso, existe a chance de que companheiros do criminoso rendido possam salvá-lo das grades.

MMO ou não?

O foco é online, mas APB não é necessariamente um MMO (jogo multiplayer online em massa). Por mais que os servidores comportem centenas de conexões simultâneas e os jogadores possam encontrar dezenas de outros gamers pelas ruas de San Paro, a interação é limitada. As diferentes missões fazem com que apenas um certo grupo de Enforcers possa interagir com um conjunto de Criminals. E não é muito fácil encontrar grupos com mais de cinco integrantes.

Dito isso, o desapontamento aguarda quem deseja participar de tiroteios generalizados. É curioso — e um tanto decepcionante, na verdade — constatar que, por mais que um policial aviste um meliante assaltando um pedestre (sim, você pode assaltar os cidadãos se for um ladrão), nenhuma atitude repressiva pode ser tomada de imediato. Além disso, você não pode participar de um tiroteio se não estiver envolvido na disputa em questão.

Uma missão demora vários minutos para ser finalizada e pode estar separada por etapas. Seja contextualizando uma “entrega”, a destruição de determinados lugares ou o domínio de pontos estratégicos no mapa, cada um dos estágios dura alguns minutos. Uma perseguição — missão de apenas uma etapa — pode ocorrer durante vários minutos, visto que o fugitivo sofre penalidades de tempo se cometer crimes enquanto escapa da polícia.

No momento em que foi escrita esta análise, apenas dois Worlds (como realms em MMORPGs) estavam disponíveis. Mas o importante é que cada um deles possui, tradicionalmente, três distritos: Social (no qual não há combates e é facilmente possível interagir com outros e comprar itens diversos), Waterfront e Financial. Nos dois últimos, não há sossego.

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Falando em “falta de sossego”, a jogabilidade de APB é simples e realmente lembra a franquia GTA. Como de praxe, você tem a oportunidade de controlar veículos diversificados e trocar tiros com outros jogadores em perspectiva de terceira pessoa. Quer roubar um carro em movimento? Basta atirar no veículo e o motorista ficará assustado. Depois disso, é só arremessar o cidadão para longe e tomar conta das ruas.

Algumas das diferenças mais gritantes entre APB e GTA IV são a forma de regeneração de energia vital (no jogo da Realtime, a recuperação é automática, não há “barra de vida”), a personalização de personagens — e veículos — e a variedade de itens à disposição. Não há friendly fire, ou seja: durante uma missão, é impossível fuzilar um aliado e matá-lo propositalmente. Mas é possível atropelar tanto amigos quanto inimigos.

Sua reputação está em jogo

Incorporando um oficial da lei ou um bandido, o gamer pode subir de nível através da taxa de Rating, nada mais que um sistema de nivelamento. Como progredir? Simples: por meio do cumprimento de missões. Recompensas são adquiridas mesmo se o jogador falhar em uma empreitada.

É essencial reforçar que melhorar o indicador de Rating auxilia a desbloquear equipamentos e outros objetos nos vendedores. Outro fator que pode bloquear o acesso de certos itens é o cumprimento de desafios diversos, muitas vezes relacionados ao sucesso no uso de armas e explosivos.

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Há outros sistemas de progressão no game. Os líderes de equipe podem se comprometer com alguns NPCs — personagens controlados pela inteligência artificial — para a obtenção de missões. Assim, varia o indicador de standing com esses protagonistas, que contam até mesmo com pequenas biografias escritas na tela.

Por fim, o índice de Notoriety (isso mesmo, “notoriedade”) do jogador muda de acordo com a execução de ações condizentes com a facção escolhida. Se o personagem controlado for um fora da lei, matar pedestres, roubá-los e cometer outros crimes são atos que imediatamente elevam o nível de notoriedade.

A formação de clãs pode ajudar no acesso rápido a grupos localizados em diferentes distritos (cada um tem um servidor dedicado). E, se o grupo estiver em apuros e precisar de reforços, existe a opção de procurar novos integrantes para o término da missão em andamento.

Outro detalhe curioso é que a reputação de um jogador pode subir tanto em um distrito que recompensas podem aparecer para quem (na facção oposta, é claro) conseguir a cabeça desse indivíduo. Os caçadores de recompensa — bounty hunters — de plantão agradecem.

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No mais, APB pouco faz para inovar e infelizmente não é tudo aquilo que os críticos e jogadores estavam esperando, conforme você verá nos próximos parágrafos.

Se você gosta de GTA, possui uma cópia de GTA IV e quer participar de excitantes embates multiplayer, fica a sugestão: não compre APB, jogue o modo multiplayer de GTA IV. David Jones (um dos criadores de GTA, inclusive) e o pessoal da Realtime Worlds ainda não conseguiram “acertar a mão” na criação de um MMO de ação urbana.

A não ser que os desenvolvedores tentem revolucionar a mecânica do jogo com o lançamento de grandes pacotes de atualização, não há motivos fortes o suficiente para que o jogador adquira o título. A ação de APB ainda é crua e precisa de mais trabalho. Repetir os mesmos passos durante as missões é imperdoável, levando em consideração as dimensões do game.

Pode ser que seja muito cedo para afirmar que este jogo é mediano, mas — pelo menos no momento em que esta análise foi feita — é difícil se divertir intensamente gastando várias horas com a experiência. A mecânica é prática e empolgante (tiroteios entre jogadores que atuam tanto como policiais quanto como criminosos), mas o trabalho em cima disso não foi muito bem feito.

Mais uma vez: se a desenvolvedora consertar os problemas encontrados pelos jogadores (o sistema de Bug Reporter serve justamente para isso) e apresentar desafios mais chamativos, tudo pode mudar. O potencial de APB é ótimo, mas nenhum jogo “sobrevive” no mundo dos games apenas com boas propostas, não é mesmo?

Pegando o jeito

Participar do tutorial é necessário e divertido. Demora um pouco para que o jogador entre no ritmo e conheça as bases do game, mas, felizmente, o aprendizado vale a pena. Não só a taxa de Rating sobe com o cumprimento das missões no Tutorial District, como o jogador pode ficar com todo o dinheiro adquirido durante o período inicial em San Paro.

Uma vez no “mundo real”, o jogador sente cada vez mais a intensidade da experiência. Combatendo com outros gamers, você percebe que é sempre bom olhar à volta para descobrir novos atalhos rumo ao objetivo... E também para saber se há algum inimigo nas proximidades, pronto para receber uma violenta saraivada de balas.

Bons momentos nas ruas caóticas

A melhor parte de APB é correr, conhecer o cenário e combater os inimigos. As cenas de ação são emocionantes e, querendo ou não, acabam envolvendo o jogador. Os controles são práticos, o que torna os tiroteios bastante dinâmicos. O bom é que, se o gamer perecer em combate, existe a possibilidade de “renascer” (respawn) em um local próximo aos objetivos da etapa atual da missão.

Enquanto muitos movimentos são decepcionantes, certas animações fazem com que a jogabilidade valha a pena. É bacana acompanhar o personagem chutando portas e pulando por cima de grades. Existe a possibilidade de executar esses movimentos em muitos lugares de San Paro. Os desenvolvedores cuidaram para que a cidade ficasse bem chamativa nesse sentido.

Estruturalmente sólido

Os pilares de um MMO devem ser consistentes para que a experiência prenda a atenção dos jogadores pelo maior tempo possível. O próprio tutorial é um bom exemplo de que a Realtime conseguiu estruturar bem o andamento das atividades.

Mas há outros detalhes que expressam esse cuidado de uma maneira ainda mais direta. Os diferentes sistemas de nivelamento entram em sintonia com a personalização — comentada abaixo — e também com a apresentação de características detalhadas de armas, veículos e outros itens. Assim, o jogador pode escolher cuidadosamente quais objetos deseja comprar com o dinheiro adquirido a duras penas.

Personalização intensiva

É bom quando o jogo oferece maleabilidade na personalização de diferentes itens, não é mesmo? Começando pelo personagem, surgem diferentes opções de modificação, bem como botões que simplificam a tarefa e geram um perfil aleatório. O jogador pode até mesmo colocar cicatrizes na pele do protagonista.

Os carros também podem ser alterados. As atualizações e aprimoramentos disponíveis custam dinheiro, mas são satisfatórias. Além disso, uma das opções de personalização mais interessantes é a escolha de músicas. Há uma trilha sonora do jogo, mas melhor ainda é escolher arquivos MP3 do sistema (contanto que o jogador possua músicas legalizadas) e criar uma ambientação musical própria.

No geral, bonito

Considerando que San Paro não é nada pequena e há uma grande quantidade de objetos a serem exibidos na tela, é difícil afirmar que o game é feio. Modelagens convincentes combinam perfeitamente com cores vibrantes e efeitos bem aplicados.

Pode-se dizer que o trabalho artístico supera os recursos gráficos. A cidade é bem chamativa e convida o jogador para a ação. Os defeitos visuais são vários, mas não obscurecem o fato de que APB — no que diz respeito à aparência geral — é um título bem superior a muitos outros MMOs existentes no mercado.

Repetitivo é pouco

Depois de poucas horas, o jogador “cai na real”. A diversificação de missões é... Inexistente. É difícil não perceber que o estilo dos objetivos propostos é sempre o mesmo. Cumprindo várias missões de forma consecutiva, fica fácil realizar a seguinte afirmação: variedade não é um dos pontos fortes do game.

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Inevitavelmente, isso leva muitas pessoas à monotonia, mesmo que a experiência seja exclusivamente online. Perseguições, demolições, decepções. Somente o início da experiência é diversificado. Divertido? Sim, mas não por muito tempo.

Ainda longe do realismo

Por onde começar? Bem, o efeito de ragdoll (animações semelhantes aos movimentos de bonecos inanimados) é interessante, mas quase não há sangue saindo dos oponentes fuzilados. Ainda na área técnica, o infame pop-in — surgimento repentino de objetos na tela — está sempre presente. Objetos somem e reaparecem a todo o momento, mesmo que estejam um tanto próximos do protagonista controlado.

Outro aspecto ruim é que os tiros não afetam veículos de forma realista. Sim, metralhar um carro faz com que ele exploda, mas não é possível furar pneus, nem mesmo acertar pessoas dentro dos veículos. Além disso, não existe uma animação convincente que retrate o personagem saindo de um automóvel. O indivíduo apenas sai abruptamente, não há uma animação de pulo para fora do carro.

Inacabado? Restrito?

É possível presenciar travamentos em várias ocasiões, seja na movimentação do personagem ou na visualização de ações externas. É difícil de perdoar isso, levando em consideração que os tempos de espera de carregamento de dados (loading) são bem demorados.

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Este é um jogo que demanda muita manutenção. Grandes dimensões arcam em grandes consertos. E o título distribuído pela EA ainda precisa de muitos reparos. Quando esta análise foi escrita, a aplicação de filtros anti-aliasing — corretores de bordas serrilhadas — ainda era um recurso Beta.

70 pc
Bom