Análise de Assassin’s Creed 3: The Tyranny of King Washington - The Infamy

Um pequeno fragmento de uma grande história

Os DLC estão no centro de uma grande polêmica ao longo de toda esta geração, constantemente flertando entre ser uma expansão da experiência central e um caça-níquel descarado. E por mais que você não goste do formato ou não concorde com as estratégias de produtoras quanto ao assunto, não podemos nos esquecer de que, no meio de tantos extras questionáveis, há algumas pérolas escondidas.

Exemplo disso é The Tyranny of King Washington, que expande o universo de Assassin’s Creed 3 de maneira um pouco diferente daquela que estamos habituados a ver. Em vez de simplesmente dar continuidade à história ou trazer algumas missões a mais, o DLC transforma todo o universo da série, criando quase como se fosse uma realidade paralela à trama original.


A ideia lembra muito o que a Rockstar fez com Red Dead Redemption ao trazer Undead Nightmare, recriando o universo a partir de outra proposta. No entanto, mais do que a ausência de zumbis, há algumas diferenças bem drásticas dentro do reinado de George Washington em comparação à luta de John Marston contra os mortos-vivos, sobretudo em relação ao sistema de capítulos.

Seguindo um formato cada vez mais popular — graças ao sucesso dos títulos da Telltale, principalmente —, a Ubisoft optou por dividir o DLC em três partes, sendo The Infamy o primeiro a chegar aos consoles e PCs, totalmente dublado em português. E por mais interessante que seja interessante ver esse lado mais “tribal” de nosso herói, a decisão de separar a história em capítulos tira um pouco do brilho do extra que poderia ser o novo Undead Nightmare desta geração.

Desde seu anúncio, antes mesmo do lançamento de Assassin’s Creed 3, The Tyranny of King Washington se mostrava como um DLC diferente daqueles que estamos acostumados a ver, trazendo uma abordagem diferenciada do jogo principal. E nesse aspecto, ele não decepciona, já que consegue criar um universo paralelo que une muito daquilo que funcionou no título original ao mesmo tempo em que adiciona novos elementos.

Acompanhar uma versão alternativa — ou nem tanto assim — de Connor é algo muito interessante, principalmente quando isso explora uma das melhores partes de AC3. Adicione a isso os poderes inéditos e as possibilidades oferecidas e você tem uma experiência realmente interessante e divertida.

Por outro lado, a divisão em capítulos não favorece o desenvolvimento da história. The Infamy tem um começo lento e só mostra para que veio a partir de sua metade, algo que prejudica todo o ritmo. Você demora para se empolgar com a trama e as demais novidades e, quando isso finalmente acontece, o jogo acaba.

Ao concluir The Infamy, a impressão que fica é que ele é apenas o começo de algo muito maior e que tem um incrível potencial, mas cuja execução foi atrapalhada pela ânsia de vender mais DLCs. É quase como se a história tivesse sido imaginada como um todo e dividida em partes posteriormente, criando esse problema.

De uma forma ou de outra, Tyranny of King Washington é uma excelente forma de expandir o universo de Assassin’s Creed 3, principalmente por oferecer uma perspectiva diferente dos personagens que conhecemos. Por mais que o sistema de capítulos tire um pouco do seu brilho, ele ainda mantém a excelência do título original e deixa claro que ainda há muito por vir — mesmo que de maneira picotada.

E se...

Como dito, The Tyranny of King Washington age quase como um exercício de criatividade que reimagina a história de Assassin’s Creed 3 a partir de um único fato: e se a mãe de Connor nunca tivesse sido morta por Charles Lee? Com isso, Ratonhnhaké:ton nunca se tornou um assassino e permaneceu na aldeia ao longo de toda a sua vida.

E isso é percebido logo de cara quando batemos o olho no protagonista, que abandona o icônico manto da ordem, adotando um visual muito mais tribal, com direito a peles de lobo e pinturas de guerra. E por mais que isso pareça ser apenas uma mudança de figurino, a novidade traz grandes revoluções na jogabilidade — como veremos mais para frente.


Porém, não se trata apenas de uma realidade alternativa, mas de algo muito maior. Apesar de termos um contextos completamente diferente do apresentado em Assassin’s Creed 3, o DLC não nega os acontecimentos da história principal.

Ratonhnhaké:ton é o único a se lembrar da luta contra os templários e os esforços para libertar as Colônias da mãos da Inglaterra. Ao acordar do que parece ser um sonho, ele encontra não apenas sua mãe viva como um mundo totalmente diferente daquele que apenas ele se recorda: George Washington, até então seu aliado, se proclama rei dos Estados Unidos e comanda todo o território com punhos de ferro — cortesia do Piece of Eden que ele carrega em seu cetro.

E é exatamente por conta desta relíquia que The Infamy tem início, já que a mãe do herói tenta roubá-la, despertando a ira do monarca. Com isso, o exército do recém-instaurado reinado parte para a fronteira, torturando e matando todos que possam ter alguma informação sobre a nativa. Em meio a tudo isso, Ratonhnhaké:ton — e o jogador — tenta entender o que está acontecendo e parte em um jornada para recuperar a sanidade de Washington, já que o próprio jogo não oferecer nenhuma explicação neste primeiro momento.

Por mais que faltem justificativas para tamanha mudança — algo que é apenas pincelado rapidamente em alguns momentos —, é interessante ver um mundo completamente diferente daquele que a Ubisoft nos trouxe no ano passado, principalmente ao mostrar como esse novo contexto influenciou outros personagens. Além de Connor e Washington, vários outros rostos conhecidos neste capítulo inicial. É o caso de Benedict Arnold, o traidor que aparece em um DLC do jogo principal e aqui retorna como um dos soldados mais leais do Rei Washington.

Forças da natureza

Por mais que The Tyranny of King Washington: The Infamy comece de maneira um pouco lenta e sem trazer tantas novidades em termos de jogabilidade, isso muda de figura já na primeira hora do game. Após descobrir o poder da Piece of Eden e sua impotência diante de Washington, Ratonhnhaké:ton decide apelar para as perigosas tradições de sua tribo.


A partir de um chá feito com as cascas de um salgueiro ancião, o protagonista se conecta com seus espíritos ancestrais e adquire novos poderes, totalmente inspirados na cultura indígena. E são os lobos que trazem as principais novidades do DLC.

Com a força desses animais, Ratonhnhaké:ton consegue usar habilidades inéditas e que serão muito úteis para encarar o exército de George Washington. Exemplo disso é que ele pode simplesmente se tornar invisível, se infiltrando em locais ou assassinando soldados sem que ninguém saiba o que está acontecendo.


É claro que um poder tão incrível e útil quanto esse tem suas desvantagens. Ao ativar esse modo “stealth lupino”, a barra de energia do personagem começa a decrescer gradativamente, já que a força oferecida pelo chá é usada apenas em situações de emergência por guerreiros devido aos danos que ela traz ao corpo do usuário. Em outras palavras, uma compensação para equilibrar o jogo e não permitir que você permaneça apenas oculto.

A infâmia dos capítulos

Como dito no início da análise, The Tyranny of King Washington tinha tudo para ser um excelente DLC — talvez o melhor, desde Undead Nightmare —, mas tropeça na péssima decisão de dividir a história em capítulos, criando uma quebra desnecessária que mais prejudica do que auxilia a narrativa.

Isso não quer dizer que sou contra os jogos em episódios. O problema é que essa estrutura funciona muito bem em determinados títulos exatamente pelo fato de o roteiro ser construído de modo que cada pequena história traga seu próprio clímax, quase como se fossem vários jogos separados que, quando unidos, formam um só.


E isso não acontece com o DLC de Assassin’s Creed 3. A impressão que The Infamy passa é que ele é apenas um fragmento daquilo que The Tyranny of King Washington deveria ser. Tanto que o tempo de jogo deste primeiro capítulo é excessivamente curto, podendo ser finalizado em apenas duas horas sem grandes complicações.

Isso se torna ainda mais problemático ao encararmos a trama. Como falei no início da análise, as explicações para essa “realidade alternativa” são pouquíssimas e tudo é muito vago, deixando claro que a revelação deve acontecer somente na conclusão da história. O problema é que isso não contribui para a evolução de The Infamy, deixando o jogador sem entender o que está acontecendo — correndo o risco de tornar as coisas menos interessantes do que elas deveriam ser.

Sem tantas possibilidades

Assassin’s Creed 3 trouxe muitas novidades à série, fazendo dele o mais grandioso título da franquia. Porém, isso não se repete em The Tyranny of King Washington, já que boa parte do conteúdo que fazia a saga de Connor ser tão empolgante não aparece no DLC.

E não estou falando das batalhas navais — algo que não faria sentido dentro do contexto proposto —, mas da própria liberdade de explorar o que o jogo oferece. Em The Infamy, somente a Fronteira está liberada e não há muito o que fazer por lá. Não há missões paralelas esperando por você e os únicos desafios estão em libertar escravos ou alimentar pessoas, ou seja, nada muito além de acontecimentos randômicos. E por mais que você possa caçar, não há muita utilidade para isso.

O jogo ainda tenta se estender ao colocar uma infinidade de baús espalhados pelo território, mas que não fazem tanta diferença assim. Eles não trazem nada de diferente ou novo, servindo como desculpa para fazê-lo cruzar o mapa e perder um pouco de tempo — em uma tentativa de fazer as duas horas necessárias para completar The Infamy se transformem em três.

75 ps3
Bom

Outras Plataformas

75 xbox-360