A queda do Morcego

Covenhamos: Arkham Origins ficou bem abaixo das expectativas. Apesar de uma história interessante, ele falhou em usar a mecânica da série em situações inéditas, preferindo se manter em uma zona de conforto. E foi exatamente por conta dessa frustração que acreditei que Batman: Arkham Origins Blackgate poderia ser a salvação para o Homem-Morcego.

Afinal, a estreia do herói nos portáteis poderia trazer a renovação que não vimos nos consoles e mostrar que o herói também poderia brilhar em outros tipos de jogos, seja encarando novos desafios ou usando as limitações das plataformas para criar momentos diferentes daqueles que já nos foram apresentados outras vezes.

No entanto, apesar de a transposição do universo sombrio da série Arkham para o estilo Metroidvania funcionar muito bem, o game sofre da mesma falta de criatividade que vimos nos sistemas de mesa. Por mais que Blackgate tenha ótimas intenções, não consegue deixar de ser um título genérico, insosso e nada divertido.

A Armature tinha tudo para trazer um excelente título do Homem-Morcego para os portáteis. Com Batman: Arkham Origins Blackgate, o estúdio pôde mexer na fórmula da série Arkham e fazer mudanças que nem mesmo a Warner Montreal teve liberdade — ou coragem — de fazer. No entanto, nem mesmo isso impediu de fazer com que o título se tornasse insosso e completamente descartável.

Ele falha em questões básicas de design e de narrativa, o que torna a estreia do Cavaleiro das Trevas no Vita e 3DS em uma experiência frustrante e desanimadora. Isso tudo faz com que o jogo se torne cansativo e entediante — uma característica mortal para qualquer game.

Por mais que algumas das mudanças tenham ajudado a renovar a série e mostrar que é possível adaptá-la aos portáteis, a grande quantidade de deslizes coloca todos esses acertos em segundo plano e destaca apenas aquilo que o jogo tem de pior.

No fim das contas, Blackgate não só destoa completamente da qualidade da série Arkham como ainda não acrescenta nada á mitologia do personagem. Se a ideia era mostrar mais um pouco da formação do herói, este game deixa claro por que algumas coisas devem permanecer esquecidas no passado.

Entre o detetive e o explorador

Por ser um título exclusivo dos portáteis, a fórmula clássica da série teve de ser adaptada e a principal mudança foi a perspectiva adotada. Em vez dos ambientes amplos e tridimensionais, Blackgate traz algo bem mais próximo de Metroid e Castlevania.

Embora isso cause um estranhamento inicial a quem está acostumado a mover o herói livremente pelo cenário, a mudança faz todo o sentido e funciona muito bem. Assim como em Arkham Asylum, Blackgate se passa em uma prisão de segurança máxima durante uma rebelião e a utilização de ponto de vista 2D ajuda a recriar o clima opressor do momento. Tudo é muito escuro, estreito e parece que você está sempre em desvantagem.

E, mais do que manter essa sensação claustrofóbica a todo o momento, a nova perspectiva ainda contribui para a exploração. O vai e vem pelo mapa é constante, seja para obter um gadget ou para resolver um puzzle que só pode ser concluído graças a uma nova habilidade. É a base do Metroidvania sendo muito bem aplicada.

Além disso, Batman: Arkham Origins Blackgate conta com segredos espalhados em todos os cantos, o que obriga o jogador a ficar atento a todo o instante em busca de pequenos detalhes. São elementos que vão ajudá-lo a progredir em sua missão, colecionáveis e até mesmo pistas de outros casos que o Homem-Morcego está investigando e que podem passar despercebidos a olhos destreinados.

O ponto aqui está na utilização do já tradicional Detective Mode, que também precisou receber alguns ajustes para funcionar nas plataformas portáteis. Em vez de simplesmente evidenciar os pontos de interesse, o novo game permite que você realmente investigue cada ponto a partir da touchscreen.

Isso torna o processo bem menos automático, pois é o jogador quem está procurando pistas ou informações úteis. Tão logo você entre em uma nova área, já vai começar a passar o dedo sobre a tela para procurar algum objeto oculto.

A arte dos quadrinhos

Apesar de o visual geral de Batman: Arkham Origins Blackgate não ser nada excepcional, a parte artística das cenas de corte é incrível. Para se encaixar nas limitações técnicas dos portáteis, a Armature Studios trouxe algo muito mais próximo das histórias em quadrinhos.

Tanto o visual quanto as próprias animações funcionam como uma espécie de motion comics. Os traços e a própria linguagem, repleta de onomatopeias e outros recursos retirados dos gibis fazem com que Blackgate se aproxime muito mais dos gibis do que nenhum outro título da saga Arkham.

Repetitivo ao extremo

Assim como Batman: Arkham Origins, Blackgate sofre com uma terrível falta de criatividade que faz com que o jogo sofra com uma irritante repetição. À medida que o herói avança pelos corredores da prisão, você percebe que os desafios encontrados são exatamente os mesmos. Procurar um duto de ar, explodir uma parede, se pendurar em uma estrutura e hackear o sistema de segurança são atividades que você vai repetir à exaustão ao longo de todo o game.

Isso torna o jogo bastante cansativo, pois você não se sente desafiado em momento algum. Por mais que haja dezenas de objetos escondidos em cada canto do mapa, eles são opcionais e podem ser facilmente ignorados pelo jogador. Para quem quer apenas vestir o manto negro e partir para a luta, Blackgate oferece pouco conteúdo realmente interessante e capaz de prender a atenção.

Essa repetição fica ainda pior com a falta de combates — a quantidade de inimigos é bem reduzida, fazendo com que os confrontos sejam raros — e o péssimo design dos cenários. Por mais que a ambientação consiga recriar o clima claustrofóbico de uma prisão, o título não consegue oferecer obstáculos à altura.

Tanto que a maior dificuldade não está nos puzzles ou nas lutas contra os chefes, mas em se localizar dentro daquele imenso labirinto. O desenho do local é bastante confuso e é muito fácil você perder seu referencial, ficando completamente perdido lá dentro. Isso cria uma dependência enorme do mapa, o que quebra todo o ritmo da exploração, principalmente no Vita.

E se perder significa muito mais do que simplesmente ter de andar em círculos. Significa passar pelos mesmos dutos de ar e se pendurar nos mesmos objetos de antes, o que dá a sensação de que você não saiu do lugar.

Uma história irrelevante

Se a falta de desafios faz com que você sinta que o jogo não avança, o fiapo de história que deveria conduzir o jogador pelos corredores de Blackgate pouco faz para consertar isso. A trama é tão irrelevante que é comum você se perguntar por que diabos é preciso chegar ao seu objetivo — seja ele qual for.

O pior de tudo é que esse projeto de enredo é quase como uma variação mais genérica da trama de Arkham Asylum: Batman precisa entrar em uma prisão de segurança máxima tomada por supervilões e salvar o dia. O problema é que ele não se desenvolve em momento algum, resumindo toda a ação a “encontre o vilão e bata nele”.

Isso apenas contribui para tornar o jogo ainda mais cansativo e desinteressante. Não há nada que o motive a seguir em frente, já que nem mesmo as lutas contra chefes empolgam. Por mais que algumas delas se destaquem por colocar o Homem-Morcego como alguém muito mais tático do que porradeiro — como é o caso da batalha contra o Máscara Negra —, a grande maioria pode ser resolvida com apenas um ou dois golpes e sem muito desafio. Tão logo você identifica o padrão do oponente, ele já não representa mais ameaça alguma.

O pior de tudo é que a proposta de Blackgate era que ele desse continuidade aos acontecimentos de Batman: Arkham Origins. No entanto, com exceção da Mulher-Gato, ele não traz nada de novo ao universo da série e tampouco consegue se conectar com o game para consoles, sendo apenas um título vazio e sem graça.

Combate truncado

Se Batman: Arkham Origins Blackgate possui pouquíssimos confrontos entre o Cavaleiro das Trevas e criminosos menores é porque o sistema de combate como um todo não funciona como deveria. A Armature tentou manter a mesma mecânica dos consoles nos portáteis, mas o resultado final fica muito aquém daquela que estamos acostumados a encontrar.

Na teoria, os comandos são os mesmos e você precisa aliar seus golpes a contra-ataques precisos e esquivas ágeis. Entretanto, tudo é tão truncado que não há como fazer com que essas ações funcionem como deveriam, criando aquela frustração incômoda que faz com que você pragueje sempre que um grupo de bandidos se aproxima.

E nem pense em usar seus gadgets para neutralizar um inimigo ou qualquer coisa parecida. Com movimentos lentos e atrapalhados, tentar arremessar um bumerangue ou usar o gancho para aproximar o herói dos oponentes pode ser um convite para a morte ou, no mínimo, mais uma razão para você querer jogar seu portátil contra a parede.

Por fim, não podemos nos esquecer da morte do stealth. Por mais que o estilo Metroidvania funcione muito bem dentro da proposta da série Arkham, não há como negar que essa mudança também trouxe alguns prejuízos. As estratégias furtivas foram quase que inteiramente deixadas de lado, sendo usadas raríssimas vezes ao longo de todo o jogo. Há algumas tentativas de recriar esse efeito em alguns momentos, mas nenhum consegue manter o mesmo resultado.

55 psvita
Fraco

Outras Plataformas

55 3ds