A volta a Rapture é perversa, carregada de ação e digna de muitos elogios

Em 2007, BioShock conseguiu se distinguir de tudo e de todos. O jogo de tiro em primeira pessoa contou com uma ambientação única: Rapture, a cidade submersa em que todos eram livres de censura, de governo e de leis, o ambiente em que poderiam desenvolver seus sonhos e projetos, além de evoluir livres dos problemas alheios.

O título trouxe uma série de questionamentos morais, além de uma visão alternativa — e completamente deturpada — do que seria o auge da década de 1950. Cidadãos logo se tornaram vítimas de seus desejos, consumindo a própria sanidade em busca de poder e de habilidades.

BioShock 2 é um regresso às profundezas do oceano. Jack — o protagonista anterior — não faz mais parte da narrativa. Quem entra em cena agora é Alpha, um dos primeiros (senão o primeiro) protótipos dos Big Daddies a ser construído, dotado de livre arbítrio e de capacidades superiores se comparadas às dos demais alvos de testes. Ele foi também o primeiro a ter um elo efetivo com uma Little Sister — Eleanor Lamb. Infelizmente, esta ligação praticamente lhe custará a vida, graças ao desejo de Sofia Lamb de retomar sua filha.

Induzido por uma profunda hipnose, você é forçado a remover seu capacete e colocar uma bala no seu próprio cérebro, deixando a pequena vulnerável. Seu “sono” termina dez anos depois, graças ao chamado de Eleanor, que clama por libertação.

Não tenha dúvidas: Bioshock 2 é um excelente jogo. As mecânicas de partida (como o próprio “Hacking”) foram revitalizadas e melhoradas em todos os aspectos. A possibilidade de manter a habilidade e o armamento simultaneamente abre novos precedentes em termos de jogabilidade.

Os combates são realmente infernais: fazem você suar na cadeira a cada encontro, tamanho o aumento no nível de dificuldade. É necessário tomar uma abordagem mais estratégica e cautelosa, em oposição ao tradicional “correr e atirar”. Como complemento a isso, temos o surgimento das Big Sisters, criaturas impiedosas que o caçarão ao longo de toda a história.

As modalidades online serão capazes de prender os jogadores por muito tempo, graças à diversidade de objetivos, mapas e ao sistema de progressão por níveis, que abre novas peças da história e poderes para o seu personagem. É um verdadeiro incentivo para que a matança siga em frente!

Entretanto, é inegável que a segunda viagem já não carrega a mesma impressão e nem mesmo a magia do primeiro jogo. Isso acontece porque todos já tiveram contato com Rapture, com sua sociedade apodrecida pelo desejo de poder e com suas perversões. Que os novos episódios (se é que um dia eles existirão) abordem pontos diferentes da narrativa — a exemplo da própria construção da cidade.

Na pele do Big Daddy

No papel de Alpha, você passará por uma experiência drasticamente diferente da vista durante o primeiro game (mesmo após a transformação de Jack). A visão é cercada pelos contornos do capacete o tempo todo, sua agilidade é mais alta do que a dos demais modelos, os saltos são seguidos de impactos que arrebentam os ouvidos (dado o peso da armadura).

Como sua couraça foi projetada para trabalhos submersos, você pode cruzar tranquilamente alguns trechos cobertos por água. Entretanto, o que mais chama a atenção no novo personagem é a sua furadeira. Além do fato de ela simplesmente destroçar os corpos alheios em modo de alta rotação, ainda há a possibilidade de executar um ataque deslizante que vai de um canto ao outro do corredor. Acredite: enfileirar oponentes é muito divertido!

Armas mirabolantes

Além da furadeira grotesca, Alpha ainda terá à sua disposição um arsenal pesado, adaptado ao seu tamanho considerável. Bons exemplos são a arma de rebites — que dispara cinco pregos industriais por vez contra os corpos alheios — e a metralhadora de alto calibre, capaz de transformar os adversários em peneira. O grande problema dela é o coice violento, portanto dispare com cautela.

Se a variedade de equipamentos não o atrair, saiba que há mais: praticamente todas elas trazem consigo suporte para três tipos de munição. Alguns causam mais dano, outros são voltados à perfuração de armaduras e outros servem inclusive como armadilhas (algo que descreveremos com mais detalhes adiante).

A própria invasão de circuitos (Hacking) agora conta com apoio mecanizado: uma das armas dispara ferramentas que facilitam (ou automatizam por completo) o processo. Vale notar que o minigame foi alterado, privilegiando tempo e velocidade. Mas a melhor novidade trazida pela continuação é a possibilidade de Dual Wielding, isto é, a utilização dos Plasmids e das armas de fogo ao mesmo tempo, algo extremamente necessário tendo em vista os desafios que você encarará pela frente...

Combates insanos

Dez anos depois, o que vemos na cidade submersa é uma evolução completa (em termos de inimigos) em relação ao primeiro game. Os Splicers (viciados em ADAM que modificam suas habilidades constantemente) estão com uma aparência mais deteriorada, mas em contrapartida conversam entre si e se tornaram bestas infernais, com maior propensão ao uso de explosivos e armas de alto impacto.

Há inclusive uma variante “gigante”, os Brutes, que simplesmente pulam com tudo para cima de você, drenando sua energia graças ao tamanho do impacto (aliás, todos os Splicers parecem estar mais fortes, acabando com a sua raça em instantes). Se ele vier acompanhado de uma trupe, a melhor estratégia é hipnotizá-lo para que ele limpe o caminho praticamente sozinho.

Conheça seu pior pesadelo...

As escolhas morais estão de volta (com direito até a participação de adultos). Caso você resolva proteger as crianças ao invés de simplesmente sugá-las, ainda terá que se defrontar com uma verdadeira situação de defesa de “base”: enquanto ela coleta o DNA dos corpos, uma onda de inimigos partirá em sua direção.

É nessa hora que pode surgir também o seu pior pesadelo: as Big Sisters, crianças do primeiro jogo que cresceram com habilidades (graças ao contato com o ADAM) e se transformaram em jovens com um temperamento indomável. Elas marcam território com seus gritos, saltam e somem da tela de um segundo para o outro e estão sempre o observando, prontas para apunhalá-lo pelas costas.

Derrubá-las não é tarefa fácil, aliás, é muito mais difícil do que abater um Brute, uma vez que elas possuem agilidade sobre-humana. Suas vozes são capazes de provocar calafrios nos jogadores e os encontros são sempre motivo de medo, ou melhor, experiências memoráveis.

Por isso é que a estratégia deve falar mais alto. O jogador tem que buscar todas as máquinas que possam auxiliá-lo no combate (torres de defesa e Bots voadores), bem como montar as defesas — algo possível graças às munições especiais, que se fixam nas paredes, no teto e no chão para formar armadilhas, que são ativadas apenas com a passagem dos Splicers.

Se tudo isso não bastasse, a aparição de munição é bem escassa, o que o força a buscar uma máquina de venda para reabastecer o arsenal. Em suma, Bioshock 2 é muito mais difícil do que o primeiro título e praticamente exige que o jogador preste atenção antes de pular em direção aos oponentes.

A evolução natural

Se estas feras estão dando trabalho, há uma saída: a evolução natural das habilidades, ou melhor, dos Plasmids. Através do uso de ADAM e das estações de aprimoramento, você terá acesso aos novos níveis de habilidades. O Plasmid Incinerate!, por exemplo, passa de um mero meio de incendiar a praticamente um jato de chamas.

O mesmo vale para a habilidade Winter Blast, que ao invés de congelar apenas um inimigo terá o poder de congelar qualquer coisa que cruzar o caminho do jogador. Entre as melhorias e as próprias habilidades assistenciais, existirão tantas possibilidades de evolução e de combate que os jogadores dificilmente seguirão exatamente pela mesma rota. Tudo depende da preferência de cada um.

Ambientação fenomenal

Tudo o que caracterizou o primeiro jogo em termos de ambientes e cenários está de volta, afinal de contas, você ainda circunda pela mesma cidade. As paredes de vidro causam agonia, enquanto as profundezas do oceano são complementadas por uma série de criaturas que pairam sobre a sua cabeça.

A arte do jogo é diretamente inspirada em trabalhos da década de 1950 (da fonte utilizada nos letreiros até as animações e gravuras que permeiam as telas), bem como as canções que o surpreendem em elevadores e nos bares: uma nobre combinação entre Blues e Jazz de ótima qualidade.

Junto com as músicas dignas de uma visão Noir, emerge também a trilha sonora principal do game. Ela é ume excelente mescla entre trechos curtos e sinistros (que fazem com que o jogador preste atenção na tela) e outros que pendem para o clássico, com direito a violinos e uma brilhante execução. O melhor de tudo é a sincronia com o que ocorre na tela. Tudo o que toca tem um motivo para estar lá, tornando a experiência ainda mais emocionante.

Mistérios por todos os lados

A narrativa de Bioshock 2 não recai sobre a necessidade de uma guinada inesperada. Elas ocorrem, sem dúvidas, entretanto tudo progride de forma mais natural. As pistas relacionadas ao seu passado são fornecidas em parte pelo contato que os outros já tiveram com você e em parte pelas gravações de voz, que dão uma boa ideia do relacionamento entre Sofia Lamb e Andrew Ryan.

Multiplayer bem variado

No caso do primeiro Bioshock, a justificativa da Irrational Games para a ausência de uma modalidade online foi a necessidade do foco na história, de modo a garantir a qualidade do projeto. Para a continuação, um segundo time de desenvolvedores foi alistado, o que livrou a equipe principal da 2K Marin para trabalhar na narrativa.

Como resultado, temos em mãos um multiplayer mais do que robusto, com cerca de sete modos de partida — dentre Deathmatch, partidas em grupo, captura e proteção das Little Sisters ou ainda de pontos estratégicos — e dez mapas inspirados em cenários da campanha. Você seleciona um dos seis personagens e parte direto para o combate.

O sistema de combate é similar ao do jogo normal, entretanto com um toque extra de velocidade. Na medida em que você prossegue pelas partidas, mais experiência e níveis são ganhos, algo que consequentemente o fornece mais opções de armamento, Plasmids e recursos auxiliares (pense em algo similar ao trazido por Call of Duty: Modern Warfare).

Cabe notar também que o multiplayer tem participação direta na narrativa, haja vista que ele mostra o início da guerra civil, com os habitantes de Rapture no estopim do declínio graças à presença de ADAM e de competição por negócios e territórios.

Cadê todo mundo?

Tudo bem, as partidas online são realmente divertidas e oferecem uma boa dose de longevidade para o título. Entretanto, é inegável que em seu atual estado fica difícil jogar em algumas modalidades. Isso ocorre porque as salas estão sempre vazias, enquanto os servidores chegam a demorar cerca de quinze minutos até organizar todos os jogadores.

Enquanto você aguarda pela entrada de todos, não há nada para ser feito, além da personalização dos equipamentos e habilidades. Conversas por texto? Nem pensar... Opções de acelerar a entrada nos mapas? Sem chance...

Sem grande progresso

Para Bioshock 2 o motor gráfico utilizado no game original foi mantido, o que significa que não existem muitos incrementos em termos de qualidade gráfica. Os shaders e efeitos são praticamente os mesmos, a água corre pelas superfícies da mesma forma como visto anteriormente e — como ainda estamos no ambiente submerso — até mesmo os corredores acabam se tornando familiares em excesso.

Quem teve a oportunidade de jogar o game em computadores antes notará também que a filtragem das texturas e a própria resolução dos efeitos dos Plasmids sofrem um pouco nos consoles, afinal de contas o cenário não mantém o mesmo brilho conforme a distância da câmera aumenta. Ainda entram na mistura os serrilhados por todos os lados e a visível degradação da qualidade para a modalidade de vários jogadores.

O nível de detalhes é mediano, algumas texturas são de baixa qualidade (como na passagem pelo oceano, na qual é possível avistar até uma poeira falsa flutuando com o impacto do personagem na encosta) e as poças de óleo — ainda mais quando incendiadas — literalmente quebram com a imersão. Como já afirmado em outras análises de continuações de games que levaram notas menores em termos de gráficos, os padrões para as avaliações sobem na medida em que os jogos quebram as barreiras técnicas.

Mais do mesmo

Outro ponto a ser levado em consideração é que o jogador ainda estará passeando por Rapture, ou seja, você terá a sensação de que já viu tudo antes, seja sob a forma da arquitetura, dos corredores ou ainda das salas. Por mais bem projetados que tenham sido todos os cenários, o impacto obtido antes já não está mais presente.

Os Splicers já são conhecidos, os Plasmids — ainda que com o novo sistema de evolução — são basicamente os mesmos. Para tornar esta sensação ainda pior, as fases trilham formatos que lembram mais labirintos do que construções reais, sem oferecer a possibilidade do jogador voltar em alguns pontos (até mesmo uma mensagem é exibida, alertando que tudo o que for deixado para trás não poderá ser adquirido novamente).

89 pc
Ótimo

Outras Plataformas

88 ps3
88 xbox-360