A sensação de desamparo e glória de um soldado em campo de batalha em um jogo exclusivo à nova geração.

Embora já em 1992 o título Wolfstein 3D já tenha utilizado a Segunda Guerra Mundial como tema principal, o evento histórico só foi devidamente explorado mais tarde. Foi só no final dos anos 90 que o potencial do tema pareceu finalmente ter sido descoberto. Uma série de games e franquias vêm sido lançados desde então, cada um com suas peculiaridades; alguns obtiveram sucesso, outros não.

No topo da lista de franquias de sucesso está Call of Duty, para PC, que optou por retratar o tema sob uma perspectiva cinematográfica, com uma visão ao mesmo tempo trágica e gloriosa. A franquia ganhou uma continuação, com uma nova vantagem: diferente de seu antecessor, o título foi lançado também para um console de nova geração, o Xbox 360. A opção foi tão bem sucedida, que os desenvolvedores optaram por lançar a terceira versão da série apenas para os consoles de nova geração.

Call of Duty 3, assim como seus antecessores, é um jogo de tiro em primeira pessoa que retrata a Segunda Guerra Mundial sob a perspectiva de um soldado e seu pequeno grupo de colegas. O grande diferencial em relação às outras franquias congêneres que abordam o tema é importância dada ao soldado e ao trabalho em equipe. Você sente realmente o drama de um soldado em meio a explosões que parecem não acabar nunca e rajadas de tiros para todos os lados, em um lugar onde não há apenas um super-soldado, mas sim um grupo de heróis no qual cada membro é essencial.

Uma gota d'água em um mar de sangue

O game se passa na França — que está ocupada pelo Eixo — e você joga na pele de um soldado de uma tropa estadunidense com a missão de ajudar na libertação do país. Embora o tema seja freqüente, desta vez o mesmo é abordado com uma profundidade maior; talvez até isso se deva ao fato de ser um assunto corriqueiro, conseqüentemente com portas abertas a novas possibilidades de exploração.

Diferente da maior parte dos jogos do gênero, nos quais você joga na pele de um herói imbatível com um arsenal de dar inveja e recursos que dariam vantagem a uma
criança, Call of Duty 3 coloca o jogador na pele de um simples soldado estadunidense, que possui um armamento equivalente ao das forças inimigas, sem nenhuma vantagem adicional além da bravura e espírito forte. Devido a uma equalização das qualidades do protagonista em relação aos outros personagens, a idéia do “eu” dá lugar a um senso de coletividade e trabalho em equipe.

Isso tudo se reflete na jogabilidade. Você faz parte de uma equipe de soldados na qual cada homem tem a sua função e faz diferença, portanto, são raros os momentos nos quais você vai prosseguir sem o auxílio de seus colegas. Muitas vezes, também, o jogador é incumbido de auxiliar ou dar cobertura a algum outro soldado em determinada missão, como plantar uma bomba.

O papel dos outros soldados também é essencial aos jogadores menos experientes. O ambiente de guerra é tão caótico que não é difícil ficar extremamente desnorteado em meio às explosões e ao fogo cruzado constante no campo de batalha. Felizmente, seus colegas vão tomar frente e ajudá-lo, mostrando o caminho certo a seguir. Novamente, o senso de companheirismo é enfatizado.

Ao aprender as mecânicas de Call of Duty 3, entretanto, tudo fica mais fácil. Há poucos elementos visuais na tela. As informações se limitam a um radar no canto inferior esquerdo e a indicação das armas e quantidade de munição que você possui. Um dos grandes diferenciais da série entra aqui; não há indicação numérica da sua energia ou saúde e sim indicações “físicas”. A tela começa a ficar vermelha e o barulho ensurdecedor das explosões parece estar longe. Se você ainda não entendeu, o jogo deixa bem claro: “procure cobertura antes de tomar mais dano” — isso significa que você está prestes a morrer.

Itens de vida e semelhantes não têm espaço em Call of Duty 3. Tudo o que você vai encontrar em campo de batalha são armas, munição e granadas. Para recuperar-se, o soldado deve descansar em algum local seguro por alguns instantes antes de partir novamente à batalha. Felizmente, seus companheiros estão lá para lhe dar cobertura e continuar avante.

Entretanto, a ajuda dos outros soldados pode tornar a experiência pouco empolgante aos entusiastas de longa data da franquia nas dificuldades mais baixas. Para estes, então, o mais recomendado é deixar o nível de dificuldade entre os mais altos. O jogador médio deve começar na dificuldade normal, que possui uma linha de aprendizagem suave a ponto de não tornar a dificuldade um impecílio para a diversão, ao mesmo tempo que íngreme o suficiente para tornar a experiência desafiante.

O destino de um conflito em suas mãos

Embora nada supere a precisão do uso de um mouse, Call of Duty 3 apresenta controles funcionais com recursos interessantes que facilitam a vida do jogador. Você pode pular, agaixar, rastejar, mirar com maior precisão (utilizar a mira aproximada, no caso de rifles sniper e rifles de precisão) ou atirar normalmente. Há ainda a opção de desferir uma coronhada rápida, ideal quando algum inimigo surge subitamente à curta distância. Como era de se esperar, correr e atirar não é aconselhado, enquanto esperar pacientemente pelo momento certo e só então mirar e atirar é uma atitude mais sensata, visto que a precisão das armas é muito maior quando as mesmas encontram-se paradas.

Embora seja essencialmente um jogo de tiro, Call of Duty 3 não se resume incumbir o jogador de simplesmente atirar (mesmo este atirar não sendo tão simples assim). Há missões específicas como plantar bombas em determinados locais — estas exigem mini-games para serem devidamente executadas. Além disso, é possível dirigir veículos como jipes e tanques de guerra durante as missões principais. Há, inclusive, fases nas quais você não desce nem mesmo um segundo do tanque.

Controlar os veículos é uma tarefa bastante simples e divertida. Basicamente você deve dirigir pelas estradas mais caóticas, passando pelo fogo cruzado e desviando uma série de obstáculos em seu caminho enquanto seus companheiros cuidam de atirar e eliminar a ameaça. Há missões, entretanto, nas quais você é incumbido de atirar enquanto outro soldado dirige. Já no caso dos tanques, você ainda pode atirar com uma metralhadora e um canhão ao mesmo tempo que se movimenta.

A arte da guerra

Embora o conceito de Call of Duty 3 seja essencialmente o mesmo dos outros games da série, os gráficos do título são os melhores já vistos em um jogo da franquia e constituem um de seus pontos mais fortes. Tudo é impressionante, da modelagem e movimentação dos personagens às texturas. Você provavelmente não vai procurar falhas e texturas mal feitas durante uma guerra na qual a ameaça é eminente, entretanto, se o fizer, obviamente vai encontrar algumas poucas.

No entanto, alguns objetos como pequenos destroços e pedaços de ferro podem ser barreiras para o seu soldado — e sua paciência. Imagine-se em uma situação desvantajosa em um grande tiroteio, quando tudo o que lhe resta é fugir. Porém, há uma pequena viga de ferro na sua frente que não pode ser ultrapassada nem através de um pulo. Seu soldado, então, morre baleado devido a uma grande falha do jogo; não há nada mais frustrante e irritante que isso.

Deixando as falhas de lado, o clima caótico de guerra é reproduzido de forma extraordinária em Call of Duty 3. Tiroteios intensos, corpos, destroços de guerra e explosões aqui são tão comuns quanto peixes no mar. Muita coisa acontece ao mesmo tempo e você só reza para sair vivo de toda esta loucura. Tudo isso só é possível devido a uma construção sólida dos cenários, que, embora não sejam muito variados, constituem o cenário perfeito para as batalhas do game.

O barulho ensurdecedor das granadas e explosões é freqüente e não raramente afeta seus sentidos. Quando uma explosão muito forte acontece em algum lugar próximo, um clarão toma conta da sua visão e um apito agudo ressoa em seus ouvidos. Um misto de medo com uma sensação de que não há nada que possa salvá-lo então toma conta, confirmando o trabalho extraordinário de sonoplastia e a utilização bem empregada de recursos gráficos para simular sensações. O mesmo pode ser notado quando você está prestes a morrer; as bordas da tela tornam-se vermelhas, simulando uma vermelhidão dos olhos e tudo parece chacoalhar de forma desordenada.

Felizmente a voz de seus companheiros de batalha pode ser ouvida nas horas em que a esperança parece ter acabado. Através de dublagens muito bem feitas com diálogos bem construídos e bastante pertinentes, você recebe de palavras de apoio a ordens de seus superiores. As cenas entre uma fase e outra também são muito bem feitas, desde a animação até as falas.

Tudo é acompanhado por uma trilha sonora que parece até sensível ao contexto. Quando os heróis seguem em frente em uma missão arriscada que envolve uma abordagem mais agressiva, a música é agitada com batidas tão profundas quanto às dos corações dos soldados. Da mesma forma, quando a missão envolve uma abordagem sorrateira, a música é quieta e cria o clima de suspense perfeito.

A soma dos efeitos visuais e sonoros é indiscutivelmente um dos pontos mais fortes de Call of Duty 3. O título faz formidavelmente o que muitas outras franquias tentaram e não conseguiram: exprimir a sensação de se estar em campo de batalha. Utilizando um aspecto cinematográfico, o jogo cria o clima perfeito de batalha e faz o jogador se sentir como se estivesse em um verdadeiro filme de guerra.

Do desamparo à glória

A evolução na série Call of Duty parece ser cada vez mais evidente. A terceira versão da franquia apresenta gráficos como nunca vistos e uma sonoplastia excepcional, acompanhada por uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente na proposta do game. Entretanto, continua sendo o bom e velho Call of Duty, apenas com uma nova aparência. Isso até pode soar bem a alguns entusiastas da franquia, entretanto, aqueles que buscam novidades podem não se contentar com o título.

Em relação à versão do PS3, Call of Duty 3 para o Xbox 360 é superior na maior parte dos aspectos. Alguns bugs da versão do PS3 parecem ter sido corrigidos, como problemas de script e da inteligência artificial. O modo online do Xbox 360 é mais consistente e funciona de forma mais suave, sem problemas de lag, apesar da versão do PS3 não ficar muito atrás.

Embora a jogabilidade seja sólida e precisa, os aspectos mais marcantes de Call of Duty 3 são os gráficos, sonoplastia e trilha sonora. Não apenas pela qualidade, mas também por todo o conceito artístico que envolvem, os aspectos visuais e sonoros do jogo são extraordinários e criam o clima perfeito da guerra. É possível sentir na pele as emoções de um soldado, que vão do medo e da sensação de desamparo à coragem e glória.
78 ps3
Bom

Outras Plataformas

85 ps2
86 xbox-360