Recriando o Império Romano, um cidadão de cada vez.

CivCity Rome é um jogo de estratégia em tempo real, que desponta pela falta de acabamento e fraca apresentação. Entretanto, caso o jogador consiga ignorar a parte gráfica, encontrará uma abordagem inovadora da conhecida mecânica dos jogos de estratégia, provando que é possível fazer coisas novas em um gênero já desgastado.

Entressafra de idéias novas

O gênero estratégia em tempo real costuma gerar jogos para um público bem específico, que se satisfaz em gerenciar cidades, recursos e unidades militares. Eventualmente o gênero consegue apelar aos jogadores mais ligados na ação, através do lançamento de títulos como Rome: Total War. A fórmula simples, baseada no comando de cidades e exércitos, faz com que os títulos de estratégia se tornem muito parecidos, tributários à Age of Empires ou Civilization.

Não que exista algo de errado com a reciclagem ou repetição do estilo de jogo, mas mesmo os obsessivos jogadores desse gênero às vezes se perguntam se não é possível fazer algo um pouco diferente. Atualmente, é como se estivéssemos esperando o “próximo grande salto de jogabilidade”, pois nem títulos recentes de grandes desenvolvedoras (como Age of Empires III da Microsoft), conseguiram mostrar algo de realmente inovador. Precisamos de um jogo que faça pela estratégia o que Grand Theft Auto fez pelos jogos em terceira pessoa, ou o que Half-Life e Halo fizeram pelo jogos de tiro em primeira pessoa.

Enquanto nada aparece, é importante prestar atenção em jogos como CivCity Rome, que apresenta maneiras diferentes de jogar, com algumas modificações na conhecida mecânica de jogo. Infelizmente a boa jogabilidade vem em um pacote horrivelmente apresentado, o que compromete a permanência do título no imaginário dos jogadores.

Chato como nos livros

Em CivCity: Rome você faz parte da burocrática cadeia de comando do Império Romano. O avanço no jogo acontece através da execução de missões específicas, que normalmente incluem atingir um certo nível de acúmulo de recursos ou de upgrades nos edifícios de sua cidade. Aos poucos seu personagem sobe na cadeia hierárquica, podendo escolher os rumos de sua carreira, optando por missões civis ou militares, por exemplo.

Tudo é colocado de maneira bastante genérica, e você nunca sente-se de fato na pele de um grande gestor romano. A pouca variação nas missões também e prejudicada pela péssima apresentação, com menus singelos e mínimos textos explicativos sobre o que fazer. Existe uma voz que lê os textos das missões, acompanhada por uma figura estática do seu superior, que se repete a cada missão. A sensação é de estar jogando um jogo de 5 ou 6 anos atrás.

O tema do jogo só atinge uma certa profundidade na exploração da “Civilopédia”, que traz dados históricos sobre os mínimos detalhes da vida dos cidadão romanos. Com um pouco de paciência é possível descobrir coisas interessantes, como o fato de que as mulheres faziam o papel de médicas naquela época, enquanto os homens só posavam de doutores. Mas isso dependerá exclusivamente da curiosidade de cada jogador, pois o jogo não usa nenhuma dessas informações para incrementar a jogabilidade.

Simulador de impérios

Mas o que interessa em CivCity é o modo de progressão das cidades, que apresenta coisas que não são vistas rotineiramente: todas as construções estão interligadas, através de uma cadeia de oferta e demanda, e a ordem de prioridade das construções é muito coerente e quase intuitiva.

Qualquer cidade começa com o town center, que será o lugar de chegada dos imigrantes, que mais tarde serão os cidadãos e trabalhadores de sua cidade. A primeira coisa a ser providenciada é trabalho, para que não fiquem desocupados (eles ficam sentados do lado de fora do town center, reclamando sobre os romanos, sua cidade ou a falta do que fazer). Assim, você inicia escolhendo a construção de edifícios que privilegiem as ocupações mais necessárias à cidade que quer desenvolver.

Em missões militares, por exemplo, é bastante comum estabelecer a mina de ferro logo depois do town center (para possibilitar a produção de armas). O próximo passo são as casas para os trabalhadores. Se você não construir casas, os cidadãos dormirão no local de trabalho, e você pode realmente vê-los terminando o seu turno de trabalho e escolhendo um canto para deitar e descansar. Após a construção das casas, é necessário providenciar água, comida, roupas, etc. Tudo através de uma cadeia de produção que envolve a transformação de matéria-prima no produto final.

E em CivCity tudo acontece sob o seu olhar, pois os recursos não entram magicamente em umas das pontas, saindo o produto final na outra. A cadeia da comida, por exemplo, exige em primeiro lugar a criação de animais em um pequeno pasto. Você vê cada animal sendo abatido, com o cidadão pendurando a carne na parte exterior de uma pequena banca. A seguir, o açougueiro sai de sua loja, pega o animal sem pele e leva até seu açougue, fazendo os cortes de carne. Por fim, os cidadãos saem de suas casas e compram a carne no comércio. Voltam para suas casas e penduram a carne na despensa. Depois, saem para o trabalho, descansam, vão à igreja, à taverna ou qualquer outra atividade que julguem necessária. E todas estas ações podem ser acompanhadas em tempo real, bastando seguir cada cidadão com o zoom máximo. O nível impressionante no detalhamento das ações acontece para todos os cidadão e atividades de sua cidade, sendo que você pode até mesmo encontrar cidadãos se exercitando nas vigas de sua casa, em seu tempo livre.

Os upgrades e progressão da cidade rumo a um império acontecem através do aumento das necessidades dos cidadãos. Assim que as necessidades básicas são satisfeitas (água, comida, trabalho) eles rapidamente passam a precisar de outras coisas, como religião, roupas e óleo de oliva. A sua cidade realmente se torna um império quando eles começam a adquirir bens complexos ou supérfluos, como gansos para jantares refinados ou escravos para desenvolver as atividades de trabalho. Assim, as casas tornam-se mais bonitas e maiores simplesmente porque os seus moradores precisam de mais espaço para colocar seu bens (como camas, que são compradas dos carpinteiros).

É um modo inusitado de progressão, e parece muito mais coerente que grande parte dos jogos de estratégia onde tudo acontece de forma automática. Fico imaginando como se aplicaria esse tipo de mecânica em jogos como SimCity 4, por exemplo, que dependem de forma crucial do gerenciamento de questões básicas dos cidadão, como tempo gasto até o trabalho, ou acesso à escolas, bibliotecas, etc... e é nesse ponto que CivCity experimenta e implemente com sucesso mudanças importantes nas formas de jogar os jogos de estratégia e gerenciamento.

Dentro do padrão

CivCit: Rome não apresenta problemas de controle, sendo bastante fluido e fácil de jogar. O processo de criação das cidades é simples, e muito similar ao que pode ser encontrado em outros jogos do gênero. Isso é muito importante, pois o tutorial do jogo deixa muito a desejar, sendo basicamente composto de caixas de texto com informações sobre como fazer as coisas em CivCity. Aparentemente os desenvolvedores assumiram que qualquer jogador já possui as habilidades necessárias a um jogo de estratégia, e decidiram não criar um tutorial detalhado, com passo-a-passo dos comandos, como é mais comum.

Jogadores acostumados ao gênero não devem sentir dificuldade no aprendizado de CivCity, bastando apenas algum esforço para entender as funções específicas das unidades e construções. Os menus são um pouco pobres em função, mas possuem acesso e entendimento simples, com poucos sub-menus e que não precisam ser acessados com frequência.

Algumas questões de controle aparecem apenas quando a cidade torna-se muito densa, sendo que alguns edifícios escondem alguns pontos da cidade, exigindo o giro da câmera e alguma perda de tempo até a seleção da unidade desejada.

Existem também alguns problemas no manejo de unidades militares, principalmente na defesa da cidade, quando invadida por tropas inimigas. Mas como o foco do jogo não são as batalhas, isso é facilmente resolvido simplesmente pelo ataque antecipado a qualquer inimigo que esteja por perto.

Feio e leve

O ponto fraco de CivCity recai sobre a parte gráfica. Tudo, desde os vídeos até os menus, lembram jogos de 5 anos atrás. Os vídeos são pequenos, mal-feitos e centralizados na tela. Sua qualidade é horrível, mesmo com todas as opções gráficas no máximo. Os menus carecem de maior refinamento apresentando botões e figuras desproporcionais. A atmosfera dos cenários é genérica, sem nenhum toque de criatividade. É possível supor que os desenvolvedores procuraram criar um ambiente rústico, mais autêntico, para enfatizar as características de simulação do jogo. Mas beleza e realismo não são coisas incompatíveis, como mostram as várias versões de The Sims.

Entretanto, é importante citar que os modelos 3D utilizados nas cidades são realtivamente bem-detalhados, o que é um ponto bastante positivo considerando-se a mecânica de jogo. Mas não é suficiente para apagar a impressão geral de pobreza visual, principalmente frente aos padrões estabelecidos por outros jogos de estratégia, como Lord of the Rings: Battle for Middle-earth.

A grande vantagem dos péssimos gráficos é que o jogo roda facilmente em máquinas não tão poderosas. Mesmo com todas as opções de qualidade no máximo, não houve nenhum tipo de prejuízo no desempenho do jogo.

Vozes e efeitos

As parte sonora é importante em CivCity: Rome, por fazer tudo aquilo que os gráficos não fazem. As vozes são bastante adequadas aos personagens, e cada cidadão tem algo a dizer sobre a sua gestão e sobre a cidade, contribuindo para a experiência de jogo.

As músicas lembram muito o clima épico de filmes antigos sobre o Império Romano, e se ajustam bem à impressão que o jogo quer passar. Eventualmente você ouvirá personagens históricos como Cleópatra, fazendo ameças ao seu Império. É uma forma curiosa de avisá-lo que uma invasão deve acontecer em breve.

CivCity: Rome deve se juntar à vários outros jogos que são rapidamente esquecidos, devido à sua baixa qualidade como um todo. Mas fãs de jogos de estratégia devem dar uma olhada no título, a fim de entender os novos rumos que o gênero pode tomar. Felizmente a jogabilidade se destaca da qualidade geral do jogo, fazendo de CivCity um jogo interessante, caso você consiga ignorar seus defeitos.

78 pc
Bom