Ação ininterrupta e um clima sinistro marcam o novo jogo de Clive Barker.

Analisando a indústria dos games nos últimos 15 anos, é fácil perceber o quanto o mercado cresceu. Cada dia mais dinheiro parece ser investido no desenvolvimento dos games, na criação de novos conceitos e até na publicidade. O resultado são jogos dignos de oscar — mega-produções com gráficos de última geração, conceitos artísticos criados por especialistas na área e enredos escritos por grandes diretores de filmes ou escritores.

Um ótimo exemplo de tal evolução são as diversas séries de espionagem criadas pelo famoso escritor norte-americano Tom Clancy ou os enredos de jogos recheados de mistério feitos pelo escritor inglês Cliver Barker.

Nesta lista de inúmeras produções de impacto dignas de cinema está Jericho, o mais novo jogo de terror de Clive Barker. Contando com um enredo intrigante recheado com muito sangue e criaturas de arrepiar, o título apresenta uma jogabilidade única baseada no trabalho em equipe. Ao longo do game, o jogador passa pelos locais mais perturbantes e aterrorizantes e deve utilizar as competências e habilidades de cada um dos membros de uma equipe de super-soldados para resolver quebra-cabeças e sobreviver.

O primogênito divino

Antes de Adão e Eva, Deus tentou criar um ser à sua imagem. No entanto, a criatura, nem iluminada, nem sombria, de sexo indefinido, bela e terrível ao mesmo tempo, perturbou a Deus e foi banida e esquecida em um abismo profundo. Deus, então, criou os homens, balanceando melhor suas falhas e atributos e presentenando-os com o amor; presente do qual a primeira criatura não era dotada.

A primeira criação divina (conhecida como Firstborn no jogo), então, apenas esperou, enquanto seu poder crescia cada dia mais. Quando Firstborn finalmente conseguiu poder suficiente para sair de seu exílio, sete padres sumérios foram encarregados de contê-lo e enviá-lo de volta às profundezas do inferno, selando o local por onde ele escapou através da construção de um templo. Desde então, sempre houveram ordens secretas para treinar sete guerreiros para uma possível volta da primeira criação divina.

Ao longo da história, a criatura tentou escapar sete vezes pela cidade de Al Khalid, levando consigo uma parte do mundo real a cada tentativa. Em conseqüência, nas ruínas de Al Khalid acabaram sendo formadas camadas que refletem as diferentes épocas nas quais o monstro tentou fugir, da Civilização Mesopotâmica à Segunda Guerra Mundial.

Já em idade contemporânea, o Firstborn tenta escapar novamente e um grupo de soldados dotados de habilidades especiais e poderes sobrenaturais é incumbido de impedí-lo. O grupo é nomeado Jericho e integra sete membros: Capitão Devin Ross, o líder do esquadrão e protagonista do jogo, cuja habilidade especial é a da cura; Capitão Xavier Jones, especializado na projeção astral; Tenente Abigail Black, uma franco atiradora dotada de poderes telecinéticos; Sargento Frank Delgado, um soldado de origem latina capaz de invocar um espírito de fogo; Sargento Wilhelmina “Billie” Church, uma guerreira treinada na arte do ninjitsu e capaz de invocar poderes através de seu sangue; Cabo Simone Cole, uma hacker capaz de realizar modificações no espaço e tempo através da matemática; e enfim Padre Paul Rawlings, um veterano especializado no poder da cura.

A princípio, o grupo não tem conhecimento de sua verdadeira missão, no entanto, logo no início da aventura, o grupo se dá conta de que ela será muito mais difícil que qualquer um deles poderia imaginar. Para tornar a situação ainda mais desesperadora, o Capitão Ross é mortalmente atingido por um demônio e acaba morrendo. De alguma forma, no entanto, sua alma continua viva dentro do corpo de seus companheiros de equipe, ou seja, o líder da equipe Jericho passa a ter a habilidade de assumir o corpo de qualquer um dos outros membros da equipe.

Como um jogo idealizado pelo próprio Clive Barker, é natural que Jericho tenha o enredo como um dos aspectos de maior destaque do jogo. Mas mesmo embora o autor seja especializado no terror, a história de Jericho não marca pela sensação de medo que passa, mas por toda a intriga que a rodeia. Apesar de tudo soar confuso no começo, o jogador que optar por prestar atenção e ligar os fatos vai se deparar com um enredo bastante peculiar e misterioso.

Uma cachoeira de sangue

Ainda que o enredo ganhe certo destaque em Jericho, os aspectos da história influenciam diretamente na jogabilidade, criando ambientes sombrios e lavados com sangue, inimigos horrendos e uma série de possibilidades e quebra-cabeças que exigem toda a variedade de poderes de sua equipe. Após a morte do protagonista Capitão Ross, a fórmula do jogo finalmente é finalmente revelada e tudo se torna mais interessante; à partir deste trexo, é possível controlar os outros membros da equipe, aumentando significativamente o leque de armas e poderes que podem ser utilizados.

Cada membro da equipe possui uma habilidade específica que pode ser muito útil em batalha ou na resolução de determinado problema. Ao encontrar um portão gigante fechado é possível incorporar o Capitão Jones e utilizar suas habilidades de projeção astral para puxar uma alavanca do outro lado do portão, por exemplo, ou o Sargento Delgado pode invocar o espírito do fogo para protegê-lo caso haja a necessidade de se caminhar sobre fogo para abrir determinada porta.

Em batalha, contudo, a maior parte dos poderes não têm tanta utilidade quanto as armas. Cada soldado possui duas armas (em alguns casos ambas estão acopladas na mesma arma), concedendo uma variedade muito boa de armas ao jogador. Alternando entre os personagens, você tem ao seu dispor rifles automáticos, escopetas, rifles de precisão, lança mísseis, sub-metralhadoras e até uma mini-gun, oferecendo uma artilharia de peso para todo tipo de situação. Felizmente a munição não é escassa, afinal, a Cabo Cole consegue manipular o tempo e o espaço, “rebobinando” o tempo do cinto de munição de cada um dos personagens a fim de devolvê-los o que lá havia há algum tempo.

Além de possuir armas e poderes especiais diferentes, cada um dos personagens tem ainda atributos e características próprias que os diferenciam. Church, por exemplo, é a mais rápida e silenciosa do grupo, sendo a mais indicada para tomar a frente quando a missão é sorrateira — a guerreira ainda carrega uma poderosa espada, que acaba com os inimigos de forma silenciosa e brutal. Delgado, por sua vez, é o bruta montes da equipe, capaz de abrir portões de ferro muito pesados utilizando apenas uma mão.

A interação com o cenário é um ponto fundamental em Jericho. Não raramente ocorrem eventos que pedem seqüências de comandos de contexto à la God of War, como quando um dos personagens é atacado de surpresa por um monstro ou um dos membros da equipe escala uma extensa parede de pedras. Embora a adição seja interessante e pouco usual em jogos do gênero, tais seqüências parecem um pouco artificiais em um jogo cuja perspectiva é em primeira pessoa, tirando um pouco da pessoalidade característica no gênero.

Felizmente o mesmo não pode ser dito da ação em Jericho. Os tiroteios são intensos e, mesmo embora não haja uma variedade muito significativa de inimigos, a ação é incessante e está presente na maior parte do jogo. No entanto, nem sempre os cenários são bem construídos para sustentar tão intensa ação; em determinados casos, os corredores são muito estreitos ou as salas parecem simplesmente não terem sido desenvolvidas de acordo com a proposta do jogo.

Como em qualquer outro jogo com ênfase na ação, não é raro morrer em Jericho. A diferença, no entanto, fica por conta do fato de haver mais de um personagem a seu dispor em campo de batalha, ou seja, o jogo só acaba quando a equipe inteira morre. Se um de seus companheiros de equipe for fatalmente atingido durante a batalha, no entanto, é possível utilizar as habilidades de cura do Capitão Ross para devolvê-lo à vida; isto, porém, não descarta a possibilidade de que todos os membros da equipe morram, apenas incentiva o trabalho em equipe.

A união faz a força

Como um jogo baseado na ação e trabalho em equipe, os comandos de Jericho foram adequados de forma a primar por estes quesitos. Os botões superiores do controle são destinados ao uso das armas e magias, enquanto o direcional é utilizado para dar ordens ao grupo ou alternar entre seus membros — é possível ter acesso ao menu de escolha de personagem ao segurar o botão A.

A equipe Jericho é dividida em dois esquadrões: Alpha e Omega. É possível dar ordens específicas (basicamente para avançar, manter posição ou ir a determinado local) a uma das equipes ou a ambas simultaneamente através do direcional. O sistema funciona adequadamente, entretanto, não cumpre um papel fundamental na experiência final, assim como a maioria das outras adições de potencial; o único aspecto realmente favorecido aqui é a ação.

A linearidade de Jericho e a pouca expressão dos elementos mais inovadores que compõe a sua fórmula acabam tornando o jogo cansativo em algum tempo. É verdade que a possibilidade de controlar todos os membros da equipe e utilizar diferentes poderes e armas de acordo com a situação e a vontade do jogador é um grande diferencial e ajuda a manter o jogo fresco por certo tempo, entretanto, é necessário mais do que cenários fascinantes e violência desmedida para renovar o apelo constante que o jogo faz no mesmo elemento.

O pior dos pesadelos

Em relação ao conceito artístico, pode-se esperar muito de um jogo de terror com um tema tão intrigante quanto o de Jericho, ainda mais quando este foi escrito e idealizado pelo autor Clive Barker, um especialista no assunto. Realmente, conceitualmente o game não decepciona em momento algum; os cenários são aterrorizantes e cobertos por sangue e corpos mutilados.

Grande parte dos elementos do palco no qual toda a matança acontece reflete pesadelos e pecados de cada época no qual este foi inspirado. A camada de Al Khalid da época da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, reflete os aspectos mais chocantes e violentos da guerra, com montes e montes de cadáveres sobre quais você é obrigado a caminhar para continuar.

Parte dos monstros que vagueam pelos cenários infernais de Jericho também foram modelados a partir de um conceito artístico interessante, embasados na temática e no enredo, no entanto, não são tão expressivos e chocantes quanto os cenários que os rodeam. Muitos das criaturas do jogo ainda são recicladas incessantemente, o que acaba cansando os jogadores mais exigentes.

A modelagem e animação dos personagens é muito boa, entretanto, alguns elementos do cenário se comportam de forma ridiculamente artificial; é o caso da água (ou sangue), que reage de forma nada natural aos tiros, por exemplo. As texturas dos mais diversos objetos do cenário são bastante variadas, no entanto, nem todas são de boa qualidade.

Os efeitos de luz e sombra, por sua vez, cumprem um papel fundamental para a criação do clima sombrio e intrigante de Jericho. Embora a maior parte dos cenários sejam escuros, os objetos ainda assim são visíveis e o efeito da lanterna é simulado de forma bastante realista.

Entre passos silenciosos e golpes violentos

Um filme de terror sem uma trilha e efeitos sonoros adequados pode perder toda a sua força; obviamente, Clive Barker sabe muito bem disso. Jericho, portanto, apresenta uma trilha sonora que alterna entre o calmo e o agitado, sempre passando uma sensação de tensão e mistério. Embora ainda assim o jogo não seja exatamente assustador, a trilha sonora influencia diretamente na construção do clima sinistro constante no game.

Além da trilha e efeitos sonoros, os diálogos cumprem um papel fundamental na ambientação do jogador e são decisivos na resolução de determinados quebra-cabeças no jogo. A interpretação dos atores é em geral muito boa, no entanto, algumas falas soam completamente fora de contexto.

Uma missão suicida

Não é novidade nenhuma que competir em um mercado saturado como o dos FPS (jogos de tiro em primeira pessoa) não é para qualquer um, afinal, muitos conceitos e temas já foram explorados — grande parte deles com sucesso. Ainda assim, Jericho apostou tudo em sua fórmula promissora e seu tema incomum, que tinham tudo para dar certo.

Entretanto, um mercado saturado e recheado de títulos de peso não aceita falhas; Jericho, por sua vez, está repleto delas. Frente a títulos de jogabilidade impecável, uma série de conteúdos diferentes e repleto de possibilidades, como Bioshock ou Crysis, Jericho perde completamente seu brilho, oferecendo uma experiência repetitiva e limitada.

Ainda assim, o título deve ser reconhecido pelos elementos de qualidade que incorpora; o conceito artístico do game é muito interessante, trazendo ambientes sinistros dignos do pior dos pesadelos, enquanto o enredo é intrigante e complexo. Aos entusiastas de jogos de tiro em primeira pessoa que primam pela ação sem cessar ou fãs de filmes de terror (especialmente aqueles escritos por Clive Barker) Jericho pode ser uma excelente pedida.

72 xbox-360
Bom