Os assassinos de Clock Tower 3 também são responsáveis por um jogo assustador.

Quem nunca levou um belo de um susto jogando videogame? O gênero survival horror, juntamente com outros títulos focados no terror, é responsável pela maioria dos pulos evidenciados pelos jogadores. Resident Evil e Silent Hill são apenas alguns dos exemplos dos diversos games assustadores disponíveis no mercado.

Entretanto, o gênero surgiu muito antes do sucesso de jogos como os citados anteriormente. Alone in the Dark é conhecido como o fundador do survival horror, trazendo muitas surpresas pra lá de assustadoras que cativaram muitos jogadores ao redor do globo. Em 1995, a Human Interactive resolveu adotar uma estratégia similar, e lançou um das franquias mais aterrorizantes do entretenimento eletrônico.

Clock Tower, disponível inicialmente no Super Nintendo e com versões para PlayStation, WonderSwan e Windows 95, colocava o jogador na pele de Jennifer, uma delicada e frágil garota com 14 anos. Diversos acontecimentos geram uma série de mortes assustadoras, a maioria sob responsabilidade de um misterioso assassino que utiliza uma gigantesca tesoura como arma.

O serial killer, que é, na verdade, um garoto de 9 anos que possui uma face deformada, logo se tornou marca registrada da série, que obteve uma recepção medíocre do público. A versão de 1996 para PlayStation apresentava gráficos tridimensionais, usufruindo habilmente dos recursos oferecidos pelo console. A jogabilidade era a famosa “point and click”, na qual o jogador utiliza um cursor para controlar os movimentos do protagonista — algo que gerou certo desgosto aos jogadores.

Contudo, o título alcançou um status quase que inigualável devido à sensação de fragilidade provida ao jogador. Ao contrário dos outros títulos do gênero, Clock Tower não oferecia, na maioria das vezes, armas para combater os inimigos. Tudo que o jogador tinha de fazer para evitar o homicídio era correr e se esconder do assassino.

O PlayStation 2 recebe um banho de sangue

Prepare-se para encarar novamente o terror de Clock Tower 3.Uma continuação, intitulada Clock Tower 2, obteve ainda menos sucesso nas críticas e a marca característica da franquia, o assassino da tesoura (Scissorman), não deu as caras para assustar os jogadores. Felizmente, em 2003 um novo título chegava às prateleiras, desta vez no saudoso PlayStation 2. A responsável pela distribuição era ninguém menos que a Capcom, famosa pelo glorioso Street Fighter e também por Resident Evil.

Desta vez, Clock Tower conta com uma história fantástica, com direito a CGs dirigidas pelo aclamado diretor de cinema Kinji Fukasaku. Além disso, o jogo deixou de ser um “point and click” e migrou para um sistema de jogabilidade similar aos demais títulos do gênero. Mesmo sem o famoso Scissorman, Clock Tower 3 fornece momentos aterrorizantes e repletos de sustos.

A experiência cinematográfica do título é quase que inigualável, e acabam até mesmo sendo superiores aos momentos em jogo. Muitos jogadores irão se interessar em terminar o jogo pela resolução final da trama do que à simples diversão de jogá-lo. Logo no início, percebemos, através de uma bela CG, todo o potencial do contexto do título.

A essência de todo o mal

Em Clock Tower 3 você encarna Alyssa Hamilton, uma adolescente de 14 anos que se encontra longe de sua casa em um colégio interno. Alyssa recebe então uma carta desesperada de sua mãe clamando para que se esconda imediatamente para sua própria segurança e que evite a qualquer custo retornar para sua casa. Como qualquer adolescente faria, a garota retorna imediatamente à sua casa em busca de sua querida mãe.

Alyssa é tudo que aparenta ser...Ao chegar ao local, tudo que Alyssa encontra é uma casa aparentemente abandonada. Até que, subitamente, uma das portas se abre, liberando caminho para uma das salas da gigantesca mansão. A garota se assusta, e caminha até a sala, novamente desobedecendo a sua mãe e arriscando sua própria vida. Um misterioso homem de traje preto encontra-se estático observando janela afora. Após alguns diálogos entre os personagens, o sinistro senhor encaminha-se até o segundo da casa e a cena se encerra.

Neste momento você assume o controle da protagonista, que logo descobre estar envolvida em uma série de situações com espíritos e acontecimentos ocorridos em períodos alternativos na cidade de Londres. É interessante destacar que a história sempre sofre reviravoltas, fazendo com que o jogador mantenha-se focado na trama.

Almas conturbadas

O jogo é dividido em capítulos, e cada um deles, com exceção do primeiro, conta com um assassino em série brutal, o qual deverá ser derrotado pela protagonista. No segundo capítulo, por exemplo, o título coloca você em pleno período da Segunda Guerra Mundial, em que Alyssa tem de deter um insano homicida que carrega consigo uma gigantesca marreta.


Para dar um fim nestes nada amigáveis seres, é necessário realizar uma série de objetivos que consistem em ajudar as vítimas dos assassinos, adquirindo itens pessoais de valor sentimental e resolvendo alguns quebra-cabeças básicos. Um dos primeiros fantasmas do jogo só pode ser inibido com a aquisição de um medalhão, que deve ser adquirido e retornado ao seu devido dono. Após cumprir o objetivo determinado pelo capítulo, o jogador entra em um modo de combate no qual elimina de uma vez por todas o terrível espírito.

Nem todos descançam após a morte.

Nada de metralhadoras

Ao contrário da maioria dos títulos de survival horror, Clock Tower 3 não apresenta uma protagonista com um arsenal bom o suficiente para aniquilar seus oponentes. Alyssa não terá a chance de utilizar uma espingarda e explodir os miolos de qualquer engraçadinho que ofereça perigo à garota. Ao invés disso, tudo que a protagonista tem de fazer para se livrar dos inimigos é correr e se esconder.


Isso é um dos fatores mais atraentes do título, pois a sensação de fragilidade é praticamente única e agrada até mesmo os mais durões. Contudo, você não encontrará cachorros mortos-vivos ou zumbis. Os inimigos de Clock Tower 3 resumem-se a fantasmas inquietos e, obviamente, perigosíssimos assassinos em série, os quais se tornam os únicos inimigos tangíveis do jogo.

Para escapar dos insanos homicidas, Alyssa terá de encontrar locais para se esconder ou utilizar recursos do ambiente que podem ocasionar vantagens ou até mesmo um breve nocaute no inimigo, facilitando assim a fuga da garota. Você também conta com uma jarra cheia de água benta, que pode ser despejada em fantasmas e assassinos, derrubando-os temporariamente. Tal recurso é limitado, e para reabastecê-lo é necessário encontrar fontes específicas que estão espalhadas pelo jogo.

Fugindo das câmeras e dos fantasmas

Fuja para sobreviver!Muitas vezes, a câmera não colabora com a fuga de Alyssa. Sim, nos livramos do terrível sistema “point and click” e agora o jogo conta com personagens modelados em 3D sob a perspectiva de câmeras, na maioria das vezes, estáticas. Existem também momentos em que a câmera segue o personagem de forma dinâmica. Entretanto, o sistema apresenta alguns problemas clássicos de jogos de survival horror.

Por ser uma perspectiva praticamente estacionária, dirigir Alyssa de sala a sala pode ocasionar dificuldades, pois seu senso de Norte e Sul é alterado. Ao pressionar para cima em uma seção, a protagonista se move para o topo da tela, já a próxima área irá reverter os comandos conforme a perspectiva se altera. Fãs de Resident Evil não terão muitos problemas, mas jogadores casuais, e até mesmo os veteranos, poderão sofrer em momentos apressados de navegação em pequenos locais.

Felizmente, a personagem conta com uma habilidade extremamente útil e incomum na maioria dos jogos do gênero. Alyssa pode se agaichar e engatinhar algo que facilita, e muito, alguns momentos que aparentemente não terão um final feliz. A protagonista pode se esconder atrás de uma tábua, por exemplo, utilizando a habilidade e despistar quem a persegue por alguns momentos.

Contudo, a extinção dos fantasmas é realizada apenas quando o jogador obtém determinados itens, enquanto os serial killers só podem ser eliminados depois que o jogador lidar com as almas insatisfeitas.

Cuidado para não entrar em pânico!

Outro aspecto interessante no jogo é a ausência de um medidor de energia. Ao invés de contar com a popular barra de saúde, Alyssa possui um interessante medidor de pânico. Quando a protagonista se sente fisicamente ou emocionalmente ameaçada, a barra começa a ser preenchida gradualmente. As ameaças surgem por toda parte. Quando um inimigo simplesmente desfere um golpe, a barra já se altera, mesmo sem acertar a protagonista. Caso a barra se complete, Alyssa entra em estado de pânico e aí a situação torna-se complicada.

Calma aí, amigão!

Em situações de pânico, os movimentos da personagem ficam restritos. Muitas vezes, a garota tropeça e chega até permanecer estática por estar apavorada no estado em que se encontra. Além disso, a imagem fica turva, com diversos efeitos especiais, e a jogabilidade se torna ainda mais complexa. Caso o inimigo atinja Alyssa em estado de pânico, o golpe será fatal e o jogador receberá um belo “Game Over”. Para se acalmar é necessário esconder-se em locais seguros ou utilizar determinados itens, como a água de lavanda.

Na maioria dos momentos, a jogabilidade é agradável. Contudo, existem partes em que a frustração toma conta do título. Em diversas perseguições, o jogador tem dificuldades em encontrar lugares para se esconder, algo que pode deixá-lo irritado. Além disso, a inteligência artificial também apresenta algumas falhas notáveis. Mesmo com assassinos em seu pé, é possível esconder-se tranquilamente e fazer com que os inimigos, surpreendentemente, ajam como se não soubesse onde você está. Tal fato pode soar engraçado, mas caso não existisse a frustração poderia ser ainda maior.

Um tiro no próprio pé...

Outra decepção ocorre nos momentos de luta contra chefes. Nelas, todo o clima aterrorizante consegue ser destroçado por uma espécie de conflito mágico, algo que se assemelha bastante aos games de RPG como Final Fantasy. Seu jarro de água benta se transformará em um fabuloso arco e flecha, e a barra de pânico se transmuta para um convencional medidor de energia. Mas, tudo fica ainda pior.


Uma verdadeira viagem dos produtores...Para derrotar qualquer um dos assassinos enfrentados, você terá disparar flechas carregadas de magia em seu inimigo. A personagem se torna estática enquanto satura seus projéteis e não é possível nem mirar para atingir o monstrengo, o que torna Alyssa totalmente vulnerável a ataques. Com toda certeza, este é um dos pontos mais decepcionantes do título.

Detalhes dignos do cinema

Compensando toda a frustração, temos uma atmosfera pesada e sombria, que se encaixa perfeitamente no jogo. Os locais, como as ruas de Londres em 1940, por exemplo, apresentam detalhes incríveis e um visual autêntico. Além disso, existem diversos recursos que fornecem um toque extra no título, como garrafas, latas e outros objetos espalhados pelo chão que podem interagir com o jogador.


A modelagem dos poucos personagens existentes no jogo também é agradável, assim como suas animações. Vale mencionar que as CGs podem ser classificadas entre as melhores do mundo do entretenimento eletrônico, não pelos gráficos, mas pela excelente direção das cenas. Nota-se claramente o toque de um diretor veterano dos cinemas, pois as animações soam tão naturais quanto em filmes. Este foi o último trabalho de Fukasaku, que faleceu após concluir seu trabalho em Clock Tower 3.

Assassino fortemente inspirado em Kratos.Outro fator extremamente marcante no título é a intensidade da violência. Nada é censurado, e muitas cenas fornecem sangue a granel e podem até ser chocantes para o espectador. Sem dúvidas, a violência é uma das características mais notáveis do título, e aparece de diversas maneiras. Assassinos estourando explicitamente o crânio de garotinhas ou afundando mulheres cegas em recipientes com ácido são apenas alguns dos exemplos que justificam a classificação etária do jogo.

Assassinos que deixarão saudades

Felizmente, tudo isso é acompanhado por uma das mais belas trilhas sonoras dos videogames, contendo órgãos, pianos executando composições de lendários artistas, como Chopin. Algumas delas são compostas pelo renomado Kouji Kubo, e encaixam-se perfeitamente ao clima do jogo.


Em suma, Clock Tower 3 é um jogo assustador, com pequenos pontos negativos que não chegam a denegrir seu status. Fãs do gênero devem experimentar viver na pele de Alyssa e enfrentar os diversos assassinos que compõem o título. É interessante jogar um jogo no qual seu personagem basicamente não pode atacar os inimigos, mas usufruir somente de sua inteligência.

A sensação de estar sendo perseguido deixa o jogador extremamente aflito e, conseqüentemente, diverte bastante com alguns sustos inesperados. Infelizmente, o game é relativamente curto, exigindo cerca de 6 horas para ser concluído. Caso seja aficionado com jogos do gênero, não hesite em experimentar um dos melhores títulos de uma das franquias mais assustadoras de todos os tempos!

Melodias que ecoarão por muito tempo em nossos ouvidos.
82 ps2
Ótimo