Estive encantado por Cuphead desde o começo. Não por ser um cara puritano que gosta de algumas coisas à moda antiga, no estilo tradicionalista, principalmente no que diz respeito ao entretenimento. E não pelo fato de ser um jogo de plataforma em side-scrolling, um dos meus gêneros favoritos e o qual, vez ou outra, tem algum lampejo, como foi o caso de Ori and the Blind Forest, mais um dos meus xodós. 

O que cativou a todos em Cuphead, e a mim também, foi seu estilo visual único, inspirado nos cartoons dos anos 30, cuja memória mais realçada nos traz Mickey, o mascote da Disney, no inesquecível “Steamboat Willie”, obra-prima que nasceu em 1928 e se tornou atemporal. 

Com o advento de novas tecnologias e a evolução natural das animações, esse estilo tão peculiar parou no tempo – mas jamais morreu ou caiu no esquecimento. Cuphead fez questão de ressuscitar tal arte, e essa ambição, por si só, vinda de um estúdio independente com o aval da Microsoft, é honesta o suficiente. Especialmente em tempos de mundo aberto e tripas esvoaçantes. Mas não é só isso que faz Cuphead brilhar.

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Uso inteligente do side-scrolling 

Por que Cuphead demorou tanto para chegar, muitos se perguntam? O título foi adiado mais de uma vez pela Studio MDHR, novata no mercado. E há explicações racionais que justifiquem o atraso. Primeiro: trata-se do primeiro jogo da desenvolvedora, fundada pelos irmãos Chad e Jared Moldenhauer. Segundo: a equipe é pequena, são 14 pessoas trabalhando juntas ao todo. Número suficiente para preencher uma sala de porte médio, por exemplo. 

E terceiro: a programação e a ilustração de um produto tão peculiar acarretam desafios inesperados. A ambição tem um preço e foi bem paga. Cuphead faz uso inteligente do gênero ao qual pertence e soube ser humilde o bastante para escutar o feedback dos jogadores quando estes indagaram: “Poxa, mas só há bosses no jogo?”. 

A cada boss derrotado, você se sente incrível, o maioral, o habilidoso, o jogador dotado de boas capacidades. O detalhe? A dificuldade é o maior trunfo de Cuphead 

Não, não há somente chefões no game. Não mais. Originalmente, essa era a proposta. A equipe escutou abertamente o que todos disseram, voltou à mesa de rascunhos e desenhou fases completas, ao estilo “Run & Gun”, isto é, “corra e atire”, literalmente, com direito a moedas para serem coletadas e hordas de inimigos a serem esmagados. 

Cada fase faz uso inteligente das suas habilidades. Há estágios em que você fica de ponta-cabeça, salta por plataformas enquanto desvia de rajadas de ketchup e mostardas vindas de um cachorro-quente descontrolado, voa por céus escaldantes enquanto enfrenta uma sereia que se transforma em medusa, usa elevadores lotados de homens de barro, foge de um gigante enquanto desvia de caveiras de fogo e por aí vai. 

Cada apresentação é exclusiva, não há um inimigo sequer que se repita em fases diferentes. Os estágios duram três minutos no máximo – cálculo que se baseia, naturalmente, em suas skills para lidar com o jogo.

Onde os fracos não têm vez

Parafraseando o título do filme dirigido pelos irmãos Coen, Cuphead não é um jogo para qualquer um. Ainda assim, ele se esforça para entregar uma obra que atraia gregos e troianos, casuais e viciados, hardcore e intermediários. E, nesse sentido, consegue ser convidativo, principalmente por causa do apelo visual. 

Curioso notar que Metal Slug também tem um charme cartunesco nas animações e no ritmo. Não tão acelerado quanto um Gunstar Heroes ou um Contra, dois de meus títulos prediletos da era noventista, Cuphead encontra ritmo próprio, mais ou menos na velocidade de Metal Slug e Ninja Gaiden, dentro daquilo que é insano e propenso a conquistar todo o amor dos masoquistas de plantão. 

Os chefões são prova disso. Transmitem o mesmo sentimento de realização pessoal que um Dark Souls: a cada boss derrotado, você se sente incrível. O maioral, o habilidoso, o jogador dotado de boas capacidades. E sabe qual o detalhe? A dificuldade é o maior trunfo de Cuphead.

Cada vez que você ouve e lê o “Knockout!” na tela, que é o indicativo de que o chefe foi derrotado, a endorfina é liberada e se espalha por todas as veias do seu corpo, da cabeça aos pés, arrepiando a espinha e empurrando para fora o grito de vitória que estava estufado no peito, pronto para ser desperto. Essa sensação deliciosa, meus irmãos e minhas irmãs, só quem é fã de Dark Souls conhece. E Cuphead proporciona isso. 

Se você morrer, em qualquer ponto da fase ou da batalha contra o boss, adeus. Comece novamente – seu “bonfire” é no início de cada estágio, sempre do zero 

Não há checkpoint. Não existe regeneração de vida. Não há itens de cura ao longo de nenhuma fase. Tampouco existe qualquer refresco nos chefes. Se você morrer, em qualquer ponto do estágio ou da batalha contra o boss, adeus. Comece novamente – seu “bonfire” é no início de cada estágio, sempre do zero. Superar esses obstáculos destila prazer no cérebro e no corpo. 

É o mesmo sabor psicológico que se tem quando ao comer chocolate, frituras e afins. Ou ao fazer academia. Por isso que os “marombas” frequentam assiduamente os locais que têm ferro a ser puxado. Também é a mesma sensação, dizem os cientistas, de quando fazemos sexo. Claro que cada prazer tem sua proporcionalidade, mas Cuphead tem esses momentos em que você simplesmente se sente incrível.

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Chefões inesquecíveis

Eu já descrevi, nos parágrafos anteriores, o sentimento que os bosses transmitem, mas preciso ressaltar: é aqui que Cuphead brilha. Mesmo que a equipe não tivesse inserido as fases corridas, dificilmente o jogo perderia a luz que tem se ficasse só com os chefes. 

As animações de cada um mostram um complexo trabalho de engenharia: sabemos que transformações de chefões, se não forem criadas com o máximo grau de esmero, podem ser boçais. Em Cuphead, no entanto, elas são geniais. Cada boss tem, em média, três formas diferentes, que são assumidas em momentos oportunos. 

À medida que você progride pelo mundo, a dificuldade aumenta. Mas a curva de aprendizado não é tão punitiva como muitos pregam por aí não: com paciência e perseverança, você aprende e coreografa os ataques de seus oponentes, sabendo como lidar com eles em seguida. Basta se embeber da filosofia Dark Souls que não tem erro – e esse pensamento é muito mais antigo que a franquia da From Software, na verdade.

Terminei o jogo um dia antes de escrever esta análise, num domingo, em cerca de 8 a 10 horas, segundo o tempo computado pela Xbox Live, e com direito a enfrentar o capiroto, que faz um acordo escuso com os irmãos protagonistas. Não achei que foi o mais difícil – mas, sem dúvida alguma, o mais inesquecível. Aliás, o penúltimo boss, King Dice, me remeteu, por um breve momento, ao final de Banjo-Kazooie, quando você deve atravessar um tabuleiro jogando a sorte, podendo se dar bem ou mal a cada passo.

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E o coop online?

Apesar de muito bem temperado, Cuphead, por enquanto, carece de um ingrediente: modo cooperativo online. A modalidade local funciona sem erros, mas faltou aquela opção de fazer isso sem a necessidade presencial. 

E o suporte a outros idiomas, inclusive português brasileiro? 

Também ficou faltando no lançamento, mas a Studio MDHR, em postagem no seu blog, garantiu que a enxuta equipe de 14 pessoas está trabalhando a todo vapor para cuidar de todas essas situações. 

Portanto, os textos em português brasileiro chegam futuramente por meio de patch – e acredite, há mais diálogos do que você imagina. Estando em nosso idioma, esses textos tornam o produto ainda mais acessível a todas as camadas de jogadores. Como a desenvolvedora está atenta e aberta ao feedback, o coop online também deve ser uma questão de tempo.

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Power-ups, mundo de jogo e uma trilha sonora de chorar

As moedas não são coletadas apenas nos estágios em que você deve correr e atirar. Algumas delas estão escondidas no mundo de jogo, e isso faz com que exista sentido em haver um lugar minimamente explorável para você curtir – e a perspectiva isométrica foi a melhor escolha possível para isso, embora a locomoção pelas ilhotas seja lenta. 

Esses itens dourados são seu dinheiro para comprar power-ups de um porcão; com eles você tem variantes em seus disparos, melhorias para a esquiva, otimização do especial e mais. E sim, é possível dar uma “bazucada” de milk-shake em seus oponentes com o especial acumulado! 

É legal conversar com objetos e animais – garfos, caixas, tartarugas, rádios – e escutar seus dramas pessoais. Alguns pedem ajuda, como é o caso de um trio de músicos que, na verdade, são um quarteto. O quarto membro está sumido em algum lugar do mundo. E esse assunto é tão divertido que farei uma breve dissertação só para ele adiante.

Você sabe o que é um Barbershop Quartet?

Antes de prosseguir com a análise, preciso discorrer sobre uma curiosidade cultural rapidamente, a qual, na verdade, faz parte do review. Esse quarteto de músicos de Cuphead nada mais é do que um “Barbershop Quartet”, gênero musical em que quatro pessoas, geralmente homens, conduzem as músicas sem qualquer instrumento, apenas com as vozes. 

Consiste em um cantor principal, que carrega a melodia em tom maior; um vocalista de voz grave, que conduz a linha de baixo da canção; um tenor, responsável pela harmonia entre essas partes; e um barítono, que completa a nota não cantada pelo principal, o grave ou o tenor. 

A trilha sonora de Cuphead, regada ao melhor jazz que ‘Tom & Jerry’ já concebeu nos desenhos, é uma das melhores características do jogo 

Em BioShock Infinite há um tributo a “The Beach Boys” com a música “God Only Knows”, logo no começo do jogo, num barco flutuante. Quem jogou certamente terá essa memória despertada no instante em que ler este texto. 

É exatamente um “Barbershop Quartet” que você escuta em Cuphead quando encontra o quarto membro escondido em algum arbusto. É lindo de se ouvir. Procure por essas duas palavras no Spotify que você vai encontrar muita coisa. Dentro disso, a trilha sonora de Cuphead, regada ao melhor jazz que “Tom & Jerry” já concebeu nos desenhos, é uma das melhores características do jogo. Jazz e cartoon parecem ter uma química inexplicável, na verdade.

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Um dos melhores exclusivos da Microsoft

Eu já escrevi tanto nesta análise que preciso começar a costurar os pontos. Fiquei tão empolgado com Cuphead que meu fluxo de pensamento foi maior do que minha capacidade de concisão. À luz disso, vos peço perdão. 

Há ainda uma última sacada que preciso descrever melhor sobre o jogo: o parry. Ao pressionar A quando pula, você pode rebater qualquer item rosa na tela, e isso acumula o seu disparo especial. Aplicar a técnica no calor do combate, com milhares de projéteis em sua direção, fará seus reflexos estarem em dia – vai desenferrujá-los completamente. Se você tiver os culhões, um modo Expert é liberado quando você termina o jogo.

As ressalvas ficam por conta da ausência de um modo online para o coop e da locomoção pelo mundo de jogo. Se você está na terceira ilhota e quer regressar à primeira para tentar pontuação melhor num boss, deve caminhar a passos lentos – sem viagem rápida nem mesmo um comando para acelerar a caminhada.

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Por mais que o coop online possa chegar futuramente por meio da atualização, o game, tal como está, permite apenas a jogatina local. E também espero pelo patch que trará o nosso idioma aos textos – isso será de grande valia, mas não necessariamente entra na avaliação. 

Por tudo que fomentou nos últimos anos, pela importância que representa para os donos de plataformas da Microsoft e, sobretudo, pela ousadia de assumir um estilo único ao qual muitos poderiam torcer o nariz, Cuphead é um daqueles encantos que raramente aparecem por aí. Uma relíquia que, certamente, servirá de inspiração para muitos jogos daqui para frente, principalmente no que diz respeito à estética e à objetividade de sua proposta, completamente arcade, sem firulas, em que uma sentada pode render bastante.

O desafio, apontado por muitos como frustrante, é, na verdade, o grande trunfo do game. Cuphead sabe ser generoso na curva de aprendizado. E não há nada melhor do que a sensação de se sentir incrível a cada desafio superado.