Piedade é para os fracos. Em Grant City o que vale é a brutalidade

O primeiro jogo da série Dead to Rights foi muito bem recebido no GameCube graças à combinação certa entre ação e vingança policial, com muitos recursos para entreter os jogadores. Três anos depois tivemos a continuação. O resultado foi realmente desastroso, o que impediu a desenvolvedora de continuar com um “Dead to Rights 3” propriamente dito.

Ao invés disso a Namco recorreu ao apoio da Volatile Games — responsável pela criação de jogos como Reservoir Dogs — para tentar recriar a aventura do primeiro jogo, adaptada às novas tecnologias gráficas e com um toque extra de violência.

A trama recebeu algumas modificações, a cidade passou a respirar ares mais pesados, mas tudo ainda gira em torno das gangues agindo em prol da deterioração de Grunt City. O protagonista Jack Slate só pensa em dar um fim a tudo isso, agindo comedidamente... Até que alguém muito próximo a ele é executado a sangue frio.

Tomado pela raiva e com o apoio de Shadow, o companheiro canino, ele parte em busca de vingança, não importando quantas vidas serão perdidas pelo caminho.

A reinvenção da franquia é certamente melhor que o segundo episódio (lançado na geração passada), garantindo aos fãs da ação boas doses de pancadaria e brutalidade gratuita. Risadas e empolgação são coisas inevitáveis frente às primeiras vezes em que você assistir aos golpes e técnicas mirabolantes do protagonista.

Mais interessante ainda é começar logo de cara com o parceiro canino no ataque, em uma reconstrução completa dos eventos que levaram Jack ao estado em que ele se encontra já nos últimos capítulos.

O problema é que infelizmente isso é tudo o que o jogo tem a lhe oferecer. Além da mera coleta de insígnias não há mais nada a ser feito, já que não existem modalidades extras, online, truques ou qualquer outra variação. Estamos em uma geração na qual isso não pode mais ser justificado pelas desenvolvedoras, ainda mais quando outros jogos chegam às prateleiras pelo mesmo preço e com o dobro de conteúdo.

Depois de jogar Dead to Right: Retribution você certamente sairá com a sensação de que ele tinha muito potencial. Infelizmente nada foi aproveitado como deveria ter sido...

Um detetive sem escrúpulos

Em sua história de vingança Slate parte para cima das gangues como uma criatura praticamente indestrutível. Os jogadores podem literalmente derrotar exércitos inteiros de bandidos apenas com os próprios pulsos. É a clássica situação em que algo é tão ruim que chega a ser bom!

O sistema de combate é básico, com combos formados pela combinação entre um botão de ataques fracos, outro de ataques fortes e os dois juntos para que seja desferido um golpe que esmague a defesa dos mais resistentes. Com os oponentes enfraquecidos, basta pressionar um botão para que a sequência automatizada de execução seja ativada.

É aí que você se depara com uma das melhores coisas que Dead to Rights tem a oferecer. Slate quebra braços, joelhos, dispara nos pés e faz com que os malvados sofram. Dependendo da arma que você carrega o ato pode terminar em um tiro na boca, mesmo depois de muitos pedidos de piedade (não atendidos, obviamente). Tudo isso rola em câmera lenta, com direito a tomadas cinemáticas. O resultado é bem satisfatório para quem quer uma dose extra de violência.

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Escudos humanos

Depois de ver as ações repetidas vezes você pode partir para estratégias alternativas, como desarmar e atirar direto na cabeça sem dar tempo para socos e chutes. Essa técnica é eficiente principalmente para poupar tempo, exigindo apenas um pouco de ritmo e precisão na hora do disparo.

Já quando verdadeiras hordas de malfeitores tomam a tela a melhor saída é apelar para as esquivas (ou contra-ataques, quando você pressiona o botão de defesa no momento exato em que alguém o golpeia) e escudos humanos. Sim, você agarra um deles e sai disparando, protegido pelo corpo que logo não terá mais vida.

Feita a limpeza, basta jogar o cadáver pela sacada e correr rumo ao próximo grupo. Para facilitar a sua vida há até mesmo um sistema de foco — mostrado pelo medidor do canto inferior esquerdo da tela — que desacelera consideravelmente o jogo e lhe garante ampla vantagem de combate e mira.

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Outra forma de ajuda vem de Shadow, que geralmente está ao seu lado, obedecendo aos comandos dados pelo direcional. Ele pode oferecer cobertura, atacar inimigos baleados ou até mesmo agarrar alguém que esteja “no seu pé”. Infelizmente o potencial do cão não é aproveitado por completo nessa situação pela dificuldade de controle sobre a câmera.

Através dos olhos de um cão

A companhia canina é ótima, mas tudo fica ainda melhor quando o jogo lhe confere controle total sobre o belo cão (que é uma mistura amedrontadora de malamutes do Alasca com lobos selvagens). O ritmo é muito diferente, permitindo corridas extremamente velozes (durante as quais é possível derrubar os vilões no chão) seguidas de execuções tão brutais quanto as exibidas por Jack Slate.

Alguns dos exemplos memoráveis incluem mordidas diretas na garganta, raspadas de unhas até que o tórax da vítima seja perfurado (enquanto ela agoniza e grita no chão), puxadas diretas pelo braço e dentadas em pontos mais sensíveis... E baixos do corpo humano.

Agora, uma coisa deve ficar clara: nem só de força bruta é feito Shadow. O animal é bem inteligente e capaz, tanto é que os protagonistas chegam a brincar que é como se ele “entendesse o que dizem. Assustador”. Na prática isso significa que você pode caminhar em modo oculto, “Stealth”, localizando todos os capangas no cenário pelos batimentos cardíacos. Depois de colocá-los para dormir eternamente há inclusive o recurso de arrastar os corpos para que ninguém descubra seus atos furtivos. K-9 é realmente uma obra do passado!

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A cidade do crime

Os gráficos não prestam qualquer favor à trama e ao jogo (algo que discutiremos nos pontos negativos da análise), mas surpreendentemente o jogo consegue capturar bem o senso de atmosfera. Você percebe que Grant City está tomada pelo crime, há destruição por todos os lados e tudo apodrece diante de seus olhos.

A temática também é peculiar, misturando um tom noir dos filmes de investigação (tais como Blade Runner) com o caos futurista de uma polícia equipada com bugigangas que ainda não temos. Apenas não espere por uma história convincente ou complexa, pois você não encontrará nada parecido.

Nada se destaca

Pois é, o jogo da Volalite não se sobressai em nenhum aspecto. O combate mostra variação, mas também chega carregado de erros (discutidos adiante) e sem profundidade alguma. Os gráficos possuem boa texturização, mas os efeitos climáticos deixam a desejar ao lado da animação pavorosa de todos os personagens.

O mesmo pode ser dito da trilha sonora e da atuação de voz (que não são memoráveis em qualquer sentido). E já que estamos falando de coisas medianas... O sistema de cobertura tenta imitar o sucesso de jogos como Gears of War, mas é truncado — com alguns objetos não servindo para ao propósito que deveriam. Como resultado ou você fica vulnerável como um bobo tentando encostar-se a uma pilha de madeira (que não permite isso) ou vai grudando de ponto em ponto ao invés de correr em linha reta.

Repetitivo ao extremo

Por mais que seja divertido agarrar, socar e exterminar a corja de ladrões da cidade é inegável que logo você se cansará de repetir as mesmas tarefas, apenas por corredores diferentes. Os momentos mais próximos do final do game ainda ajudam a quebrar a monotonia, mas em termos de jogabilidade é inegável que você recairá sobre as facilidades de atacar, desarmar e atirar.

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Vale notar que, além da coleta dos distintivos policiais, não há qualquer tipo de interatividade dinâmica com o cenário. No máximo você ativa uma alavanca para abrir a porta do elevador ou mete o pé em uma grade para derrubá-la.

Depois de fechar a campanha principal nada mais restará a você, já que não há nenhuma modalidade extra, nem por diversão (como uma possível arena apenas para exterminar ou objetivos alternativos). Online? Sem chance...

Questões de colisão — um mundo lhe espera

Apesar de toda a variação aparente (com as inúmeras sequências e possibilidades de ataque), o sistema de combate de Dead to Rights: Retribution não é nem um pouco refinado. Isso fica visível quando os seus socos atravessam a cabeça de algum oponente, principalmente quando a tela está cheia.

Isso quebra boa parte da diversão e ainda frustra por deixar o jogador perceber que ele poderia estar se saindo bem melhor. Mas, além disso, há outra cosia bem estranha: durante as sequências animadas de assassinatos brutais todos os inimigos desaparecem ao seu redor, restando apenas o alvo. Tremenda concentração, não é mesmo Slate?

O mais engraçado é que o universo do game literalmente congela enquanto a ação corre em câmera lenta, o que significa que você não toma tiros e nem fica sujeito a outros perigos. Curiosamente nos deparamos com um problema igual em Rogue Warrior (confira a análise aqui), mas fiquem tranquilos, pois o jogo da Volatile ainda é muito superior.

Moonwalks e ataques epiléticos furiosos

A movimentação de Shadow não convence nem um pouco. Ele tende a deslizar com as patas pelo chão (isso quando há contato de fato entre um e o outro), o que fica mais aparente quando você se desloca em baixa velocidade.

Ainda tratando da questão da animação, vale notarmos que o trabalho é sofrível. Slate corre saltitando (é engraçado de ver) e as animações pré-computadas entre os estágios sofrem com movimentos involuntários dos personagens. É o caso da repórter que aparece já no começo do game, tremendo de dois em dois segundos de forma incontrolável.

Por fim, essa tremedeira se estende ao áudio, que muitas vezes trava em meio à ação, voltando um segundo depois um tanto acelerado até que o atraso seja compensado. São pequenos detalhes que tornam ainda mais clara a falta de acabamento.

Acertos com a câmera

Não bastassem as esquisitices descritas acima, você ainda terá que lidar com a câmera do jogo, que é um tanto “difícil”. Durante tomadas abertas até não há tanto problema, exceto pela aproximação excessiva com o personagem quando a corrida é acionada, que tira a noção de espaço do jogador.

Em corredores fechados (com especialistas em combate, que requerem mais habilidade) sua vida pode virar um inferno. Jack não se vira a tempo, os golpes não saem como deveriam e o foco da ação vai parar na parede... Até mesmo algumas das sequências de execução deixam de ser exibidas porque a câmera está virada para o lado errado.

65 ps3
Regular

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65 xbox-360