Basta seguir o som do vento...

Será possível escapar de padrões enlatados? Será possível partir em uma nova produção, deixando convenções e “lugares-comuns” esperando do lado de fora da porta — a fim de criar algo realmente novo? Parece que sim. Entre enxurradas de produtos virtualmente iguais (mesmo que fotorrealistas, o que já não quer dizer tanto assim), é revigorante encontrar pioneiros; obras capazes de mostrar um novo horizonte não apenas para a indústria de games, mas para todo o conceito desgastado que responde por “entretenimento”.

Afinal, chamar algo como Dear Esther de “jogo” não seria exatamente uma ofensa — como poderia colocar qualquer um que tenha atravessado toda a experiência interativa do mod. Trata-se, antes, de um erro categórico: não se trata aqui de um jogo, pelo menos não segundo a definição clássica.

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Nada aqui envolve vidas, barras de energia, pontos de respawn, fases ou quaisquer outras categorias forjadas ao longo dos anos pela faceta mais “econômica” da indústria de jogos. À sua frente, há apenas uma enorme ilha de vegetação rasteira quase virgem, constantemente perturbada pelo som do mar e por ventos cortantes.

É verdade que não se trata de nada realmente novo aqui. Na verdade, Dear Esther foi lançado originalmente em 2008, em um mod produzido a partir da engine Source. Dessa forma, a versão recentemente empacotada pela desenvolvedora thechineseroom representa, antes, uma releitura mais “comercial” do “game” — com texturas e áudio reelaborados. Entretanto, do ponto de vista da trama, a coisa toda permanece igualmente sem uma explicação clara.

Você é um náufrago? Um explorador? Ou, quem sabe, o clamor contínuo por alguém de nome “Esther” em epístolas largadas pela praia dê indícios de algum estado alterado de consciência...

Algo extrafísico? Difícil saber ao certo. Mas isso não o impede de colher alguns bons momentos de pura contemplação, sem qualquer necessidade de saltos em plataforma, puzzles ou headshots. Naturalmente, se isso vale ou não alguns tostões do Steam... Isso certamente é algo que se deve analisar. Vamos aos detalhes.

Assim como vários projetos similares, Dear Esther simplesmente escapa de qualquer tentativa de classificação. De fato, talvez a única categoria pertinente aqui seja a de uma “experiência audiovisual” — embora isso ainda soe terrivelmente amplo.

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Uma boa dica? Esqueça as classificações. Esqueça também os padrões preconcebidos e cultivados durante anos pela indústria. Apenas mergulhe na solidão contemplativa de Dear Esther... E, entre peregrinos, mensagens cifradas e ambientes paradisíacos, surpreenda-se com o que estará à sua espera do outro lado.

“(...) Consciência só tem aquele que contempla”

A frase acima é atribuída ao escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. De fato, a sentença completa parece ser encaixar como uma luva para descrever a experiência trazida por Dear Esther: “O homem de ação não tem consciência. Consciência só tem aquele que contempla”.

De fato, não demora muito para que você compreenda que a ilha misteriosa localizada em algum lugar de um arquipélago na costa leste da Escócia não o espera com uma aventura cheia de explosões e tarefas hercúleas. Na verdade, nem mesmo o estilo “puzzle contemplativo” de games como Myst se encontra aqui.

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Para efeitos de comparação, Esther se encaixaria — embora, ainda assim, frouxamente — no mesmo estilo de experiência disponível sem Journey. Entretanto, o seu nível de interação aqui consegue ser ainda menor.

Na verdade, além de um liga/desliga automático da sua lanterna, não há qualquer tipo de interação direta com o ambiente. Você se limitará a ouvir o som do vento enquanto desliza por encostas pedregosas. O silêncio é, por vezes, rompido por melodias misteriosas, e também por um narrador, que, de início, apenas descreve a história da ilha.

Ótimos personagens invisíveis

Pode-se dizer que a história ambígua que controla a sua perambulação aparentemente sem sentido pela misteriosa ilha de Dear Esther ganha um enorme fôlego com a sucessão de narrativas que surgem a cada momento.

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Embora jamais veja quaisquer das pessoas mencionadas pelo narrador onipresente, o cartógrafo Donnelly, o pioneiro Jakobson (com sua descida à insanidade) e mesmo a misteriosa Esther tratarão de conferir o que poderia ser apenas um passeio turístico toda uma densidade — sobretudo quando as histórias de cada um dos envolvidos, aparentemente independentes, passam a se mesclar, produzindo um novo sentido.

Sons...

Sem sombra de dúvida, uma parte considerável da experiência de Dear Esther repousa nas belas trilhas sonoras compostas por Jessica Curry. São sons ambientes fugidios, melodias lentas e de crescendo evanescente, tudo evocando, constantemente, um misto entre serenidade, solidão e mistério.

Complementando a experiência, há a bela narração de Nigel Carrington, sempre alternando ares descritivos, desesperados e do mais puro abandono.

Não há realmente um jogo

Não, isso não é propriamente um ponto negativo. Entretanto, é inegável que a falta de uma experiência genuinamente interativa pode acabar afastando boa parte dos jogadores do universo ambíguo de Dear Esther. Se tiros, explosões e saltos fazem mais o seu estilo, é melhor considerar este ponto.

85 pc
Ótimo