Um vilão desprezível em uma adaptação razoável

Jogos que nascem de adaptações de películas já são naturalmente preocupantes. Senão, tente se lembrar de qualquer título baseado em filme que realmente tenha valido a pena... Nada? Exatamente. Mas o nariz sempre pode ficar um pouco mais franzido: e se tal adaptação for lançada para Wii, notório sofredor quando o assunto são third parties (jogos produzidos por terceiros)?

Fato é que Despicable Me teria tudo para ser um jogo terrivelmente frustrante e facilmente esquecível. Mas esse não é exatamente o caso. Ok, o projeto da desenvolvedora D3 não é exatamente uma obra prima, de forma que Super Mario Galaxy ou The Legend of Zelda continuam sendo escolhas mais apropriadas para o consoles da Nintendo.

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Entretanto, algo se salva nesta liturgia vilanesca. Em primeiro lugar, Despicable Me soube se esquivar com razoável perícia do típico estilo que pode ser encontrado em adaptações cinematográficas — a saber: saltos e vilões infindáveis em um clima sidescroller genérico. Longe disso.

Sinteticamente, a experiência aqui seria uma mistura entre puzzles simples, pouquíssimos inimigos e algumas fases de plataforma que provavelmente farão você perder boa parte dos seus cabelos. Existem algumas escorregadas, naturalmente. Entre elas, o fato de a versão extrafilme de Gru não é propriamente um perito em acrobacias aéreas, o que torna a dificuldade de algumas fases realmente punitivas. Ademais, vamos aos detalhes.

Despicable Me é um jogo divertido. Irritante às vezes, mas ainda assim um bom passa tempo. Na verdade, por ser um típico subproduto da colossal indústria de filmes, era de se esperar que não houvesse aqui muito mais além de alguns rostos prontamente reconhecíveis. Mas, assuma-se, há alguns pontos realmente interessantes, já que a D3 conseguiu escapar (pelo menos em parte) do estilo de ação genérica que domina a maior parte dos jogos derivados de películas.

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Dessa forma, embora você possa acabar se irritando um pouco com uma boa dose de ação desastrada, e também possa se frustrar em trechos de dificuldade fracamente punitiva, também é possível encontrar aqui alguns puzzles divertidos e criativos, além de um tipo de humor inocente que parece agradar sempre. Dessa forma, vale tentar se tornar o mais desprezível possível, nem que seja apenas por algumas horas.

Puzzles criativos

Img_normalDurante boa parte do tempo, o estilo de ação em Despicable Me não se destaca tanto assim do convencional. Alguns saltos aqui, uns botões para ativar ali, uns lasers mortais para desviar acolá. Mas há também os puzzles, desafios nos quais você deverá utilizar os inconfundíveis seguidores de Gru — aqueles bonequinhos amarelos que não se parecem com absolutamente nada que pode ser encontrado no mundo real.

É verdade que a dificuldade nesse momentos não é assim tão pronunciada. Só que arquitetar corretamente a saída de uma sala cheia de botões, portas e lasers é de fato recompensador — uma espécie de versão “Junior” de Portal. Na verdade, alguns desafios podem mesmo deixá-lo pensando por um tempo (é claro que não é preciso contar isso para ninguém).

A ideia central da maioria dos puzzles envolve as combinações possíveis entre as armas atípicas do vilão e seus seguidores. Dessa forma, disparar uma rajada de vento sobre um minion fará com que o sujeitinho infle para, eventualmente, acertar um botão disposto no teto de uma sala. Em outros momentos você também terá que congelar um ou mais dos seus seguidores para que ganhem o peso necessário para ativar um dispositivo no chão.

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Mas os seus mini-capangas não atuam apenas sozinhos. Eles também podem se organizar na forma de uma torre — que pode ser derrubada por uma rajada de vento para que, por exemplo, se transforme em uma ponte improvisada entre duas bordas —, e também em um... Círculo — uma das utilizações mais atípicas e também menos lógicas aqui.

O mesmo estilo descontraído...

Despicable Me não representa nenhum primor visual. Mas também não faz feio, sobretudo quando se considera as limitações gráficas do Wii. Trata-se do mesmo estilo caricato do longa-metragem: uma profusão de cores, feições exageradas, armas que, de tão mortais, acabam parecendo ridículas. Enfim, exatamente o que você encontrou no filme.

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...Também o mesmo humor nonsense

Há aqui também o mesmo humor descompromissado do filme, que é garantido pela dublagem original de Steve Carrell. Isso faz com que mesmo os momentos de morte — e serão muitos, conforme será visto adiante — ganhem alguma graça, já que o narrador vai constantemente exortá-lo a voltar para o tutorial para aprender como fazer as coisas, ou ainda sugerirá que você simplesmente passe direto por determinado setor (confira o tópico “Dificuldade punitiva”).

Afora isso, Gru ainda baterá de frente com algumas obras de arte durante as fases. Trata-se do momento perfeito para mostrar o quão desprezível o vilão é, vandalizando estátuas, quadros e até mesmo carros — embora, no fundo, seja pura perfumaria, já que o jogo continua da mesma forma.

A ação pode ser divertida

Embora alguns trechos de Despicable Me sejam tão “inspirados” que você dificilmente conseguirá atravessar, há sem dúvida uma boa dose de diversão em plataforma “old school” aqui. Trata-se quase de uma ode aos bons tempos das gerações de 8 e 16 bit, com lasers cruzando a tela, colunas desabando do teto ou ainda (e essa é realmente clássica) o nível da água que sobe perigosamente — aparentemente, Gru, assim como Tommy Vercety (GTA Vice City), também sofre de uma forma estranha de hidrofobia.

Dificuldade punitiva

Gru morrará muitas vezes em algumas partes. Demais, realmente. De fato, trata-se de algo que não se vê desde os tempos da série contra para o saudoso Nintendinho. E isso ocorre por dois motivos. Primeiro, porque alguns trechos são realmente punitivos, difíceis mesmo. Às vezes o negócio é simplesmente treinar várias vezes antes de finalmente conseguir passar.

Img_normalEntretanto, a má forma física de Gru também parece atrapalhar um bocado. Em outras palavras, pode-se dizer que a jogabilidade de Despicable Me não está entre as melhores do Wii. Acrescente-se a isso o fato de que os controles do console já são por natureza um tanto imprecisos e o que você tem são dúzias e mais dúzias de mortes — o que pode se tornar bastante irritante com o tempo.

Por que não mais puzzles?

Os trechos com puzzles de Despicable Me são os mais memoráveis, não haja dúvida. Dessa forma, quando você consegue encontrar a saída de uma sala particularmente intrincada... Para encontrar em seguida vários metros de ação em plataforma ordinária, uma dúvida surge inevitavelmente: por que não apostar mais nos puzzles?

Em relação à Lua...

Img_normalFique tranquilo, isso não será um spoiler. Mas a questão aqui é: a parcela da história do filme que foi efetivamente transportada para o game é mínima. Sim, ainda existe um plano mirabolante para roubar a Lua, e também há os milhares de seguidores descerebrados de Gru.

O problema é que... Fica pro aí mesmo. Não existem os órfãos, e também não há nada que faça alusão à carga particularmente emotiva de Despicable Me. Em suma, a D3 transformou um conto infantil ingênuo e atraente em uma espécie de “diário do vilão”, conforme a redenção do personagem dá lugar a uma doutrina vilanesca regada a ação e comentários divertidos — o que não necessariamente é ruim, apenas não tem lá muito a ver com a película.

70 wii
Bom