Centenas de horas de jogo para os fãs de estratégia.

Disgaea 2 dá continuidade à franquia e não decepciona os fãs do primeiro título. É um dos jogos mais detalhados e recheados de segredos do PS2, sobressaindo também entre os jogos de estratégia existentes. A falta de um melhor tratamento dos gráficos impede que seja uma obra-prima, mas em termos de jogabilidade e profundidade parece ser o mais próximo de Final Fantasy Tactics que temos ao alcance (alguns concordarão que pode ser até melhor).

Uma linhagem sem herdeiros

O mundo dos jogos de estratégia ficou marcado em 1998 pelo lançamento de Final Fantasy Tactics, da Square, que ainda não era a mega-poderosa Square Enix de hoje. Embora não tenha inovado no estilo de jogo - pois Ogre Battle já fazia escola desde o Super Nintendo – foi o primeiro RPG estratégico a oferecer o pacote completo: enredo, personagens, gráficos, sons, controle e jogabilidade excepcionais. O jogo imediatamente conquistou uma legião de fãs, até mesmo entre jogadores normalmente refratários ao estilo de jogo mais lento apresentado em Final Fantasy Tactics.

Desde então, muitos outros jogos foram lançados procurando imitar a fórmula, mas sempre faltou alguma coisa nos outros títulos. Na maior parte das vezes o problema estava no enredo, que em nenhum outro jogo chegou perto da complexidade e número de reviravoltas apresentados em Tactics.

Disgaea 2, como o primeiro, continua apostando no humor como forma de sair da sombra de Final Fantasy. É uma maneira de justificar um jogo diferente, sem a obrigação de apresentar a história intrincada que os jogadores dos RPGs de estratégia normalmente esperam.

Enredo estranho com humor peculiar

O enredo de Disgaea 2 não se leva à sério e combina muito bem com o estilo leve e humorístico dos diálogos e textos. Tudo começa quando a mãe do personagem principal, Adell, tenta conjurar um poderoso demônio, Zenon, que lançou um feitiço e transformou todos os habitantes de um vilarejo em demônios. Algo sai errado na conjuração, e no lugar do demônio eles conseguem apenas sua filha, Rozalin. Ela é obrigada a levar Adell até seu pai, por causa dos laços do ritual de conjuração (embora pretenda apenas voltar pra casa), enquanto Adell seguirá com ela a fim de matar o demônio Zenon quando lá chegar. É uma premissa inusitada, e dá o tom do desenvolvimento cômico da história no jogo. Não existem momentos dramáticos ou reviravoltas, mas mesmo assim o enredo satisfaz o jogador. Algumas poucas piadas são batidas ou ingênuas (parecendo problemas de tradução), enquanto o nível geral de humor é muito bom, distanciando Disgaea 2 das histórias clichê encontradas em títulos similares. É impossível não rir ao ver um pinguim jogando uma bomba na princesa-demônio, por exemplo, e existem outras situações igualmente hilárias no decorrer do jogo.

Mesmo o jogador acostumado às bizarrices pode demorar um pouco pra se acostumar ao estilo bastante particular de Disgaea 2. Recomenda-se que o jogador dê uma chance ao jogo, procurando ignorar a estranheza inicial; após algumas horas fica mais fácil entender os rumos da história, os motivos de cada personagem e porque os desenvolvedores escolheram esse estilo de narração. Com um pouquinho de boa-vontade você pode até começar a gostar do enredo. Pode não ser a história mais cativante de todas, mas certamente é contada de uma maneira interessante e muito diferente do que estamos acostumados a ver.
Existem pequenas cenas sem sentido que aparecem no desenrolar da campanha. Coisas como telejornais, narrando a morte de personagens que você acabou de derrotar e outros eventos “importantes”. São muito engraçadas e inteligentes, e ajudam a manter o interesse nos acontecimentos do jogo. Também há a opção de pular boa parte da história (através de menus no fim ou início de cada batalha), caso o jogador esteja interessado apenas nas batalhas e desenvolvimento dos personagens.

Estratégia para jogadores que levam o gênero a sério

As batalhas por si só são muito interessantes, requerem pensamento antecipatório e boa dose de estratégia. Os inimigos podem ser abordados de muitas maneiras diferentes e o jogador pode escolher entre batalhas francas, com ataque direto aos oponentes, ou batalhas mais táticas, nas quais procura tirar vantagem do cenário antes do ataque propriamente dito. Também é importante considerar o alcance de cada personagem, pois através dos recursos de Lift (levantar um personagem adjacente) e Throw (jogar o personagem levantado), é possível aumentar muito o alcance de ataque e a movimentação em um único turno.
Esse recurso permite também que sejam formadas “torres” de personagens, já que é possível empilhá-los sobre os ombros de apenas um personagen, abrindo mais opções de ataque e movimentação (os personagens que estão sobre os ombros do que está no chão não sofrem dano, por exemplo). Embora seja atraente, montar a “torre” nem sempre é a melhor opção, pois somente os personagens que ficam no chão podem formar combos e ataques conjuntos, que rendem mais pontos e dano. Some a isso os 17 tipos de monstros, mais os 17 tipos de humanos e você terá uma infinidade de maneiras de montar um grupo e utilizá-lo em batalha. O número enorme de opções à disposição chega a assustar e pode afastar os jogadores novos, mas é um prato cheio para os fãs dos RPGs de estratégia.

Normalmente os jogos desse gênero manipulam a dificuldade de uma batalha apenas através dos oponentes apresentados; uma batalha se torna difícil com um oponente que possui um nível alto de energia ou um ataque muito forte. Em Disgaea, o cenário também se torna oponente ou aliado, dependendo de suas ações. E não estamos falando apenas de diferenças de altura para ataques ou defesa: neste jogo existem zonas demarcadas com painéis coloridos (Geo Panels), que podem mudar os rumos de uma batalha, dependendo de qual time ocupa quais partes do cenário. Personagens sobre os painéis sofrem efeitos, que podem ser aumento do poder de magias, dano aumentado, invencibilidade, proibição de combate corpo-a-corpo, entre outros.
Os efeitos podem ser modificados através do deslocamento e destruição de pequenas pirâmides espalhadas pelo campo de batalha, os Geo Symbols. Em alguns cenários se torna fundamental entender como eles estão interligados entre si, e quais devem ser manipulados ou destruídos. Tome ainda um cuidado extra, pois existem Geo Monsters que deslocam as pirâmides podendo virar o jogo de uma hora pra outra.

Uma série de outras pequenas particularidades (como contra ataques que podem acontecer 3 vezes seguidas) aparecem nas batalhas, mas a melhor forma de compreendê-las é jogando. Disgaea apresenta um sistema de batalha que pode ser até mesmo superior ao de Final Fantasy Tactics, devido ao enorme número de opções e tempo necessário para seu domínio. Não existe uma grande diferença em relação ao primeiro Disgaea, mas todas as pequenas adições melhoram o sistema já conhecido.

Pingüins podem bater em piratas

E as batalhas não acontecem apenas como forma de avanço no jogo. Elas estão presentes também como forma de personalizar vários pontos específicos do seu grupo de guerreiros. A criatividade dos desenvolvedores aparece em eventos que, com certeza, nunca foram vistos em outro jogo. Um exemplo: em Disgaea cada item possui características individuais. Assim, se você pretende comprar um arco, precisa decidir exatamente qual comprar, mesmo entre arcos do mesmo tipo. Digamos que você decida por um Long Bow.
O menu de compra lhe oferecerá três ou quatro Long Bows, diferentes entre si. Alguns aumentam sua velocidade, outros causam mais dano etc. Isso faz com que cada arma seja realmente única, e você pode criar um grupo de arqueiros com características muito diferentes: um causa mais dano ao inimigo, outro possui mais defesa e velocidade de ataque e assim sucessivamente, tudo devido às características próprias de cada item equipado. Achou isso inovador? Mas não é. Inovador é o fato de que existem pessoas morando dentro de cada item. Parece esquisito? Esquisito é o fato de que existem mundos inteiros dentro de cada item do jogo. E isso é só o começo.

Então, temos itens simples como os tradicionais arcos ou poções de cura, que possuem cenários de batalha dentro de si, onde pessoas habitam. Através de um personagem especial (ele já está disponível na cidade inicial do jogo), você pode entrar nos itens, e lutar com as pessoas que moram lá dentro. Derrotando os moradores do seu item, você pode deslocar os moradores para outros itens, melhorando-os através da transferência de habitantes. É possível criar itens muito mais poderosos dessa maneira, o que é bem legal. Mas isso não importa. O que realmente importa é que também existem piratas dentro dos itens! E os piratas podem aparecer a qualquer momento e acabar com a alegria de passear dentro do seu arco ou armadura. Os piratas normalmente são oponentes fortes, mas através da variedade de classes à sua disposição você pode criar um grupo de pinguins super-poderosos, utilizando itens poderosos desenvolvidos por você, que darão cabo dos piratas. Explodindo. Pinguins explosivos. São coisas que não vemos com frequência em jogos desse tipo.

Aqui o jogo volta a fazer sentido novamente: piratas sempre têm tesouro escondido, e quando derrotados, deixam pedaços de mapas. Juntando um certo número de pedaços, você pode formar o mapa completo, que lhe indicará o caminho para The Land of Carnage. E lá as batalhas são bem mais difíceis, afinal, é um mundo encontrado através de um mapa de piratas. Dentro de itens. Aliás, é possível encontrar novos piratas e pedaços de mapas de piratas dentro de pedaços de mapas de piratas, pois eles também são itens. Parece confuso mas as coisas são mais simples quando você está jogando. E jogando é a melhor maneira de entender Disgaea.

Existem outros conceitos bastante inovadores envolvendo as batalhas em Disgaea - como julgamentos de personagens de seu grupo, onde o tribunal deve ser encontrado através de combates - mas é impossível descrevê-los em apenas uma resenha. Basta dizer que quase todos são muito interessantes e realmente respeitam o jogador, ao disponibilizar tantas decisões e formas diferentes de atingir os objetivos. E vale a pena seguir esses caminhos divergentes da história principal, pois são divertidos de explorar, e as recompensas encontradas podem melhorar muito sua equipe. É uma opção interessante para aqueles momentos onde você precisa melhorar o nível do grupo, sem precisar repetir indefinidamente um cenário apenas a fim de buscar mais experiência ou dinheiro.

Gráficos não são tudo, mas não dispensáveis

O ponto fraco de Disgaea 2 encontra-se nos gráficos de jogo e nos modelos dos personagens. São tão simples que parecem parte de um jogo de PS1. Os cenários de batalha ficam cada vez mais criativos no decorrer do jogo, recorrendo a fundos exóticos em alguns casos (como nos mundos dos itens) a fim de inserir algo de novo e chamar a atenção do jogador. Mas infelizmente os gráficos não aproveitam a capacidade do PS2, pois poderiam ser criativos E bonitos.
É uma pena que a ótima jogabilidade não tenha sido acompanhada por gráficos de ponta, pois criaria um jogo de estratégia único no PS2. Algumas magias dos personagens são bem-construídas e até mesmo bonitas (pense nos efeitos das Guardian Forces de Final Fantasy 8). Mas não são diferentes dos melhores gráficos feitos no Playstation 1, o que é um ponto negativo.

Em contraste com os pobres gráficos de jogo, as cenas de anime presentes são muito limpas e bem-executadas. Existe até mesmo um longo trailer do anime oficial presente no menu inicial. Aparentemente a história é bastante diferente dos jogos, coincidindo apenas em alguns personagens. Disgaea 2 certamente agrada ao jogador que aprecia a cultura japonesa, como tantos outros jogos de estratégia que possuem o mesmo tipo de apresentação (Como Stella Deus e La Pucelle). É necessário certo conhecimento prévio do estilo muito particular dos mangás e do humor oriental, para absorver plenamente o universo de Disgaea.
Embora as animações japonesas apelem a um grande número de jogadores do gênero RPG, seria interessante ver uma forma de apresentação diferente de vez em quando. Parece que este gênero de jogo ainda deve esperar um pouco para ver cenas 3D e personagens sem expressões exageradas (como fizeram Final Fantasy Tactics e Valkyrie Profile).

Os gráficos utilizam a tradicional perspectiva isométrica normalmente encontrada nos RPGs estratégicos. Existem alguns problemas no deslocamento do cursor e posicionamento dos personagens, especialmente quando você deseja utilizar o comando Throw: o cursor pode sair do cenário, tirando o posicionamento tradicional da câmera a implicando em grande perda de tempo para achar novamente o ponto desejado. Felizmente a tecla R2 circula entre os personagens, ajudando a minimizar o problema.

A exemplo do primeiro Disgaea, o jogo continua sem mapas ou uma navegação realista no desenvolvimento do enredo. O avanço acontece somente através de menus. Embora não atrapalhe em nada a jogabilidade, contribui para tornar o jogo ainda menos impressionante, graficamente falando. É uma característica presente em jogos hardcore, e faz lembrar dos jogos Front Mission, que também apelam a um público bastante restrito.

Trilha sonora de qualidade e bem introduzida

As vozes de narração dos textos e na dublagem do anime são excepcionais, e poderiam estar mais presentes. Curiosamente, as vozes dos dois personagens principais tendem a ser as mais irritantes, mas pode ser devido ao fato de também serem as mais executadas. Os efeitos sonoros não surpreendem, sendo exatamente o que se espera de um jogo com cenário anime: sons genéricos de golpes e magias, ouvidos com freqüência em desenhos como Dragon Ball ou Naruto.
As músicas são movimentadas e destacam-se do fundo, chamando a atenção. Lembram muito as músicas de puzzles de origem japonesa, como Puzzle Bobble. Infelizmente tornam-se repetitivas com facilidade, principalmente em lugares que você tende a visitar com freqüência, como a cidade inicial do jogo. Também não combinam muito bem com os cenários de batalha, pois dão a impressão de que você está em um circo e não em um combate.

Disgaea 2 é uma das melhores opções existentes no gênero RPG/Estratégia. É muito fácil ignorar seus problemas, devido à jogabilidade e complexidade fantásticas que o jogo apresenta. É indicado sem reservas aos fãs do gênero, requerendo apenas um pouco de paciência para entender as opções de jogo e para entrar no clima da história.
86 ps2
Ótimo