Análise de Dragon Quest IX: Sentinels of the Starry Skies

Dragon Quest encontra o equilíbrio entre inovação e tradição

“O Todo Poderoso criou os seres humanos. Pouco depois, criou também os Celestrians  — um presente para a humanidade, cujo objetivo é guiar os tolos seres humanos”

Img_originalTratando-se de um JRPG, normalmente essa introdução deixaria para você, o jogador, o papel de um “tolo ser humano”. Bem, não aqui. Em Dragon Quest IX: Sentinels of the Starry Skies uma das primeiras coisas que chamam a atenção é a história. Embora a maior parte da trama seja tremendamente familiar para fãs do gênero, existe aqui e ali uma pincelada diferente, capaz de conferir um tom distinto a uma série que já conta mais de 20 anos de existência.

A propósito, para quem não conhece, vale aqui um pequeno parêntese. Embora no ocidente a série Dragon Quest seja algo como “mais uma boa franquia de JRPG”, o mesmo não ocorre na Terra do Sol Nascente. No Japão, um novo Dragon Quest gera comoção generalizada. Provavelmente nem sequer seria uma heresia afirmar que a popularidade da série ultrapassa a do bom e velho Final Fantasy.

Dito isso, vamos a Sentinels of the Starry Skies. Além da trama razoavelmente original, Dragon Quest IX ainda carrega outro emblema: trata-se do primeiro título da franquia a ser lançado exclusivamente para um console portátil — o Nintendo DS. Na bagagem, ótimo tratamento gráfico, história envolvente e também um belo motivo para que você junte alguns amigos: a campanha cooperativa.

Apesar de algumas escorregadas menores, Dragon Quest IX: Sentinels of the Starry Skies consegue ser um ponto de equilíbrio entre o estilo familiar dos JRPGs tradicionais e as inovações mais recentes do gênero. A história aqui também é um ponto digno de nota: envolvente e cheia de reviravoltas, mas sem desdenhar o estilo de trama que se espera do gênero.

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Por outro lado, a adição de um modo multiplayer cooperativo, embora traga efeitos colaterais menos desejáveis, inaugura uma nova forma de se jogar Dragon Quest. Enfim, Sentinels of the Starry Skies não é obsoleto, mas também não se desliga das raízes consideravelmente profundas da franquia. Sem dúvida uma das melhores opções em JRPGs para o DS.

Você, um Celestrian

A história densa, embora tradicional, é sem dúvida um dos pontos altos de Dragon Quest IX. Conforme mencionado anteriormente, aqui você não é um simples e frágil ser humano. Não. Aqui você assume o controle de um poderoso Celestrian, espécie de exército de “anjos da guarda” criado para conduzir a humanidade e, de quebra, recolher “benevolência cristalizada” — espécie de pagamento conquistado cada vez que se ajuda um ser humano.

Img_originalMas, diferentemente do que poderia parecer a princípio, os Celestrians não são propriamente uma raça de filantropos. Longe disso. A “benevolência cristalizada” — que é literalmente um cristal — deve ser depositada aos pés da lendária árvore Yggdrasil, a fim de convencê-la a dar frutos que levarão os Celestrians novamente ao encontro do “Todo Poderoso”. Sim, isto é definitivamente um JRPG.

Entretanto, como não poderia ser diferente, algo parece ter dado terrivelmente errado. Quando a Yggdrasil estava prestes a dar seus frutos, uma força maléfica irrompe nos céus e joga o seu orgulhoso Celestrian diretamente para a Terra, agora despojado das asas e da sua lustrosa auréola. Ironicamente, você cai exatamente na cidadezinha que devia proteger.

A partir daí, calabouços, cidades desertas, monstros — entre pepinos raivosos e musgos assassinos! — e tudo o mais que sempre construiu um bom JRPG. Alguns clichês poderiam ser evitados? Sim, poderiam, como se verá adiante.

Parcerias contra o mal

Caso você disponha de até três amigos com algum tempo livre — e com cópias de Dragon Quest IX, é claro —, uma boa pedida é experimentar o modo multiplayer cooperativo de Sentinels of the Starry Skies, disponível através da conexão local do DS.

Funciona da seguinte forma: enquanto um jogador atua como anfitrião, o demais serão os convidados no mundo de jogo. Entretanto, vale notar que, embora o desenvolvimento principal da história esteja sempre restrito às ações do anfitrião, os jogadores convidados podem perambular livremente através do mundo de jogo durante os momentos de ócio.

Caso o jogador principal adentre uma batalha particularmente encarniçada, um chamado será emitido aos convidados — é possível até mesmo tomar parte em uma batalha que já esteja em andamento. Mas, além da história principal, vale lembrar que o jogo traz ainda um vasto número de missões paralelas, ótimas para desenvolver todos os personagens envolvidos.

Crie o seu próprio anjo da guarda

Nada de herói pré-concebido aqui. Assim que você iniciar Dragon Quest IX, o jogo vai convidá-lo a criar o seu alter ego. Nada muito notável no que tange às possibilidades, mas, de qualquer forma, trata-se de algo ainda um tanto incomum dentro de um JRPG clássico. Você vai escolher o rosto, os olhos e o cabelo do seu Celestrian, lembrando ainda de dar cor a tudo.

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Entretanto, as classes disponibilizadas após algum tempo de jogo certamente conferem uma variação interessante à jogabilidade — principalmente se você estiver jogando no multiplayer cooperativo. Assuma aqui os sapatos de um guerreiro, de um mago, de um clérigo (curandeiro), de um ladrão, de um artista marcial ou de um menestrel. Algumas classes bônus também serão liberadas conforme o jogo avança.

Tradicional, mas sem inimigos (totalmente) estúpidos

Os combates em Dragon Quest IX não fogem muito do padrão dos JRPGs. Ataques em turnos, magias, habilidades e também algumas estratégias para o grupo. No entanto, algumas adições menores tornam o sistema simultaneamente familiar e atraente, mesmo para aqueles jogadores que, eventualmente, não morram de amores por RPGs japoneses.

Img_originalA câmera, por exemplo. Conforme você se movimenta em campo, a perspectiva muda para se adaptar aos acontecimentos. Também os inimigos apresentam um comportamento bem contrário aos padrões clássicos — que colocava os vilões em combate organizados de acordo com algum padrão geométrico, normalmente fixo.

Aqui, eles vão mudar o posicionamento em campo para cercá-lo, tornando a escolha do seu próximo ataque sempre vital. Além disso, embora a maioria dos inimigos corriqueiros se resuma a pepinos, musgos e um saco de farinha assassino — sim, é verdade —, os seus algozes não são exatamente estúpidos. Caso percebam que estão em nítida desvantagem, é provável que fujam, mesmo antes de a batalha ter início.

Uma alternativa para os encontros aleatórios

Os famigerados encontros aleatórios dos RPGs certamente não foram concebidos sem um motivo. Quer dizer, com gráficos bastante limitados, que outra alternativa os desenvolvedores tinham para emular a ideia de uma emboscada inimiga? Mas, convenhamos, esse sistema já dá sinais de cansaço há algum tempo, e é revigorante notar que mesmo uma franquia clássica como Dragon Quest tenha percebido isso.

Não que os clássicos inimigos genéricos não estejam dispostos aleatoriamente pelos campos fora das cidades e vilarejos aqui. Eles estão. Entretanto, o descampado aqui traz um estilo bastante semelhante ao inaugurado por Secret of Mana — RPG para Super Nes do início dos anos 90.

Todos os inimigos são visíveis aqui... E você também. Caso consiga atravessar sem ser percebido, ótimo. Entretanto, alguns deles vão notar a sua presença, e vão invariavelmente persegui-lo — uns com mais velocidade e determinação que outros. Além disso, os trechos de mata fechada conservam a ideia da surpresa, já que um musgo pode facilmente se esconder através das árvores. Enfim, um sistema elegante e que não decepciona.

Criação de itens

Outro sistema interessante que retorna em Sentinels of the Starry Skies. A sua jornada trará uma infinidade de itens de natureza variada que podem ser combinados de diversas maneiras, a fim de sintetizar armas, armaduras e afins que reúnam e potencializem as características dos seus elementos formadores.

Naturalmente, criar armas na base da tentativa e erro seria tremendamente cansativo e pouco produtivo. Dessa forma, o jogo disponibiliza em bibliotecas e masmorras diversos livros com o que se poderia chamar de “receitas”; basta juntar tudo para ganhar um poderoso diferencial — um escudo, ou um adorno para a cabeça (sem piadas infames aqui).

Um belo jogo para o DS

Img_originalOk, então o Nintendo DS tem limitações claras em relação ao processamento gráfico — o que deixa o console ligeiramente descompassado em relação ao que há de mais atual hoje. Entretanto, nada impede que uma desenvolvedora extraia um bom resultado das potencialidades do aparelhinho, certo?

Esse é exatamente o caso de Dragon Quest IX. Embora grande parte das localidades aqui seja tremendamente familiar — beirando o clichê mesmo —, os traços dos personagens, as animações e as texturas garantem um conjunto bastante harmônico. As câmeras em perspectiva inclinada ajudam ainda a dar uma acentuada sensação de profundidade.

O seu personagem, por exemplo, tem o visual modificado cada vez que adquire uma arma nova, o que é realmente surpreendente para um título do gênero. E, é claro, ainda existe o famoso visual “isto parece Dragon Ball!”, graças aos traços do icônico Akira Toriyama.

Tradicional demais, às vezes

Não entenda mal. Dragon Quest IX não é de fato um título antiquado. Também não cabe aqui desdenhar o estilo consagrado de se fazer as coisas em RPGs nipônicos. Entretanto, alguns puxões a mais no sistema de combate ou uma fuga um pouco maior dos locais clichês dos JRPGs — cidades desertas, campos gramados e florestas densas — não teriam feito mal. Além disso, embora naturalmente interessantes, alguns personagens transpiram algo de genérico.

Narrativa focada no multiplayer

Img_originalA escolha de adicionar um modo campanha cooperativo a Dragon Quest IX não poderia ter sido mais feliz. Entretanto, isso acarreta algumas consequências um tanto menos felizes para a narrativa da história caso você seja um Celestrian estilo lobo solitário. Nesse caso, os demais membros do grupo serão controlados pelo computador.

O problema é que, como os seus sidekicks aqui são tremendamente genéricos — já que o sistema do jogo imaginou que cada jogador convidado gostaria de criar o seu próprio personagem —, eles vão colaborar pouco ou quase nada com a história. Eles estão lá basicamente para fortalecer o seu poder de ataque, e nada mais.

90 ds
Excelente