Uma guerra épica no universo de Quake marca a segunda versão de Enemy Territory.

A iD Software é uma peça chave a história dos jogos de tiro em primeira pessoa, gênero que alcançou hoje níveis de popularidade jamais vistos. A desenvolvedora é responsável por títulos como como Catacomb 3D, Wolfenstein 3D e Doom, os maiores pioneiros no gênero, que estabeleceram padrões utilizados até hoje nos jogos de tiro.

Mas o legado da desenvolvedora não parou por aí. Após o sucesso de Doom e seu sucessor, Doom 2, a desenvolvedora deu início a uma nova era nos FPS (first person shooter, ou tiro em primeira pessoa), estabelecendo um novo padrão de qualidade e novos standards. A obra que marcou esta nova fase foi chamada de Quake e, através de gráficos avançados para a época e uma série de novos elementos na jogabilidade — como a possibilidade de pular e utilizar o mouse livremente para mirar e atirar, por exemplo —, foi um dos jogos mais populares da década de 90.

Quake não apenas marcou o gênero por conta de sua jogabilidade e gráficos, no entanto. Um fator pelo qual a série Quake é conhecida até hoje é o multiplayer — o primeiro game da série foi um dos maiores pioneiros nesta modalidade de jogo e seus sucessores apresentaram modos multiplayer sólidos e bastante populares.

Mas foi depois do lançamento de Return to Castle Wolfenstein — uma espécie de continuação do clássico Wolfenstein 3D, de 1992 — que um dos maiores marcos dos jogos multiplayer da desenvolvedora foi lançado. Trata-se de Wolfenstein: Enemy Territory, um jogo gratuito baseado em Return to Castle Wolfenstein focado apenas no multiplayer. Diferente da maior parte dos jogos do gênero, no entanto, o título é baseado em missões, não apenas na matança desenfreada.

O conceito foi bem sucedido e aceito e logo uma nova versão Enemy Territory foi anunciada — desta vez, porém, abordando o universo de Quake; como não poderia deixar de ser, o game foi chamado de Enemy Territory: Quake Wars. Agregando todas as características criadas e consolidadas pela iD Software até hoje e construindo um estilo de jogo que prima pelo trabalho em equipe, o título marca o ápice da complexividade de um game multiplayer.

Uma guerra épica

Embora não Enemy Territory: Quake Wars não apresente um enredo claro nem uma progressão lógica de acontecimentos (afinal, trata-se de um jogo baseado em multiplayer, sem começo nem fim), há toda uma explicação por traz de toda a guerra que se passa no game. O jogo se passa no ano de 2065, algum tempo antes dos eventos de Quake 2. Uma raça alienígena chamada Strogg invade a Terra buscando transformar sua matéria prima em combustível e a GDF (Global Defense Force), constituída apenas por humanos, deve defender seu planeta.

Ainda que os Stroggs sejam os invasores, não são apenas eles os responsáveis por ataques em Enemy Territory: Quake Wars. Cada partida coloca os times em situações diferentes, variando entre a ofensiva e defensiva. A equipe responsável pelos ataques deve conquistar pontos importantes no mapa, destruir barricadas e baterias anti-tanque ou escortar veículos, por exemplo. O outro time, por sua vez, deve evitar a todo custo que seus territórios sejam tomados ou equipamentos de importância sejam explodidos.

Para que a equipe funcione com eficiência, é necessário formar uma equipe bem estruturada e com uma variedade grande de soldados habilitados em funções diferentes. Neste aspecto, Enemy Territory: Quake Wars não falha; há uma boa variedade de classes e, mesmo embora as classes dos GDF e Stroggs sejam diferentes, elas se equivalem e tornam o game balanceado.Tanto como GDF quanto como Stroggs, você pode escolher entre cinco classes principais; a maior parte delas possui ainda mais de uma opção de armamento.

Como GDF, é possível escolher entre Soldier (infantaria de frente que carrega armas como rifles, metralhadoras, lança-mísseis, espingardas, sub-metralhadoras e até explosivos), Field Ops (classe capaz de criar armas de defesa e incumbida de fornecer munição ao grupo), Medic (capazes de reviver soldados abatidos em batalha e fornecer kits de primeiros socorros ao grupo), Engineer (classe defensiva habilitada a criar armas como metralhadoras anti-tanque, por exemplo) e Covert Ops (espiões e franco-atiradores, munidos com rifles de precisão e miras telescópicas).

Já jogando com os Stroggs, as classes são Agressor (semelhante à Soldier; embora as armas sejam diferentes, elas possuem basicamente as mesmas características), Oppressors (classe correspondente à Field Ops dos GDF, mas com a habilidade de criar escudos táticos temporários), Technician (assim como os Medic, podem recuperar a energia dos outros jogadores), Constructor (classe equivalente ao Engineer) e Infiltrator (classe espiã que possui basicamente as mesmas funções dos Covert Ops).

Mas nem só de soldados é feito um exército. Para garantir a vitória na guerra, é necessário não somente dominar as diferentes classes do jogo, mas também os veículos que o game oferece. Ao longo do jogo, você tem a chance de controlar tanques, helicópteros, quadriciclos, caminhões, robôs gigantes, entre outros transportes terrestres e aéreos — grande parte deles munidos com mísseis ou outras armas.

Diferente da maior parte dos games do gênero, em Enemy Territory: Quake Wars o critério para o sucesso não é a quantidade de inimigos que você matou e sim a sua atuação em batalha no geral. Participar de conquistas, realizar missões e agir em equipe são atitudes que lhe concedem pontos de experiência, enquanto agir por conta, sem cooperar para a vitória do grupo, não traz nenhuma recompensa. O soldado que se destaca em campo de batalha ainda pode ganhar uma promoção ou até ter atributos como velocidade de corrida evoluídos.

Tático e agressivo

Ainda que bastante tático, Enemy Territory: Quake Wars prima pela ação em primeiro lugar, com uma jogabilidade rápida e dinâmica; e, como de qualquer outro jogo de tiro em primeira pessoa da iD Software, não podia se esperar menos. Os comandos são de fácil assimilação e os tiroteios mantém diversas das características da desenvolvedora.

A possibilidade de utilizar veículos e construir estruturas anti-assalto (como metralhadoras anti-veículos) cumpre um papel fundamental nos combates do jogo. Saber utilizar estes recursos — e defender-se deles — é essencial para se obter a vitória.

Mas a chave para o sucesso em Enemy Territory: Quake Wars é o trabalho em equipe. Ter um time bem estruturado e com uma boa variedade de classes em campo de batalha é sempre essencial. Classes como os Engineers/Constructor e Medic/Technician, por exemplo, são fundamentais, pois somente através delas é possível, respectivamente criar uma defesa bem estruturada e curar os soldados abatidos em batalha — evitando os demorados respawns (em determinados casos, eles podem significar a perda de um ponto de importância no mapa ou até de um objetivo).

Infelizmente não são apenas os respawns que testam a sua paciência em Enemy Territory: Quake Wars. Como há pouquíssimos servidores nacionais para se jogar online, é necessário acessar servidores de outros países. Mesmo com uma conexão de internet muito boa, é difícil manter uma velocidade estável e o temido lag (travadas em virtude da conexão) é inevitável. Ao menos há a opção de jogar com bots, sem a necessidade de conectar-se à internet.

Uma chuva de balas

Embora tecnicamente os gráficos de Enemy Territory: Quake Wars não ofereçam o ápice da qualidade, o jogo é muito bem feito e roda muito bem e de forma estável até mesmo em máquinas medianas. As texturas são interessantes e não apresentam os temidos e comuns bugs, graças à nova tecnologia desenvolvida pelo próprio John Carmack (co-fundador da iD Software) chamada Mega Texture. Aliada à engine de Doom 3, o novo recurso torna possível a eliminação das neblinas e a criação de mapas sem camadas de terreno repetidas.

Há muitos mostradores de tela para orientá-lo e facilitar a comunicação, no entanto é comum ignorar grande parte deles com o tempo. As falas pré-programadas (não há um recurso para a comunicação de voz através de microfone no game, apenas frases prontas), por exemplo, são tão repetitivas e comuns que difícilmente se presta atenção nelas. Já a bússula é essencial para a orientação e a realização dos objetivos.

Já a sonoplastia não traz nada de muito diferente do usual; explosões para todos os lados e o ruído de metralhadoras disparando sem cessar são comuns aqui. Vale frizar que os diálogos no game são bastante estranhos, tanto em relação às falas quanto ao próprio tom de voz, e não soam apropriados para o clima caótico de guerra do jogo.

Recrutando novos soldados

Mesmo embora o mercado dos jogos de tiro em primeira pessoa esteja saturado e uma série de títulos baseados no multiplayer já tenham atingido níveis de popularidade bastante significativos, Enemy Territory: Quake Wars merece destaque. O incrível universo de Quake somado ao conceito de Enemy Territory é uma mistura bastante adequada; a benção da experiente iD Software é apenas uma prova disso.

Embora o recurso de conversa por voz faça falta e a interface do game seja um pouco intimidadora à primeira vista, o título é uma ótima pedida para entusiastas de jogos de tiro em primeira pessoa, principalmente aos fãs de jogos em multiplayer no estilo Battlefield.
82 pc
Ótimo