Se você acha que o título foi um exagero, não se preocupe: ele não é – e, ao final desta análise, você provavelmente vai concordar comigo.

Uma das experiências 3D que mais me marcaram envolvendo a F1 foi quando joguei Formula One, da Bizarre Creations/Psygnosis, no primeiro PlayStation, lá nos idos de 1995. O jogo não era o mais bonito, mas usava todos os elementos gráficos das transmissão da época, contava com a narração de ninguém menos que o lendário Murray Walker e, de quebra, a música de abertura do game era “Back to Shalla-Bal”, do Joe Satriani. 

Nada podia ser melhor do que aquilo quando se tratava da categoria máxima do automobilismo mundial reduzida a uma experiência de video game. Eu sei que muita gente vai citar o genial Grand Prix 4, no computador, mas ele não era tão amigável e acessível.

Eis que, 21 anos depois, eu sou surpreendido novamente. É evidente que a Fórmula 1 não é mais a mesma: ficou mais robotizada, mais controlada... e mais chata de acompanhar. No entanto, se tem uma coisa que um entusiasta de jogos de corrida sabe é que assistir e “pilotar” são coisas bem diferentes – e, nenhuma surpresa aqui, mas a segunda opção é bem mais legal. É disso que F1 2016 se trata: mostrar que, no papel do piloto, a F1 ainda pode ser excitante, dinâmica, veloz, técnica e extremamente divertida.

A licença dos jogos da categoria já passou por várias desenvolvedoras, mas foi pelas mãos da Codemasters, que assumiu a franquia desde 2008, que a Fórmula 1 está progredindo cavalarmente em termos de qualidade. Alguns de vocês podem até discordar, dizendo que F1 2014 e F1 2015 foram ruins porque abriram mão de funcionalidades como o modo histórico e, depois, do modo carreira.

Eu prefiro sugerir um olhar diferente: eles foram o terreno fértil que serviu para que F1 2016 finalmente se tornasse uma experiência completa. Na própria análise do F1 2015 eu apontei que o foco no desenvolvimento de uma nova engine de física e todo o trabalho feito em criar uma ambientação extremamente densa tinham um potencial esplêndido, só faltava aproveitar isso com um modo carreira mais denso. Não mais.

O novo título traz tudo o que os fãs pediram e mostra que a Codemasters é hoje uma das desenvolvedoras mais apaixonadas pelo automobilismo. Com um novo modo carreira, uma experiência ainda mais completa do circo da Fórmula 1 e uma estrutura competitiva multiplayer, F1 2016 é obrigatório não apenas para quem gosta da categoria, mas para aqueles que buscam um ótimo jogo game de corrida no geral.

Você, piloto de F1

Sem risco de errar: a maior deficiência do F1 2015 era não contar com um modo carreira no qual você pudesse se colocar no papel de um piloto novato que precisa fazer seu nome entre a nata do automobilismo mundial. Sendo assim, os desenvolvedores capricharam e criaram um dos modos carreira mais completos que já se viu em jogos de corrida.

Você começa customizando seu personagem através de modelos predeterminados, para depois customizar seu capacete, escolher seu número e, por fim, optar por uma das escuderias menores para iniciar sua empreitada, que pode durar até 10 temporadas.

É claro que não há evolução física nos carros como acontece na Fórmula 1 de verdade e, basicamente, você pode correr 10 vezes em equipes diferentes. Ainda assim, é uma boa duração para que você possa ser campeão em diferentes escuderias e tenha a oportunidade de ir aumentando a dificuldade à medida que for se familiarizando mais com o game sem que torne cansativo ou repetitivo tão rápido.

A primeira das poucas (mas significativas) puxadas de orelha para a Codemasters fica por conta da ausência de um avatar feminino. Com nomes como Susie Wolff, piloto de testes da Williams, e Carmen Jorda, da Renault, é uma pena que ainda tenhamos que bater nessa tecla de que, sim, mulheres também gostam de automobilismo.

Então vem um dos momentos em que o novo modo carreira já começa a se mostrar brilhante: as equipes não são iguais em termos de performance e as expectativas quanto a sua chegada também não. Entrar na Haas, estreante na temporada 2016, vai resultar em objetivos compatíveis com um carro que precisa ser desenvolvido e que, de cara, não é tão competitivo.

Por outro lado, entrar na Williams, uma das equipes mais tradicionais da história da Fórmula 1 e que tem um grande potencial para brigar por uma posição entre os cinco primeiros, faz com que as pessoas esperem bastante de você.

É importantíssimo fazer uma escolha consciente do que você quer para a sua carreira: começar lá de baixo, mas com expectativas compatíveis, ou começar lá em cima, sem saber se será capaz de atender o que será solicitado.

Um processo de aprendizado amigável

Logo ao começar o modo carreira, você é apresentado ao funcionamento da coisa toda por sua agente, no paddock do circuito que abre a temporada da Fórmula 1, em Melbourne, na Austrália. É ela quem te oferece contratos novos, repassa os objetivos da sua equipe para cada etapa e o atualiza sobre quem é o seu rival nas pistas.

O sistema de rivalidade é bem bacana e compara os seus resultados com o do seu oponente imediato, que pode ser seu companheiro de equipe ou outro piloto do grid. Quando você vence a disputa, uma nova rodada pode acontecer ou um novo rival pode aparecer. Sair vencedor desses comparativos garante que você ganhe espaço na sua equipe e seja promovido de segundo piloto para primeiro, por exemplo, ou ainda faz com que você atraia a atenção de equipes maiores.

Depois dela, um engenheiro explica como funciona o processo de pesquisa e desenvolvimento (R&D) da equipe. Nessa hora, um ponto extremamente positivo e outros dois significativamente negativos apareceram.

Vamos começar pelos ruins: apesar dos cenários e personagens bem modelados, a taxa de frames cai de forma tão brusca que chega a incomodar em alguns momentos, mesmo sem tantos elementos na tela – e isso acontece em todas as plataformas.

Além disso, o trabalho de dublagem para português foi bem feito na parte das falas, mas a falta de sincronia entre a fala e o áudio faz todas as cenas de interação com esses dois serem meio pastelonas, tipo dublagem de novela mexicana ou filmes antigos do Bruce Lee. Quando tudo está em inglês, no entanto, funciona perfeitamente.

Por outro lado, é o engenheiro que fala sobre um dos aspectos mais brilhantes de F1 2016, que são as sessões de treino prático com objetivos específicos. Funciona assim: a Fórmula 1 tem três sessões de treino antes de seguir para outras três sessões classificatórias, que definem as posições no grid – e só depois de tudo isso é que a corrida acontece.

Os treinos práticos sempre foram amplamente ignorados pelos jogadores mais casuais porque, de fato, não havia necessidade de ficar dando voltas na pista sem ter um bom motivo. Agora, no entanto, a situação é outra: essas sessões vão servir para você aprender a pilotar e dedicar bastante tempo no jogo além das corridas.

São três programas de treino: no primeiro, chamado de “Aclimatação de Pista”, você deverá fazer algumas voltas na pista e terá que atingir pontos específicos a uma velocidade satisfatória para atingir a pontuação esperada. Se você não conseguir fazer tudo perfeito, mas mesmo assim superar a marca, um objetivo secundário e mais desafiador aparece.

É assim que funciona também o segundo programa, de “Gestão de Consumo de Pneus”. Nele, você tem que completar quatro voltas de forma consistente, não só ficando de olho no medidor de consumo dos pneus, mas também no relógio, já que você tem que bater o tempo especificado.

Por fim, o “Teste para Classificação” serve para você testar o acerto do carro para a sessão mais importante que vem depois dos treinos práticos: a classificação. Você sai com o carro com pouco combustível e com os pneus mais macios disponíveis e deve virar três voltas rápidas, atingindo o tempo solicitado para se classificar em uma posição desejada pela equipe.

A cada sessão orientada completada com sucesso, você ganha pontos de pesquisa para sua equipe desenvolver melhorias para o seu carro. Um quarto conjunto de objetivos específicos das sessões também ajuda a garantir uns extras e agilizar o processo. Quando você vai fazer as melhorias, existe um medidor que compara como está a performance de cada uma das equipes do grid – para a surpresa de ninguém, a Mercedes está sempre no topo.

É aqui que está um dos brilhantismos do F1 2016: a Codemasters pegou uma parte que era sumariamente ignorada em jogos de corrida e transformou-a não apenas em algo útil, mas como uma parte fundamental do game e que, de quebra, te ajuda a melhorar. Na aclimatação, você aprende o traçado; na gestão de pneus, aprende a guiar de forma mais suave; e, por fim, no teste para o classificatório, aprende a andar rápido. É genial!

Calma, é mais fácil do que parece

Com todas essas novidades na mesa, tudo parece muito complicado, certo? Relaxa, porque não é. Assim como seus antecessores, F1 2016 não é um simulador, mas um semissimulador – a aposta numa pegada mais equilibrada sempre foi certeira por ser mais democrática e amigável para os mais casuais.

A física, derivada do título anterior, oferece uma ótima sensação de direção e feedback do comportamento do carro em diferentes situações, como na chuva ou com pneus gastos.

Isso significa que ele é bem generoso com quem não tem tanta experiência e manha com jogos de corrida, graças ao ajuste de dificuldade e às assistências disponíveis, além da função de flashback, que te permite voltar no tempo caso você cometa algum erro e é uma mão na roda.

Para quem não manja NADA de Fórmula 1, alguns tutoriais em vídeo explicam o bê-a-bá de como tudo funciona e podem te dar uma noção teórica. Isso é importante especialmente para quem está tendo contato com um game da franquia pela primeira vez. Não espere aulas extensas, mas pequenas dicas que são valiosas para entender como a máquina da F1 roda.

Além disso, caso você queira jogar de forma mais casual e algo mais objetivo, além de o modo carreira oferecer a possibilidade de você escolher por sessões mais curtas, os modos de corrida rápida e campeonato direto, no qual você escolhe um dos pilotos de verdade e corre com ele por uma temporada, algo bem mais objetivo que a carreira, estão ali.

No entanto, ele também consegue ser extremamente divertido e desafiador para quem já é entusiasta do gênero. Basta desligar tudo e colocar no nível mais difícil para começar a suar de verdade para conquistar uma posição mais privilegiada no grid e atingir os objetivos da equipe, tanto nos treinos quanto nas corridas.

Se você quiser entrar de cabeça no mundo da F1, é bom experimentar o modo Carreira Pro. Nele, todas as sessões tem a mesma duração da sua contraparte real, você não tem nenhuma informação no HUD, não tem flashback, não pode reiniciar as corridas e a dificuldade é a maior possível, inclusive com penalidades severas por corte de pista e tudo mais.

É o mais real que você pode chegar da experiência de competir na F1, tendo que lidar com todas as consequências de erros dentro e fora da pista: uma estratégia errada pode condenar sua corrida tanto quanto uma batida ou um pneu furado (que acontece, pode acreditar) – e não tem volta.

É claro que isso leva a outro ponto: para uma boa corrida, mais do que a forma como você pilota, você depende de uma inteligência artificial que, no mínimo, não seja cretina. A boa notícia é que a AI se comporta bem, de forma relativamente orgânica e reativa de acordo com sua movimentação na pista.

Os movimentos de ultrapassagem são previsíveis para evitar uma colisão, mas eles não facilitam e disputam freadas e adotam uma linha mais defensiva quando necessário, garantindo brigas bacanas pelas posições no grid.

Malabarismo dos dedos

Quem optar pela pegada mais desafiadora do F1 2016 vai ter que aproveitar tudo que o jogo oferece. Além de ter que cuidar do consumo dos pneus, você terá que dominar cada função que seu carro permite alterar durante a corrida, como é o caso dos mapas de injeção, distribuição dos freios e dureza das barras estabilizadoras.

Isso resulta em um verdadeiro malabarismo dos dedos durante a corrida, já que em algumas porções dos circuitos você pode optar por um mapa de injeção mais rico, que resulta em uma entrega de potência maior em detrimento de um consumo mais alto de combustível, ou então escolher uma mistura mais pobre, geralmente selecionada nas retas, para economizar aqueles mililitros que podem definir uma corrida.

Uma experiência bonita aos olhos e ouvidos, mas nem tão suave quanto poderia ser

Falando sobre a parte técnica de F1 2016, não dá para negar que o jogo é extremamente bonito visualmente e conta com efeitos sonoros muito caprichados e convincentes – como em F1 2015, cada motor de diferentes fornecedores soa diferente. O problema é que a engine que é utilizada para fazer tudo isso acontecer cobra seu preço, principalmente nos consoles.

De todas as plataformas nas quais o jogo está disponível, o PC é o que fatalmente se dá melhor: com configurações mais parrudas, o game é perceptivelmente mais bonito que no PS4 ou no Xbox One, principalmente nas situações fora da corrida. Elas vão desde os takes dos pilotos reais dando entrevistas ou conversando com seus engenheiros até toda a movimentação nos boxes quando você para o carro, com membros da sua equipe colocando os cobertores nos pneus, outro segurando um circulador de ar perto de você.

É tudo muito orgânico, autêntico, e, graças à boa qualidade gráfica, ajuda a criar um ambiente mais fiel e imersivo para o jogador. Por outro lado, a modelagem dos pilotos, embora bonitas – dá para reconhecer todo mundo –, nos consoles parece ter saído de um jogo do início da geração passada. Os carros e as pistas, no entanto, estão muito bem-feitos e com grande riqueza nos detalhes.

Ainda assim, como citado anteriormente, o jogo apresenta eventuais quedas de frames em todas as plataformas. No Xbox One, especificamente, acontecem alguns casos de screen tearing e a taxa de quadros desce de forma ligeiramente mais frequente que no PS4, o que prejudica a jogabilidade principalmente durante as corridas – mas, de forma geral, o game roda suave.

Uma melhoria visual que veio no novo game é o sistema de danos: agora, se você fizer uma barbeiragem e enfiar seu carro no muro, a suspensão se quebra e é bem possível que você veja uma roda voando por aí. Os outros componentes também reagem de forma bem convincente aos danos, como é o caso do spoiler dianteiro e dos pneus que podem furar se você abusar dos contatos com seus adversários.

O espetáculo de correr na F1

Até agora você já sabe que o modo carreira é sensacional, que o jogo está bem bonito, soa bem, tem uma jogabilidade democrática e tudo mais... Mas e as corridas?

Pois bem: F1 2016 coloca à sua disposição as 21 pistas do calendário anual da Fórmula 1, incluindo o circuito de rua em Baku, no Azerbaijão, que estreou neste ano como o Grande Prêmio da Europa. Todas as escuderias também estão lá, desde a dominante Mercedes – que é realmente dominante – até a novata norte-americana HAAS.

O jogo trouxe de volta o Safety Car tanto na forma física, com a Mercedes AMG GT entrando na pista em caso de acidente e andando junto dos fórmulas, segurando os motores turbinados rosnando incansavelmente querendo acelerar de novo, quanto na virtual, que estabelece um limite de velocidade em determinadas partes do circuito. Tudo serve para tornar toda a ambientação e experiência geral do jogador algo ainda mais espetacular e fiel.

Além disso, o game trouxe três funcionalidades para quem buscava mais fidelidade nas corridas: controle do carro na volta de apresentação, para que você aqueça seus pneus e freios antes de alinhar no grid; largadas manuais, nas quais você deve segurar a embreagem (o botão de mudança de marcha), encontrar a rotação ideal e tentar conseguir uma vantagem logo na saída; e a entrada manual nos boxes, que exige que você controle sua velocidade antes da linha para os pitstops.

Falando nos pits, Jeff, seu engenheiro, continua firme e forte te passando informações pelo rádio, seja de forma ativa ou quando você solicita – o que pode ser feito através de uma combinação de comandos ou então, caso você tenha um microfone, via voz. O sistema se confunde algumas vezes, mas de forma geral funciona muito bem, inclusive pra detectar um “Cala boca, Jeff”, no melhor estilo Kimi Raikkonen de ser.

Multijogador competitivo – mas apenas online

Um dos aspectos que pode desagradar um pouco os jogadores mais casuais é que, infelizmente, F1 2016 só dispões de modos multijogadores online. O motivo para isso pode ser puramente especulativo: já que o jogo é bem polido graficamente, talvez haja uma certa limitação técnica para colocar tantos carros na pista em uma tela dividida.

Por outro lado, os jogadores que estão mais interessados no lado competitivo do game poderão se beneficiar: além das corridas rápidas que você pode acessar, a volta do Campeonato Online permite que você crie um calendário completo e organize um campeonato online, com uma pontuação que segue a tabela da Fórmula 1 de verdade.

A experiência definitiva em termos de F1

Não há qualquer dúvida de que F1 2016 se beneficiou de uma excelente base em que foi criada em seu antecessor, mas, ainda assim, a sensação é de que ele é um game infinitamente melhor: ele é mais denso, tem mais personalidade e envolve o jogador como poucos jogos de corrida ou de esporte no geral conseguem fazer.

É lógico que ele tem suas escorregadas, principalmente na parte técnica, mas são problemas que podem ser resolvidos com certa facilidade no futuro e não tiram o brilho do que a Codemasters conseguiu fazer neste título – algo que faz com que seja difícil não falar de forma passional a respeito.

Sendo assim, ao mesmo tempo que fiquei maravilhado, também fiquei apreensivo e ansioso. Com um jogo tão bom nas mãos, qual será o futuro da franquia? A fórmula de F1 2016 agora só pode ser melhorada nos detalhes: é um jogo lindo, com uma estrutura de modo carreira completa, como poucos jogos oferecem, além da ambientação densa e jogabilidade que pode ser amigável para os novatos e desafiadora para os experientes. Talvez um sistema de patrocinadores para o piloto no modo carreira, a volta de um modo histórico... Mas qual será de fato o próximo passo?

Honestamente, essa é uma resposta que eu não tenho agora – nem quero ter, porque o que importa mesmo é que percebi que nós que gostamos de automobilismo finalmente, depois de tantos anos de abstinência, recebemos o jogo de F1 que merecemos: o melhor jogo de F1 de todos os tempos e um dos melhores jogos de corrida dos últimos anos (pelo menos até agora).