Fight Night encontra o lado humano do boxe

O boxe é um filho legítimo do showbizz. Afinal, há lutas, bravatas, controvérsias — como orelhas retalhadas — e muito dinheiro rolando. Tudo o que define perfeitamente o apelo de algo produzido pela indústria cultural. Quanto à série Fight Night? Um retrato fiel desse cenário, composto por todos os lutadores que ocupam os holofotes e dotado de um realismo sem precedentes para o estilo.

Mas algo parecia faltar, e a Electronic Arts sabia disso. Notadamente, faltava um pouco daquele elemento humano que se pode encontrar nos bastidores, um pouco daquele sentimento intenso de viver no limite, constantemente arremessado entre as contingências de uma carreira incrivelmente incerta e curta. Senão, basta conferir películas como “O Vencedor”, “Ali”, “A Menina de Ouro” ou ainda o clássico incontestável “Rocky: Um Lutador”.

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Dessa forma, a fim de tornar o retrato fornecido por Fight Nithe ainda mais fidedigno, a EA acrescentou um típico dramalhão baseado na história de vida de um lutador. Com todos os clichês típicos de histórias do gênero — ascensão, queda e renascimento — saltando à vista em algum momento... Mas quer saber? A decisão não poderia ter sido mais acertada.

Afinal, mesmo com gráficos que flertam fortemente com a realidade, Fight Night andava se repetindo há algum tempo. Isso faz da inclusão de um modo história algo não apenas de bom gosto, mas também bastante necessário, na medida em que confere um sentido para o que antes era apenas uma série infindável de combates.

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Só que Fight Night Champions não se limita a contar histórias. Fazendo jus ao seu legado sempre inovador, o título não apenas inclui novamente um respeitável rol de lutadores — cuja modelagem, como sempre, beira a perfeição —, mas também reelabora e simplifica mecânicas de combate e acrescenta novos níveis estratégicos.

Ok, mas isso não evita alguns deslizes, boa parte deles decorrente do próprio sucesso angariado pela franquia — o que provavelmente deixa a EA receosa quanto a mudanças mais profundas. Para citar alguns, há um modo carreira (Legacy) completamente inexpressivo... E também certa dupla de narradores que, francamente, deveria ter sido aposentada há um bom tempo. Vamos aos detalhes.

Fight Night Champions é uma evolução bastante natural da série da EA. Aqui, uma franquia que já possuía quase todos os méritos possíveis — sobretudo em quesitos técnicos — abraça agora o lado dramático e humano que sempre permeou um esporte tão controverso quanto o boxe. Treinadores, affairs, empresários inescrupulosos... Está tudo aqui, brilhantemente encaixado na história pessoal de Andre Bishop.

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Além disso, há os elementos que consagraram a franquia da Electronic Arts em toda a sua glória: movimentos e gráficos beirando a perfeição, movimentação fidedigna dos lutadores — sempre atentando para os seus estilos próprios, algo garantido pela excelente performance da inteligência artificial (I.A.) do game. Enfim, o que dizer? É Fight Night em sua melhor forma.

A fama tem sempre um preço

A inclusão de um modo história completo é provavelmente uma das melhores e mais expressivas adições de Fight Night Champion. Embora a experiência não seja realmente duradoura — apenas cinco ou seis horas de jogo —, acompanhar as desventuras do boxeador Andre Bishop não poderia ser mais satisfatória e relevante.

Basicamente, o modo Champion conseguiu conferir a Fight Night uma dimensão inteiramente inédita: pela primeira vez, as suas lutas terrivelmente realistas ganham um motivo para existir. Embora, em termos práticos, a coisa toda ainda se resolva entre uma batida e outra do gongo, há uma profusão de elementos dramáticos — muitos deles clichês prontamente reconhecíveis — capazes de conferir seriedade a cada soco que é disparado.

Em outras palavras, as lutas logo ganham um significado. Quer dizer, em vez de apenas selecionar dois boxeadores para começar a esfacelar botões, agora você também terá que nocautear um sujeito enorme que controla as coisas em uma prisão, ou ainda terá que abrir caminho através de lutas amadoras — o que acaba por intensificar o momento em que Bishop finalmente pisa no ringue para a sua primeira luta profissional.

Mas o drama de Andre Bishop não é contato somente através de belas animações. De fato, algumas reentrâncias da história do protagonista acabam influenciando diretamente a jogabilidade de Fight Night Champion. Andre lesionou a mão direita durante uma luta? Prepare-se para encarar a próxima como um lutador canhoto. É necessário chamar a atenção do mundo do boxe? Então uma vitória por pontos não será suficiente: o adversário deve ser nocauteado.

Reformulando o que já era bom

No que se refere à precisão e à simulação, o sistema de jogabilidade inaugurado por Fight Night pode ser considerado quase perfeito. Sim, quase, já que alguns movimentos — coisas como a meia-lua necessária para se disparar um gancho — eram desnecessariamente complexos.

Ponto positivo para EA, portanto. Fight Night Champions consegue deixar de lado os movimentos mais complicados ao mesmo tempo em que traz uma jogabilidade ainda bastante fiel ao legado da série. Dessa forma, vão-se os movimentos geométricos do direcional analógico, que agora dispara um golpe diferente para cada uma das direções possíveis — sem firulas adicionais.

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Essa simplicidade consegue ainda um resultado menos óbvio a princípio: como você não terá mais que se preocupar em executar movimentos escabrosos corretamente, o foco da luta recai necessariamente sobre a movimentação estratégica do lutador. É claro que uma sucessão de golpes impensados ainda é possível... Mas isso provavelmente vai exaurir o seu lutador, que acabará beijando a lona em pouquíssimo tempo.

Ademais, há um sistema de vigor (stamina) muito mais sofisticado, e os bloqueios estão, sem dúvida, muito mais responsivos.

Nocaute instantâneo

Img_normalSe o seu estilo em Fight Night lembra uma metralhadora de socos com pouca ou nenhuma precisão — do tipo que espera que, em algum momento, o adversário vá tombar —, é melhor tirar o cavalinho da chuva.

Fight Night Champions é bem menos condescendente com jogadores desprovidos de tática. Basicamente, agora um único soco bem dado pode mandá-lo definitivamente para a lona. Trata-se dos “flash knockouts”.

É verdade que a ameaça de beijar a lona com um único golpe não é propriamente uma novidade na série. Entretanto, é a primeira vez que você pode ser despachado inconsciente de uma luta após um único golpe bem dado. Novamente, ponto para a estratégia de Fight Night Champions.

Inteligência artificial ou natural?

Eis um elogio que não se pode fazer a muitos jogos. A inteligência artificial (I.A.) de Fight Night Champions é realmente competente. De fato, cada um dos lutadores aqui pode ser facilmente reconhecido por seu estilo característico: Muhammad Ali é mais tático, Mike Tyson é uma máquina de destruição e por aí vai.

Mas não fica só nisso. Independentemente da identidade do seu adversário, você pode ter uma certeza: ele reagirá como um ser humano. Quer dizer, caso a luta esteja em seu sétimo round e o sujeito perceba que está com menos pontos, é natural que ele se torne mais agressivo. Por outro lado, um corte no supercilho vai colocá-lo na defensiva.

É claro que, eventualmente, é possível encontrar equívocos nos movimentos da inteligência artificial. A pergunta é: isso torna a coisa toda menos ou mais humana?

Sangue, inchaços e um espetáculo gráfico

É realmente difícil deixar de se impressionar com a qualidade gráfica de Fight Night Champions — algo perfeitamente de acordo com o legado da franquia. Desde as texturas e expressões faciais até os movimentos do tecido dos calções, o que se tem aqui é um dos jogos mais incrivelmente realistas da atual geração de consoles.

Com direito a alguns requintes. Em certos momentos, o jogo fará um replay em câmera lenta de cenas particularmente intensas, e é realmente impressionante acompanhar os movimentos musculares de ambos os lutadores — com direito a ondulações na face do lutador menos afortunado.

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Ademais, o chão é constantemente banhado por gotículas de sangue, socos bem encaixados deixam inchaços de acordo e o cansaço deixado por vários rounds consecutivos se torna evidente nos movimentos e na aparência geral dos lutadores.

Jogatina online

Embora o modo carreira de Fight Night Champion deixe um pouco a desejar (conforme se verá adiante), há aqui algumas boas possibilidades online. Basicamente, você pode criar o seu próprio ginásio, que poderá receber também outros lutadores — formando uma espécie de clã de boxeadores. Também existem torneios e eventos. Enfim, uma boa pedida, sobretudo para quem prefere combates de carne e ossos em vez das (boas) simulações criadas pelo jogo.

Modo carreira descartável

É verdade que há todo um clima de inovação permeando a maior parte das possibilidades de Fight Night Champions. Só que não se pode dizer o mesmo do seu modo carreira aqui.

Basicamente, trata-se do mesmo modo encontrado em Fight Night Round 4, embora aqui existam necessidades econômicas. Você pagará para treinar em ginásios melhores, colocará a sua carreira para andar utilizando dinheiro de patrocinadores... Mas não vai muito além disso.

O que resta é o mesmo modo sem muita substância e, em última análise, bastante descartável. Se não, basta conferir o desempenho do seu lutador personalizado. Inicialmente, a sua criação lembrará um cágado que, eventualmente, encontrou luvas de boxe: sem velocidade, sem precisão. Como alguém assim conseguiria subir em uma carreira de boxe? Enfim, salvo por um ou outro ponto alto, o resultado é algo perfeitamente evitável.

Sai, juiz!

Parece pouca coisa, mas com o tempo acaba realmente cansando: o juiz tem aqui o péssimo hábito de se colocar entre você e a câmera. Embora a câmera, de forma geral, faça um bom trabalho, é realmente desconcertante ser nocauteado porque o juiz tapou a visão do adversário.

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Joe Tessitore e Teddy Atlas... Novamente?!

Absolutamente nada contra a narração e os comentários de Joe Tessitore e Teddy Atlas. Afinal, trata-se já de uma tradição em Fight Night. Espere... Talvez seja exatamente esse o problema: ouvir as mesmas pessoas, com os mesmos diálogos, simplesmente não combina com o clima relativamente inovador de Fight Night Champions.

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