Análise de Game of Thrones - Episode 1: Iron From Ice

Começo incerto

Quando a Telltale anunciou que seria responsável por produzir uma série de jogos baseados em Game of Thrones, muitos fãs comemoraram. Afinal, a união entre o universo de Westeros e a maneira característica do estúdio de lidar com tramas complexas e personagens bem desenvolvidos parecia destinada a dar certo.

O primeiro episódio resultante dessa parceria, Iron From Ice, mostra que as expectativas estavam certas até determinado ponto. Claramente limitado pelo material que lhe serve como base, o capítulo é um bom entretenimento para quem segue religiosamente o seriado produzido pela HBO — mas pode decepcionar quem espera as mesmas reviravoltas e eventos surpreendentes que se tornaram algumas de suas principais qualidades.

Uma casa menor

Provando que é feito especialmente para quem acompanha a série da HBO (e está em dia com os episódios), Iron From Ice tem início durante o Casamento Vermelho — um dos episódios mais marcantes de toda a saga. Em nenhum momento o game dá ao jogador o contexto do que está acontecendo, partindo do pressuposto que ele já sabe tudo o que lhe espera.

Inicialmente, você controla Gared Tuttle, escudeiro da casa Forrester, que está a serviço de Rob Stark — algo que não é exatamente positivo devido ao contexto apresentado pela Telltale. Não demora muito até que o caos tome conta e você tenha que correr para salvar sua vida através dos quick times events que já se tornaram uma marca do estúdio.

Durante todo o episódio, o game se concentra em fazer você se importar com o destino de seus protagonistas, o que se mostra um tanto difícil. Afinal, em um universo com figuras como os Lannisters, os Stark e Ramsay Snow, é um tanto complicado ligar muito para o que acontece com uma casa que sequer é citada na série televisiva.

Felizmente, o roteiro criado pela Telltale consegue fazer com que o jogador se importe com os personagens apresentados em tela, mesmo que o contexto político ao qual eles estão atrelados pareça pouco relevante. Durante o capítulo, é fácil notar que, por mais que os escritores do estúdio se provem talentosos, o fato de eles terem que respeitar um material-base muito bem definido atrapalha um pouco o que eles podem fazer.

Material-base limitante

Além de Gared, Iron From Ice nos coloca no controle de Ethan, o jovem herdeiro da casa Forrester que é destinado a comandá-la apesar de sua pouca idade, e de sua irmã Mira, que serve a Margaery Tyrell em Porto Real. Ao contrário do que acontece com Tales from the Borderlands, os diferentes pontos de vista não servem para mostrar os mesmos eventos da história sob pontos de vista distintos, mas sim para permitir que a trama se mova.

Durante muitos momentos, é fácil pensar que estamos assistindo a um episódio criado pela HBO, algo que só é quebrado quando é necessário interagir com algum elemento do cenário ou responder a algum diálogo. A presença de figuras conhecidas como Tyrion, Cersei e a já mencionada Margaery ajudam a reforçar essa impressão, ao mesmo tempo em que evidenciam que estamos lidando com um produto licenciado.

E é justamente a presença dessas figuras conhecidas que ajudam a lembrar que, em um plano geral, o que acontece com os personagens criados pela Telltale é um tanto irrelevante. Ao interagir com os Lannisters, por exemplo — e sabendo o que acontece com cada um deles —, é difícil acreditar que eles realmente teriam tempo para lidar com uma servente pertencente a uma pequena casa das terras do Norte.

Graças a isso, a trama só tem a oportunidade de brilhar quando se distancia um pouco do material-base em que se inspira e nos mostra personagens totalmente inéditos. O único elemento da série televisiva cuja presença não causa incômodo é Ramsay Snow, bastardo de Roose Bolton cuja visita ao domínio dos Forresters é uma ameaça que o jogador sente crescer conforme avança no capítulo.

O momento da trama em que a Telltale mais parece confortável acontece durante os momentos em que você se prepara para essa visita. No comando de Ethan, cabe a você conversar com alguns de seus conselheiros e observar um pouco da vida da comunidade a seu redor. Sem os grilhões impostos pela adaptação da HBO, esse momento permite que o jogador passe a simpatizar com o jovem, seus companheiros e, finalmente, com a situação que ameaça a segurança do local.

Embora pareça estranho reclamar que um jogo licenciado tem como defeito o fato de apresentar personagens conhecidos, fato é que eles se mostram o principal limitador com a qual a Telltale tem que lidar. A insistência do estúdio de mostrar ou fazer referências a figuras conhecidas limita possibilidades e faz com que o capítulo tenha um ritmo errático — afinal, o estúdio precisa justificar o fato de ter empregado o talento vocal dos atores que fazem a série televisiva.

Fórmula voltada à história

Caso você já tenha jogado algum dos títulos recentes da Telltale, já sabe o que esperar de Game of Thrones – Episode 1: Iron From Ice em matéria de jogabilidade. Tal qual acontece no primeiro capítulo de Tales from the Borderlands, o estúdio parece ter reconhecido que sua fórmula tradicional funciona melhor quando auxilia a narrativa da história, o que se traduz em uma quantidade bastante reduzida de quebra-cabeças.

Embora bem-vinda, essa opção parece um tanto estranha quando levamos em consideração que muitos ambientes do jogo possuem itens que podem ser adicionados ao inventário de seu personagem. O fato de não utilizarmos nenhum deles durante toda a aventura pode indicar duas coisas: que eles vão cumprir um papel relevante no futuro ou que eles só foram deixados lá para cumprir convenções do gênero adventure.

Durante a maior parte do tempo, o jogador vai interagir com o universo criado pela Telltale através de diálogos — algo bastante propício a uma adaptação de Game of Thrones. E é justamente esse o ponto no qual a adaptação brilha, passando a mesma sensação de incerteza e tensão do show televisivo — reforçada pelo fato de você saber estar no controle de personagens que não possuem poder real sobre seus destinos.

É difícil não ficar com certo medo quando surge na tela a mensagem de que Cersei Lannister vai se lembrar muito bem do que você disse — algo que prenuncia desastres futuros — ou ao lidar com o psicopata Ramsay Snow. Seguindo a tradição do material tradicional, qualquer deslize pode — e vai — custar caro a seu personagem ou a alguém próximo a ele, o que torna o silêncio uma opção muito mais atraente do que em qualquer outro game do estúdio.

Vale a pena?

Game of Thrones – Episode 1: Iron from Ice é um game que funciona bem como adaptação, mas que falha um pouco por sua dependência do material em que se baseia. Ao contrário do que acontece em The Walking Dead ou Tales from the Borderlands, a Telltale se mostra um tanto presa à obrigatoriedade de mostrar figuras conhecidas, algo que contribui para o jogador se importar um pouco menos com o destino da casa Forrester.

Felizmente, em alguns momentos o título se afasta um pouco da Westeros como a conhecemos, o que permite criar certa identificação com os personagens controlados e com suas motivações. E são justamente essas horas que fazem você querer prosseguir na história — quando o jogador esquece o destino que aguarda os Stark remanescentes e a situação de Tyrion, finalmente é possível se importar com o destino de Ironwood e da fortaleza de Ironrath.

Como episódio inicial de uma série em seis capítulos, é compreensível que Iron from Ice tenha um ritmo lento e se preocupe mais em estabelecer um cenário do que em desenvolver realmente sua trama. No entanto, a maneira como isso é feito resulta em um game com um ritmo um tanto errático e que demora a fazer com que o jogador realmente se importe com o que acontece.

Ao menos até o momento, a Telltale conseguiu criar uma adaptação fiel ao universo em que se baseia e que respeita seu material de origem. E, justamente por isso, o estúdio não tem sua chance de brilhar realmente, surgindo de forma presa demais a convenções estabelecidas que atrapalham quesitos como desenvolvimento de enredo e o desenvolvimento de personagens.

A esperança é a de que o segundo capítulo da trama, que deve ser lançado em um futuro próximo, corrija esses erros e aposte menos na aparição gratuita de figuras conhecidas — algo que infelizmente não é muito provável de acontecer, vista a presença de Jon Snow no teaser da próxima parte.

Em resumo, Iron from Ice é um game agradável, mas que não se destaca em meio ao cada vez mais extenso catálogo do estúdio responsável por trazê-lo à vida. O título definitivamente agrada a quem é fã de Game of Thrones, mas deixa um pouco a dever a quem procura a mesma qualidade vista em títulos como The Walking Dead, Tales from the Borderlands e The Wolf Among Us.

75 pc
Bom
"Respeitando de maneira excessiva o material que lhe serve como fonte, Iron from Ice é um início conturbado para a série"

Pontos Positivos

  • Diálogos tensos e bem escritos
  • Fórmula da Telltale combina bem com o universo de Game of Thrones

Pontos Negativos

  • Dependência do material-fonte prejudica o desenvolvimento da história
  • Eventos que são irrelevantes para o contexto geral do mundo de Westeros
  • Presença de um sistema de inventário não faz muito sentido

Outras Plataformas

75 ps3
75 xbox-360
75 ps4
75 xbox-one