A morte guarda um dos melhores títulos do DS

“Game Over”. Se você é veterano nos mundos dos games, sabe que essa detestável frase significa que você morreu e que não há mais o que fazer a não ser voltar tudo e tentar novamente. Perder a última vida ou ver o esvaziamento da barra de energia só nos faz perguntar: a morte é realmente o fim?

Na maioria das vezes, sim, mas não em Ghost Trick: Phantom Detective. Tudo isso porque toda a ação tem início após o assassinato do protagonista. É a partir desse incidente que a trama se começa e traz uma corrida desesperada contra o tempo e repleta de puzzles divertidos e diálogos inteligentes.

Img_normalA fórmula utilizada agrada os fãs de outra franquia da Capcom para o portátil da Nintendo, já que a mesma equipe que criou o excelente Phoenix Wright é responsável por todo este novo projeto. O resultado, como não poderia ser diferente, é um dos melhores títulos do Nintendo DS e a primeira grande surpresa de 2011.

Descanse em paz

Como dito anteriormente, toda a história se inicia após o misterioso assassinato de Sissel, o personagem de cabelo pontudo e terno vermelho. Porém, em vez de simplesmente descansar e ir para o além, o protagonista percebe que ainda continua neste mundo, embora sem memórias e presenciando um novo homicídio.

É a partir desse momento que o herói percebe que morrer não foi algo tão ruim e que passar dessa para a melhor trouxe vários benefícios, como usar sua alma para transitar e interagir com objetos. No entanto, é a habilidade de entrar no corpo de alguém recém-morto e voltar no tempo para tentar salvar aquela vida que Sissel descobre ser sua mais valiosa arma.

Com isso, ele consegue evitar que grandes tragédias aconteçam, assim como descobrir um pouco mais sobre o que realmente ocorreu pouco antes de ser baleado. O problema é que isso faz com que o espírito e todas as pessoas que ele julga importante para a resolução desse caso pareçam estar envolvidos em uma grande conspiração, que é explicada aos poucos e faz com que o jogador fique preso nas telas do portátil por horas e horas.

É exatamente na história e nos diálogos que está o grande destaque de Ghost Trick: Phantom Detective. Assim como vimos diversas vezes na série Phoenix Wright, temos uma ótima combinação de situações cômicas com momentos intrigantes, o que torna a grande quantidade de diálogos apenas um pequeno detalhe.

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Ghost Trick: Phantom Detective não é apenas um dos melhores lançamentos do ano para o Nintendo DS, mas de toda a história do portátil. Da mesma forma com que fez com Phoenix Wright, a Capcom conseguiu se superar e criar mais um grande clássico para o console.

Mesmo com suas falhas – que não trazem sérios problemas em momento algum –, a aventura espiritual é extremamente divertida e consegue encantar do início ao fim da história. A jogabilidade única e os quebra-cabeças originais também fazem do título imperdível, assim como os carismáticos personagens.

Como já dissemos em nossas previsões sobre as maiores surpresas de 2011, o game já tinha um potencial enorme por conta de seu histórico, mas conseguiu superar todas as nossas expectativas. Além disso, apesar de ainda estarmos em janeiro, guarde bem o nome “Ghost Trick” e o característico rosto de Sissel, afinal, não é muito dizer que iremos revê-los durante as premiações de melhores do ano.

Viagem astral e desafios inteligentes

Se o personagem principal está morto, você deve estar se perguntando de que forma ele consegue se movimentar pelo cenário e acompanhar toda a narrativa. Em vez de colocar o espírito de Sissel como um fantasma que se movimenta livremente pelo ambiente, a solução utilizada pela Capcom foi simples: o herói só pode se alojar em objetos inanimados, interagindo com eles quando achar necessário.Img_normal

Essa restrição é bastante interessante, já que força o jogador a estudar toda a cena antes de sair pulando de peça em peça. Embora nem todos os itens possam ser utilizados, os que possuem essa opção oferecem quebra-cabeças realmente desafiadores e incrivelmente divertidos.

Um exemplo de quão bem esse recurso funciona pode ser visto já nos primeiros minutos de jogo, quando Sissel tem de evitar a morte de Lynne no ferro-velho. Logo após compreender o funcionamento de seus novos poderes, o personagem deve enviar sua alma até uma cancela e fazer com que ela atinja o assassino. Após isso, é preciso utilizar outros elementos para auxiliar na fuga da moça.

Img_normalIsso faz com que as soluções dos puzzles nunca sejam óbvias à primeira vista. Sempre há um detalhe ou acontecimento que faz com que você tenha de reestruturar toda sua estratégia e utilizar as novas opções sugeridas.

Tudo se torna ainda mais complicado e divertido quando a única solução é se alojar em algum acessório utilizado por um personagem em movimento, o que exige um timing perfeito entre a utilização do “Ghost World” – mundo dos espíritos, utilizado para Sissel poder se mover enquanto tudo está congelado – e de pequenas intervenções. No entanto, apesar de este sistema de interação quase simultânea parecer se algo difícil, bastam algumas tentativas para entender a lógica do quebra-cabeça.

Outro recurso bastante utilizado em toda a trama são as viagens por linhas telefônicas, consideradas a forma mais rápida de um espírito se locomover de um ponto a outro. No início, isso funciona apenas como um meio de transporte, mas as ligações se tornam peças-chave da resolução de vários outros desafios.

Alterando seu destino

Em sua busca por resposta, Sissel descobre que sua morte está relacionada a uma série de acontecimentos misteriosos que acontecem na cidade durante aquela noite. Por conta disso, além de seu próprio assassinato, o protagonista acaba encontrando várias outras vítimas de uma grande conspiração – pessoas que podem ter a resposta sobre seu passado.

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É aí que a mais valiosa habilidade do pós-mundo se vê necessária. Quando a alma do herói se abriga em um corpo recém-morto, o jogador pode voltar no tempo e presenciar os quatro últimos minutos de vida daquele indivíduo. Mais do que isso, Sissel agora pode interferir nos acontecimentos e alterar o destino de todos os envolvidos, ou seja, salvando aquela vida.

O problema é que você tem um tempo muito curto para resolver toda a situação, o que torna esses puzzles ainda mais complexos. Com a pressão do relógio na tela superior, você deve alterar o destino de todos os envolvidos e evitar que a catástrofe se repita.

Img_normalAlém disso, essas viagens no tempo servem para que o herói entenda um pouco mais sobre tudo o que está acontecendo. Como cada morte está interligada, esses quatro minutos apresentam novos detalhes do enredo e dão explicações sobre os acontecimentos, tornando a história mais densa.

Humor mórbido

Se você já jogou algum game da série Phoenix Wright, certamente sabe que a série é marcada por possuir histórias intrigantes e, ao mesmo tempo, repletas de diálogos engraçados. Os personagens também são icônicos, abusando de movimentos exagerados para tornar as longas falas menos maçantes.

Em Ghost Trick: Phantom Detective, nós vemos todas essas características se repetirem, mas de forma muito mais eficiente. Sissel, Lynne e companhia são figuras incrivelmente carismáticas e divertem do início ao fim do jogo. É impossível não rir dos trejeitos dos policiais ou das piadas sobre vida e morte.

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Os bate-papos extensos também estão presentes novamente, embora não soem tão cansativos quanto na franquia do advogado. O dinamismo oferecido pelo sistema da “Ghost World” ameniza esse ponto e torna a transição entre ação e diálogo bastante natural.

Além disso, ao contrário do que acontecia em Phoenix Wright, você não precisa ler as mesmas frases quando toma uma opção errada. Em vez de ouvir uma longa bronca pela decisão equivocada, um pequeno balão sobe na tela e fica a cargo do jogador ler ou não. Até mesmo as conversas obrigatórias podem ser puladas ao manter a stylus sobre a touchscreen por alguns segundos.

Um dos mais bonitos do DS

Img_normalem sombra de dúvidas, Ghost Trick é um dos títulos mais bonitos de toda a história do portátil da Nintendo. Apesar de não termos o hardware do DS indo ao seu limite, a combinação de gráficos simples e coloridos com uma arte muito bem feita funciona perfeitamente na proposta do game.

O contraste entre cenário e personagens chama muito a atenção. Logo na primeira cena, temos o escuro ferro-velho destacando o terno vermelho de Sissel e as roupas amarelas de Lynne. Até mesmo os vilões são sempre caracterizados pelo tom de pele azulado, o que chama sempre a atenção quando eles aparecem. O “Ghost World” também tem seu charme, já que temos uma nova perspectiva de nosso mundo.

A movimentação também flui de maneira excepcional. O mais divertido é que tudo é muito exagerado e cada pessoa possui uma característica única que cativa o jogador logo de início. É o caso do Inspetor Cabanela, que possui um andar todo coreografado que soa muito bem no console.

O grande mérito de Ghost Trick é não ser ambicioso. O game consegue criar um mundo repleto de detalhes e esteticamente belo, mas sem ir além do que o Nintendo DS suporta. Temos um cenário complemente rico, com vários elementos interativos e personagens que atuam de modo que soa natural. Os desenhos usados para representar as falas também são bastante variados e se destacam quando surgem, comprovando que a equipe da Capcom conseguiu ir além dos ótimos resultados obtidos em Phoenix Wright.

Um suspense policial

Como dissemos no início da análise, toda a trama de Ghost Trick se inicia com o assassinato de Sissel, que “acorda” em sua forma espiritual e completamente sem memória. A partir disso, ele tenta descobrir o que causou sua morte e acaba descobrindo que todos os acontecimentos daquela noite parecem estar ligados a uma conspiração internacional.

O roteiro pode parecer um daqueles clichês de filmes policiais, mas saiba que funciona muito bem no portátil. Além do já comentado bom humor nos diálogos, temos uma grande quantidade de revelações e reviravoltas que fazem o jogador pular da cadeira quando descobertas.

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O mais divertido dessa trama é que ela é completamente imprevisível. Apesar de tudo parecer óbvio à primeira vista, logo se descobre que aquela lógica anterior está completamente errada e que as coisas não são bem como parecem. Há também uma grande quantidade de locais e personagens que aparecem como figurantes em determinado ponto da história, mas que somente depois, descobrimos sua real importância.

Em outras palavras, nada em Ghost Trick: Phantom Detective está ali ao acaso. Como estamos falando de uma trama policial que envolve assassinatos, mistérios e conspirações, nada melhor do que termos nosso faro de investigador sendo aprimorado com um caso tão envolvente.

O caminho dos mortos

Como quase todo jogo de Nintendo DS, Ghost Trick não foi feito para ser jogado por várias horas seguidas. Isso é facilmente perceptível pela divisão em capítulos que a história toma e por um pequeno problema que isso traz para quem não conseguir largar o portátil.

Img_normalLembra-se de quando dissemos que a habilidade de voltar no tempo era a mais importante arma de Sissel para que ele descobrisse o que estava acontecendo na cidade e as circunstâncias de sua morte? Pois esse recurso é usado várias e várias vezes durante a história, o que se torna repetitivo quando você o vê durante a mesma rodada.

Para se ter uma ideia, praticamente em cada início de capítulo há alguém morto à espera de que uma boa alma – a sua, no caso – volte ao passado para alterar seu triste destino. Apesar de isso responder várias perguntas da trama, é inegável o cansaço que a mesma saída de situação causa quando explorada muitas vezes seguidas.

No entanto, que fique claro que isso não significa que o game em si é repetitivo. Os quebra-cabeças são bem variados e quase nunca possuem uma resolução semelhante à do anterior. O problema que apontamos é uma falha na narrativa que pode desanimar quem for jogar ininterruptamente. Se você jogar um episódio de cada vez, por exemplo, é possível que nem perceba essa deficiência.

Uma única solução

Novamente um detalhe que vai desagradar os jogadores mais viciados. Apesar de os puzzles serem muito criativos em Ghost Trick, isso não impede que eles possuam um pequeno problema: a solução única.

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Todos os desafios possuem apenas um tipo de resolução, ou seja, não há um incentivo que motive o game a revisitar a história uma segunda vez, já que todos os quebra-cabeças serão os mesmos. Isso não chega a atrapalhar a primeira experiência de maneira alguma, mas é triste saber que em tempos de lançamentos tão caros, este divertido caso vai ser arquivado em sua prateleira por um bom tempo.

94 ds
Excelente