Um título mediano que não lembra em nada o velho GoldenEye

Quem possui mais de 20 anos certamente se lembra da revolução que o lançamento de GoldenEye 007 causou entre os FPSs. Com uma jogabilidade acessível, o game conseguiu levar aos consoles a experiência dos tiros em primeira pessoa de maneira extremamente divertida.

Lançado em 1997, o jogo da Rare conseguiu criar um sistema multiplayer em que até quatro pessoas podiam jogar simultaneamente, além de inserir uma grande variedade de armas em cenários amplos e simples. O resultado foi um dos maiores sucessos do console, considerado até hoje como um dos melhores títulos do gênero.

Porém, o estúdio parece ter perdido a fórmula que fez com que a aventura de James Bond se tornasse memorável. Como nenhum outro game da franquia 007 conseguiu se sair tão bem, era óbvio que os fãs passaram a exigir a volta do agente secreto.

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É por isso que o anúncio do remake de GoldenEye 007 para Wii empolgou tanto. Com a impossibilidade de relançar o título original para o Virtual Console, a Nintendo aproveitou para adaptar todo o ambiente a um contexto mais atual. Apesar de inserir diversas novidades, a promessa da Big N era recriar o clássico sem macular o sucesso do passado.

O resultado, entretanto, é bastante contraditório. Ainda que o jogo possua diversos elementos idênticos à versão de 1997, é difícil reconhecê-los como a mesma proposta. Mudanças significativas na jogabilidade fazem com que as duas edições sejam completamente diferentes em certos aspectos.

Não que o game seja ruim, mas o fantasma da versão para o Nintendo 64 insiste que façamos comparações e percebamos que o novo GoldenEye 007 não é a pérola nostálgica que a Activision Blizzard prometeu. Em alguns momentos conseguimos identificar vários elementos do clássico, porém em outros parece que estamos vendo algo totalmente inédito e diferente.

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É caso do o multiplayer, responsável pela maioria dos elogios da edição anterior, mas que aqui recebe ajustes que o descaracterizam completamente. Ao mesmo tempo em que isso traz inovações ao título, decepciona quem esperava reviver as experiências da infância.

Isso não faz com que ele seja um game ruim. As adições e melhorias são interessantes e renovam a diversão, além de atualizar as tecnologias utilizadas pelo agente. O uso do Wii Remote também eleva a jogabilidade a um novo patamar, tornando as partidas muito mais divertidas, principalmente no modo online.

Img_normalComo dito no início da análise, o maior problema de GoldenEye 007 é o fantasma do antigo game. Ainda que ele possua vários elementos do original e algumas novidades realmente interessantes, é impossível não compará-lo com o título da década passada.

Isso se torna ainda mais evidente quando entramos no modo multiplayer e vemos que a maioria dos elementos que tornaram o jogo em um clássico não está presente. A tentativa de adicionar mecânicas utilizadas por FPSs atuais não funciona tão bem, principalmente para quem esperava um game que reproduzisse as experiências da versão anterior.

Para quem for olhar para o GoldenEye 007 como um jogo completamente novo,  vai perceber que se trata de um título mediano e que não acrescenta nada ao gênero. Com tantos bons jogos de tiro, como Call of Duty e Halo, a nova aventura de James Bond é apenas mais uma opção entre tantas. Já para quem quer reviver a jogabilidade do clássico, melhor investir o dinheiro em um Nintendo 64.

Revisitando as velhas missões

Lembra-se da primeira missão, em que era preciso invadir uma represa e fugir de paraquedas? E da clássica fase do banheiro, em que James Bond matava um soldado russo que lia um jornal? Pois tudo isso está novamente presente em GoldenEye 007.

Quando a Activision Blizzard anunciou que o remake seria totalmente fiel ao original, muitos fãs comemoraram. Como a experiência oferecida no Nintendo 64 era fantástica tanto no single playerquanto no multiplayer, era essencial para a nova desenvolvedora manter esses elementos intactos.

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Isso é perceptível já nos primeiros minutos. A apresentação do nível inicial, com suas tomadas de câmera aéreas, os objetivos e design dos locais são idênticos ao game de 97. É claro que existem algumas alterações, principalmente por conta das novidades inseridas pelo estúdio, mas o básico está ali para que os jogadores sintam toda a nostalgia bater à porta.

Ainda que o grande destaque seja o respeito com o título original, há algumas diferenças que podem incomodar os fãs mais conservadores. É o caso da presença de Alec Trevelyan, o Agente 006, que colabora com Bond em um primeiro momento para realizar determinadas tarefas.

Por mais que ele não esteja presente no primeiro GoldenEye, ele é essencial para concluir os primeiros objetivos e também dá uma mãozinha na hora de derrubar alguns inimigos. Além disso, é preciso lembrar que o James Bond interpretado por Daniel Craig está em início de carreira, o que explica a ajuda de um espião mais experiente para ensiná-lo os primeiros passos.

O mesmo pode ser dito em relação aos equipamentos do herói. Como há um espaço de tempo de 13 anos entre os dois lançamentos, faz sentido vermos um 007 com acessórios tecnologicamente avançados. Portanto, esqueça o relógio que destruía tudo. Na nova versão, seu melhor amigo será um smartphone, que além de ajudá-lo a entrar em contato com a base, vai ser fundamental para alcançar determinados objetivos.

Nova jogabilidade

O principal medo dos jogadores não era somente na recriação dos cenários. Mesmo que isso seja fundamental para ambientar o título, a maior preocupação estava em saber o quão fiel seria o sistema de controles e a mecânica de jogo o novo 007. A jogabilidade sempre foi a alma de GoldenEye, então nada mais justo do que esperar algo que honrasse o clássico.

Devido às diferenças entre o Nintendo 64 e o Wii, era óbvio que encontraríamos algumas mudanças bastante significativas. A boa notícia é que elas vieram para melhorar e tornar as partidas muito mais divertidas.

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A principal novidade está na utilização do Wii Remote e do Nunchuck como armas. Apesar de ser um pouco confuso para quem não está habituado a usar os controles para mirar na tela, bastam alguns minutos para pegar o jeito e empunhá-los como se realmente estivesse segurando uma pistola.

Esse novo modo é muito mais intuitivo, principalmente nos combates contra múltiplos inimigos. Mirar e movimentar-se pelo cenário também são facilitados, principalmente pelo uso dos dois joysticks simultaneamente.

Jogadores menos experientes e com dificuldades em estabilizar o alvo na tela podem escolher os modos que facilitam o uso do controle e tornam o sistema praticamente automático. Da mesma forma, os mais experientes podem aumentar a dificuldade ao elevar a sensibilidade.

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Quem possui um joystick clássico ou um Wii Zapper, acessório que acopla Wii Remote e Nunchuck para transformá-los em uma arma, pode utilizá-los. Porém, eles não essenciais e sua ausência não atrapalha durante as missões.

Nem tudo é reciclagem

A Activion fez um ótimo trabalho em reconstruir o título do Nintendo 64 sem alterar as bases que fundamentam a história, assim como conseguiu adicionar novos recursos sem causar estranhamento aos fãs do título. Da mesma forma vista nos filmes, o James Bond de Daniel Craig está muito mais ágil e ousado em relação aos demais agentes. E isso pode ser visto nas fases.

No game original, era praticamente impossível superar pequenos obstáculos do cenário. Muretas e plataformas, por exemplo, tinham de ser contornadas para que o herói conseguisse chegar ao outro lado. No novo GoldenEye 007, ele simplesmente ignora o perigo e salta qualquer barreira.

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Pode parecer um pequeno detalhe, mas faz muita diferença, principalmente no multiplayer. O novo recurso permite a realização de ações mais estratégicas, como um ataque surpresa que pegue o inimigo pelas costas ou uma fuga de níveis elevados.

O mesmo pode ser dito da disparada que o agente pode fazer em alguns momentos. O adversário está perto ou uma granada caiu ao seu lado? A possibilidade de correr torna tudo ainda mais dinâmico, o que também pode ser usado para desviar de tiros ou procurar um abrigo. Ainda que os jogadores mais tradicionais reclamem do James Bond mais atlético, essas duas habilidades são incrivelmente úteis no calor da batalha.

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Outra novidade inserida que vai ajudar muitos jogadores durante as missões single player são as interações com o cenário. Você pode explodir o barco russo que se aproxima antes que os soldados comessem a atacá-lo, do mesmo modo em que deve explodir um caminhão que tenta impedir seu avanço no primeiro nível. Apesar de ser algo bem corriqueiro nos FPSs atuais, nada disso estava presente no GoldenEye 007 original.

Uma guerra online

A versão de 1997 fez um enorme sucesso ao colocar quatro jogadores em cena para disputar um acirrado modo multiplayer. O que dizer, então, do novo game, em que até oito jogadores podem competir online?

Ainda que a mecânica seja relativamente diferente do clássico, é inegável que esse recurso era um dos mais esperados pelos fãs do título. A possibilidade de reunir outros gamers de outras localidades era algo que a geração do Nintendo 64 jamais sonhou, mas que é totalmente possível no Wii.

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A vocação do antigo GoldenEye 007 para partidas online sempre foi evidente, principalmente por conta dos diversos modos oferecidos. No remake, isso se torna ainda mais visível. Alguns estilos são comuns à maioria dos jogos do gênero, como o famoso “cada um por si”, aqui chamado de Conflict, enquanto outros são característicos de James Bond.

O maior exemplo disso é o modo Golden Gun. Quem não se lembra da pequena pistola dourada capaz de matar qualquer pessoa com apenas um disparo? Ela está novamente presente e traz um dinamismo maior às campanhas, principalmente por uma morte causada por ela valer cinco vezes mais do que uma comum.

Além disso, o novo GoldenEye também se apropria de alguns elementos de outros FPSs, como o sistema de níveis. A cada inimigo derrotado, você ganha uma quantidade de experiência, que faz com que você evolua e receba novas armas e equipamentos. Isso torna a progressão do jogador muito mais evidente e perceptível nas batalhas.

Evolução visual

Img_normalOs gráficos de GoldenEye 007 estão longe de serem os mais bonitos do Wii. Porém, mesmo com as limitações do console, o resultado final é bastante agradável e pode surpreender quem esperava encontrar o velho “lápis” no papel de AK-47.

O maior destaque visual está na construção das fases, que estão bem bonitas. Cenários mais amplos, como o nível da represa, trazem uma visão bastante completa do ambiente. Além disso, efeitos adicionais de chuva fazem com que a queda de quadros por segundos seja pouco perceptível e, portanto, não atrapalhe a diversão.

A própria modelagem dos personagens também é fiel à realidade, principalmente levando-se em conta a capacidade da plataforma. O rosto de Daniel Craig, por exemplo, está bem próximo do real (não que isso seja algo muito positivo, sejamos francos). O mesmo acontece com os personagens coadjuvantes, embora cheios de serrilhados e polígonos. A única ressalva é em relação aos soldados inimigos, que têm a mesma cara.

Cadê o velho multiplayer?

Se sua esperança ao comprar o jogo é chamar os amigos para reviver as tardes em que passavam jogando GoldenEye 007 depois da escola, sinto informar que a decepção vai ser grande. Praticamente todos os elementos do multiplayer local foram alterados a ponto de se tornarem irreconhecíveis.

A começar pela mecânica de jogo. No game original, o jogador escolhia um pacote de armas, que ficavam espalhadas pela fase. Isso fazia com que houvesse uma grande variedade de pistolas e metralhadoras a serem encontradas, assim como munição para as horas de emergência.

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Isso tornava as partidas muito mais competitivas, pois os personagens podiam encontrar uma bazuca realmente devastadora a qualquer momento e virar o placar. Porém, a nova versão traz um sistema muito mais limitado.

Ao início da rodada, cada jogador seleciona duas opções de armas. E só. Não há itens extras nos estágios, nem caixas com mais balas. Você deve se virar somente com aquilo que escolheu ou morrer para recuperá-los. Também é possível pegar os acessórios de um inimigo abatido, mas como só é possível andar com dois equipamentos, é preciso abrir mão de um dos seus.

Apesar de este sistema restritivo ser utilizado em outros FPSs, ele não faz parte da essência de GoldenEye 007. Como dito anteriormente, foi a mecânica simples e diversificada que tornou a aventura de James Bond em um sucesso no Nintendo 64. Já no Wii, o básico parece não ter sido respeitado.

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Os níveis também deixam a desejar, já que estão bem menores. Por mais que o nível de detalhes tenha aumentado, o que oferece possibilidades para emboscadas, o tamanho diminuto em relação ao original incomoda tanto quem busca reviver o clássico quanto quem quer jogar online.

O maior exemplo disso é o nível “Facility”, o famoso estágio do banheiro. Todo o complexo industrial (o que incluía os sanitários) foi reduzido a uma sala com materiais químicos. Agora imagine colocar oito pessoas aí.

Isso é bom por um lado, pois torna as partidas muito mais frenéticas. Por outro lado, você já ressurge em cena ao lado do inimigo, sem tempo de resposta. Durante nossos testes, não foram poucas as vezes em que renascemos para sermos mortos no instante seguinte.

007 contra terrível Dr. Bug

Lembra-se de quando falamos que os gráficos de GoldenEye 007 estavam bonitos, levando em conta o baixo potencial do Wii? Ainda que seja verdade, isso não impede o game de apresentar falhas bastante grotescas na construção dos ambientes.

A quantidade de bugs não chega a ser exagerada, mas alguns realmente complicam a jogabilidade e podem fazê-lo andar em círculos por alguns minutos na fase em busca de uma solução que deveria ser óbvia. O maior exemplo disso é o caminhão da primeira fase, que simplesmente desaparece. A única indicação de que o veículo está ali é a porta flutuante e o misterioso para-choque voador.

James Bond e o Wii 64

Boa parte das críticas feitas ao novo GoldenEye são comparações em relação ao jogo original. Como a Activision se propôs a criar algo fiel, era óbvio que os jogadores estariam esperando algo realmente próximo do clássico. Mas precisava refazer as limitações do Nintendo 64?

Há duas gerações, os consoles não tinham capacidade para manter uma grande quantidade de elementos na tela com os gráficos tridimensionais. Por conta disso, inimigos abatidos desapareciam e pequenos detalhes do cenário não eram exibidos.

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Por mais que o Wii seja o mais fraco das plataformas atuais, ele é completamente capaz de suportar esses elementos. Então por que os soldados derrotados continuam a sumir e as marcas de tiro nas paredes nem sequer aparecem?

São pequenos elementos que não interferem na jogabilidade, mas deixam a desejar. Se a proposta era renovar o clássico, o ideal era que houvesse uma evolução também nesse aspecto a fim de deixar o título tecnicamente atual.

70 wii
Bom