Guitar Hero finalmente acerta o passo com a concorrência.

O maior sonho de qualquer empresa que se propõe a jogar um produto no mercado naturalmente é o monopólio. Lançar algo novo e chamativo que, se por um lado vai chamar a atenção do público, por outro não vai ter que arcar com nenhum critério de comparação, simplesmente porque não existe nada similar.

Bem, embora esse não seja exatamente o caso da pioneira série “Simon disse” da Activision — convenhamos que Guitar Hero apenas trouxe mais popularidade para um estilo que já havia nascido há algum tempo —, as coisas eram sim mais fáceis no início. Quer dizer, o primeiro título da série, lançado para o PS2, cometia sim os seus deslizes... mas e daí? Você podia se juntar com um amigo para tocar alguns dos maiores clássicos do rock com uma injeção instantânea de estrelato. E isso era ótimo.

Zakk Ogro Wylde. Uma das participações especiais em World Tour.

Entretanto, toda exclusividade — especialmente quando traz algo realmente promissor — tem o seu prezo de validade. Outro concorrente surgiria no nicho até então seguro de Guitar Hero. Rock Band trazia pela primeira vez a possibilidade de se ter na sala de casa uma banda completa, armada até os dentes com o que havia de melhor em termos de “instrumentos de botões coloridos”.

Bem, a concorrência passou a ser ferrenha. Em primeiro lugar, a existência de Rock Band deixou algo bem claro: para que Guitar Hero continuasse a existir, a série deveria abarcar também uma banda completa. Afinal, até o lançamento de World Tour, isso já havia sido feito duas vezes pela concorrência, sempre com um ótimo feedback do público.

Apenas acertando o passo. Sem maiores revoluções. Assim sendo, no frigir dos ovos, o cenário que esperou a chegada de WT era sim muito mais exigente. Basicamente, não bastava que a franquia simplesmente se igualasse em recursos ao seu concorrente; deveria sim trazer algo novo. E trouxe, bem ou mal.

Além de levar também uma turba de músicos oportunistas para pular, “cantar”, tocar e suar embalada por sons que vão desde “Stillborn” (Black Label Society) até a clássica “On The Road Again” do eterno Willie Nelson, um grande diferencial foi bastante esperado: a possibilidade de transformar os “músicos-em-potencial” da série em “compositores em potencial” através de um semi-completo estúdio de música.

Bem, essas e outras inovações sem dúvida alavancam Guitar Hero para um novo nível de possibilidades. Mas será que o gênero de jogos rítmicos realmente ganhou com a mais nova iteração trazida pela Activicion? Vamos aos fatos.

Jogando o novo Guitar Hero Coletivo


É inegável. Embora não seja propriamente original, uma das melhorias mais chamativas em World Tour é sim o fato de a franquia ter acertado o passo com a concorrência. Agora você não só vai poder tocar com bandas completas na sala da sua casa — embora, infelizmente, sem máquina de gelo seco e jogo de luzes, uma exclusividades excêntrica do adversário — como também vai poder tocar as mais de 80 faixas (bastante ecléticas) do jogo com qualquer ilustre desconhecido rede a fora.

É isso aí, GH com uma banda completa.

Quer dizer, nada mais revigorante do que se juntar a um grupo de pseudo-músicos offline ou online para tentar uma rápida ascensão aos holofotes. Isso sem dúvida era algo que faltava. Entretanto, convenhamos, isso já foi feito por Rock Band. É bom, mas não é realmente um diferencial. Mas, enfim, foi incorporado e isso certamente é ótimo.

O modo carreira (career mode) de WT funciona basicamente como nos títulos anteriores. Você vai tocar uma série de música para então poder liberar outra série de música, comprar novos instrumentos, roupas e acessórios.  A diferença é que agora os shows e os seus respectivos setlist podem ser livremente escolhidos. Não obstante, o modo é ainda bastante linear.

Existe ainda uma boa novidade para os iniciantes. Trata-se do inédito “Beginner Level” (nível iniciante), onde pouco mais do que o ritmo é exigido — sem a necessidade de se tocar notas específicas, ou bater em uma ou outra estrutura única da bateria. Tendo ritmo, você se sai bem (no caso do microfone, basta cantarolar qualquer coisa). Do contrário, talvez a idéia seja voltar pra Gears of War 2 ou Call of Duty 4.

Personalização e personas ilustres

E, por falar em liberdade, em WT o seu avatar poderá ser qualquer coisa entre contido, extravagante, ambíguo (para não dizer outra coisa) e mesmo completamente ridículo. São diversas formas de personalização, incluindo desde acessório, roupas e tatuagens até o própria fisionomia do personagem. Isso sem falar nos acabamentos do próprio instrumento. De fato, vale a pena dar uma olhada em “Create a Rocker” antes de simplesmente escolher um dos modelos prontos.


Como uma (ótima) perfumaria, WT ainda traz vários “rockers” conhecidos em suas versões digitais. Pela primeira vez você vai ver o próprio Hendrix empunhando a sua surrada Fender Stratocaster, e ainda vai ver no mesmo palco o já quase mumificado Ozzy Osborune juntamente com o seu guitarrista de longa data e ogro Zakk Wylde (formador do Black Label Society, que assina a ótima Stillborn, presente no jogo).

Comprar ou não comprar o pacote completo?

A nova barra de slides traz uma nova dimensão à jogabilidade. Bem, antes de tudo, você terá uma decisão pela frente: comprar a versão completa (incluindo guitarra, bateria e microfone) ou optar por continuar utilizando aqueles seus instrumentos surrados de Rock Band ou das versões anteriores de GH. Falando francamente: os instrumentos de World Tour não representam nem de longe um salto de qualidade.

Vale lembrar que as primeiras baterias produzidas apresentam alguns pequenos problemas de sensibilidade: os chimbais/pratos podiam ser sensíveis demais ou de menos, e o pedal de bumbo não tinha exatamente um desempenho exemplar. A bateria testada pelo Baixaki Jogos realmente não apresentou um funcionamento fora do normal, mas, mesmo assim, fica aí o lembrete.

Um inconveniente na hora de controlar a cozinha da banda: para disparar os especiais com a bateria, você precisará bater ao mesmo tempo nos dois pratos/chimbais. Caso você não seja um baterista profissional, existe uma grande possibilidade de você acabar se perdendo no ritmo. Quer dizer, é isso ou esperar pelo próximo momento sem bateria para ativar o especial. Enfim, uma escolha bastante infeliz e desajeitada.

Talvez a única perda significativa que você possa ter, caso opte por adquirir apenas o jogo, sejam as possibilidades da nova guitarra que acompanha World Tour. Além da nova barra de slides (utilizada decentemente em várias músicas), o novo instrumento traz também um botão extra para liberar o “star power”; botão que, convenientemente, ocupa o lugar do que seria a ponte da guitarra, podendo assim servir também para utilizar o efeito “palm mute” durante as composições (o popular “abafar as cordas”).

A barra de slides terá diversas utilizações durante o jogo. Seja para emular um “tapping” originalmente criado por ninguém menos que Eddie Van Halen — uma linha atravessa a faixa do jogo ligando todas as notas; basta seguir deslizando o dedo pela barra —, para disparar slaps no baixo ou ainda para controlar vários mecanismos na hora de compor músicas. A guitarra testada pelo Baixaki Jogos também se mostrou bastante sensível nesse ponto, respondendo bem ao toque do dedo.

Algumas baterias apresentaram problemas. Tente a sorte.
Entretanto, novidades à parte, você terá um funcionamento bastante razoável por parte do novo periférico. Uma resposta rápida pode falhar vez ou outra (sobretudo quando você estiver criando músicas), e digamos que os botões não são exatamente silenciosos. Quer dizer, basicamente, compre os novos instrumentos em dois casos: (a) você realmente se interessou pelas novas funcionalidades ou (b) você não possui nenhum outro periférico, já que World Tour não pode ser jogado com controles (o que é uma lástima, realmente).

O microfone digamos que apenas faz o seu trabalho decentemente. A maior diferença está mesmo nas linhas de vocal. Em WT a linha do seu vocal vai deixar sempre um rastro para trás, mostrando onde você encontra a linha da música, e onde você desafinou vergonhosamente. Enfim, um bom auxílio, sobretudo naquelas músicas que você nunca ouviu na vida. Ah, sim, e nada de berros para ativar o star power: uma simples batida resolve — mais elegante, embora um pouco menos divertido e engraçado.

Hora de (tentar) compor

Pois é, após algum tempo gasto conhecendo o novo setlist, o modo carreira e as vastas possibilidades de personalização, é chegada a hora de dar vazão àquela sua veia incontida de compositor. É hora de encarar o estúdio embutido dentro de World Tour.

Em primeiro lugar, fica o aviso: embora existam diversos tutoriais bastante claros, compor algo que valha mesmo alguma coisa é uma tarefa bem considerável. É claro que um pouco de esforço pode garantir alguma coisa de qualidade — que poderá então ser disponibilizada na rede, com capa de disco e tudo —, mas, assuma-se, não é algo primordialmente leigo. Vai se sair melhor quem já tiver pelo menos algum contato com as estruturas básicas de composição e edição.


Cada uma das linhas será composta independentemente dentro do estúdio: baixo, guitarra, bateria e até teclado. Lamentavelmente (quase inexplicavelmente, a bem da verdade) não se pode gravar linhas vocais. As criações vão ser apenas instrumentais mesmo.

Na hora de criar, você pode simplesmente escolher gravar, escolhendo uma “baking track” adequada, escolhendo linhas prontas de bateria e baixo. Ainda será possível escolher a escala da música (que vai desde escalas maiores e menores até a boa e velha “pentatônica blues”) e também os efeitos, estes garantidos pela Line 6, uma das melhores no mercado quando o assunto é modelação digital de efeitos.

Efeitos digitais assinados pela Line 6, uma referência no assunto. Também é possível um trabalho com mais preciosismo utilizando o GH Mix, uma ferramenta bastante completa para edição. Aqui você nem mesmo vai ter que se preocupar em seguir um tempo ou mesmo qualquer estrutura pré-arranjada; o trabalho minucioso e detalhado, célula rítmica por célula rítmica.

É também no estúdio que você terá um contato maior com várias das novas possibilidades dos instrumentos. Ainda falando em composição, existe o simples e funcional Arpeggiator, que, conforme o nome indica claramente, serve para se criar arpejos. Escolha as notas, e o prático recurso vai criar um arpejo com várias possibilidades: subindo, descendo, subindo e descendo e aleatório.

Ainda será possível criar linhas com “hammer on”, “pull off” e também com o que seria uma corda solta — válido na guitarra apenas na hora das composições, a fim de aumentar o leque de notas disponíveis; já o contrabaixo terá uma “corda solta” mesmo durante as músicas, o que é representado por uma barra horizontal, da mesma forma que o pedal de bumbo. Além disso, conforme já mencionado, ainda será possível utilizar o “palm mute” na guitarrra, embora o efeito conseguido não seja muito verossímil.

Tappings, uma das boas novidades garantidas pela barra de slides.

Por fim, fica o aviso. Você até pode acabar produzindo algo minimamente aproveitável no estúdio. Mas isso vai demandar um bom tempo, passando por todos os tutoriais e ainda apostando na boa e velha estrutura do “tentativa e erro”. Um grande amontoado de lixo provavelmente vai sair até que algo que preste dê as caras.

Enfim, uma ferramenta ampla e interessante, embora bastante complexa e não muito indicada para leigos completos. Mas, de qualquer forma, você ainda poderá conferir o trabalho de sujeitos particularmente esforçados através do GHTunes — destaque para uma adaptação “rocker” do famoso “Cânon em Ré Maior” do compositor alemão Johann Pachelbel.

Amantes da franquia, empunhem suas guitarras. O estrelato aguarda. World Tour é um bom jogo. Quer dizer, Guitar Hero acertou o pé com a concorrência, e isso é ótimo. O estúdio embutido, embora não seja indicado para todos os níveis de jogadores, também faz o seu trabalho, acrescentando uma dimensão totalmente nova ao gênero. O problema é que não existe de fato uma inovação “arrasa quarteirão”; pelo menos não no nível do primeiro GH, ou mesmo do primeiro Rock Band.

Resumindo: Guitar Hero: World Tour é um bom jogo, não uma revolução. Não assim tão relevante que você não tenha visto similar na concorrência ou mesmo nos títulos anteriores da série. Vale a pena caso você goste do setlist (realmente bastante amplo e variado), veja um enorme potencial na nova guitarra ou simplesmente nutra certa afeição pela franquia. Se esse for o caso, o negócio é reunir os amigos e rumar para o estrelato imediato.
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