Uma profecia, um povo em crise e uma guerreira disposta a tudo para dar um fim neste conflito.

Em 2005, a Sony fez uma grande aposta em seu console da época, o Playstation 2, com um jogo de excepcional produção, enredo forte e jogabilidade afiada. O jogo é God of War, o responsável por alavancar as vendas do console e manter a plataforma viva mesmo com o advento dos consoles de nova geração. Sua seqüência foi lançada em 2007, plena época na qual a nova geração já começava a dominar o mercado; ainda assim, o game fez tanto sucesso quanto seu antecessor.

Visando produzir um game de grande porte ao seu novo console, o Playstation 3, a Sony resolveu apostar na mesma fórmula que fez de God of War o jogo mais aclamado para o Playstation 2. O resultado é Heavenly Sword, um jogo de ação focado no combate que apresenta uma produção extremamente bem cuidada e uma jogabilidade rápida e afiada.

Apresentando a mesma fórmula simples e eficiente de God of War, o título preza pelo combate, o avanço linear pelo cenário, a resolução de pequenos puzzles e execução de comandos de contexto; tudo isso sem deixar o ótimo e bem narrado enredo de lado.

A espada sagrada

Há muito tempo atrás, um guerreiro enviado pelos céus utilizou uma espada sagrada para acabar com todo o mal que assolava a humanidade. O guerreiro então sumiu sem deixar vestígios, entretanto, a espada foi deixada para trás. Acreditava-se que a encarnação do guerreiro estava para nascer e reclamar o direito sobre a arma.

Como a espada conferia grandes poderes a quem a empunhasse, uma grande disputa pela sua posse foi iniciada. Entretanto, logo a verdade foi descoberta: o indivíduo que se atrevesse a empunhá-la estaria condenado à morte — em apenas alguns dias, a arma drena a vida de seu portador.

Percebendo o perigo da espada, o clã liderado por Shen incumbiu-se de guardá-la, protegendo-a da ambição dos homens. O grupo acreditava que logo Shen teria um filho e nele o místico guerreiro da lenda reencarnaria, empunhando novamente a espada e trazendo de volta a paz à Terra. Entretanto, nenhum menino nasceu; no lugar deste, nasceu Nariko. Sua mãe, por sua vez, não agüentou ao parto e faleceu.

Em virtude da tragédia ocorrida e da decepção de todo o povo, Nariko foi odiada e culpada por toda a desgraça do clã. Shen chegou a cogitar a possibilidade de
matá-la quando a garota era um bebê, entretanto, decidiu criá-la como uma habilidosa guerreira, apta a defender seu povo com unhas e dentes.

Alguns anos mais tarde, o ambicioso ditador Lorde Bohan, sedendo por poder, resolveu tomar posse da espada sagrada, utilizando toda a sua força militar para devastar o clã de Shen e Nariko. Capturando Shen e grande parte dos outros membros do clã, o ditador provoca a fúria de Nariko, que, sem pensar nas conseqüência de seus atos, empunha a espada sagrada e enfrenta Lorde Bohan e seu exército colossal sem temer a morte — afinal, agora ela é mais certa do que nunca.

O enredo é narrado de forma magnífica, principalmente durante as animações que acontecem entre os momentos de ação. As expressões faciais dos personagens são extremamente realistas e passam todo o sentimento do enredo, enquanto os diálogos completam a cena, tornando o pacote digno de cinema. Embora simples, o enredo também é bem elaborado e prende o jogador do começo ao fim.

Um poder devastador

A espada sagrada confere ao seu portador um poder extremamente devastor, possibilitando-o vencer exércitos inteiros. Entretanto, o jogo não se limita apenas ao uso desta arma. O jogador começa com uma espada normal, que oferece um número pequeno de possibilidades de ataque, mas é suficiente para fazê-lo acostumar-se com toda a mecânica do jogo.

Ao utilizar a espada sagrada, entretanto, Nariko aumenta o leque de opções de ataque significativamente. A arma pode ser utilizada em três bases de luta diferentes: uma para ataques rápidos e certeiros, outra para ataques fortes e lentos e uma terceira para golpes à distância. A possibilidade de utilizar diferentes classes de ataques durante as batalhas é interessante e até necessária, visto que a maior parte do game é baseado em grandes combates contra uma série de inimigos.

Embora não haja uma variedade grande de adversários, eles atacam-lhe aos montes; não raramente você se ve cercado. Além disso, cada um dos inimigos exige determinada estratégia para ser vencido. Há desde soldados cuja defesa é extremamente fraca, até bruta montes com armaduras e armas gigantes, que só são acertados em contra ataques.

Para facilitar a vida do jogador e ajudá-lo a prever os ataques inimigos, determinados sinais são utilizados antes de um adverário atacá-lo. Quando uma espécie de fumaça azul envolve o oponente, por exemplo, significa que ele vai desferir um ataque rápido (defendido simplesmente ao se esperar pelo ataque sem tomar nenhuma outra ação), enquanto um sinal vermelho significa um ataque impossível de ser defendido, apenas desviado.

Mas é claro que as batalhas mais duras contra chefes não poderiam ficar de fora em um jogo do gênero. Os chefes são basicamente inimigos cuja barra de vida parece não ter fim e que exigem uma estratégia bastante específica para serem derrotados. Geralmente tais batalhas acabam em um mini-game cujo objetivo é pressionar os botões indicados na tela no tempo certo — recurso, inclusive, bastante utilizado no game.

Os mini-games envolvendo seqüências e repetições de botões também são aplicados em determinados momentos fora das batalhas. Desde as tarefas mais simples, como utilizar uma manivela, até as mais complexas, como correr em uma parede e saltar de um bloco de pedra em queda livre, envolvem comandos de contexto indicados na tela. Pressionar adequadamente os botões dispostos na tela durante as cenas de ação significa resolver o problema, enquanto errar a seqüência pode acabar na morte da protagonista.

Felizmente, Nariko não está nesta aventura sozinha. Em determinados momentos, sua irmã mais jovem, Kai, vai utilizar suas ótimas habilidades com a besta (uma
espécie de arco e flecha acomplados em uma arma) para ajudá-la. Há certos trechos do game nos quais você assume o papel de Kai — geralmente para acabar com alguns inimigos à distância.

Nariko também pode acabar com seus adversários à distância, arremessando qualquer objeto deixado em campo de batalha, como espadas, escudos, pedras e até os corpos dos inimigos derrotados. Há ainda determinados momentos nos quais você tem acesso a lança-foguetes ou canhões; a mecânica funciona da mesma maneira. É necessário também caprichar na mira em determinados quebra-cabeças, que envolvem ações como como acionar um gongo à distância para abrir determinado portão, por exemplo.

Armado com o Sixaxis

Como era de se esperar em um jogo do gênero, o sistema de batalha em Heavenly Sword é o maior privilegiado nos controles. Há dois botões para ataques, além de dois modificadores utilizados para a escolha das diferentes bases de luta. Ao segurar R1, por exemplo, o jogador alterna para a base de ataques fortes, enquanto o L1 é utilizado para os golpes à distância. Quanto mais ataques e combos você acerta em seus adversários, mais combos novos e conteúdos extras você ganha.

Exatamente da mesma forma como em God of War, o analógico direito é utilizado para rolar e esquivar dos golpes em Heavenly Sword. O comando é extremamente útil,
principalmente em momentos nos quais você fica cercado por inimigos. A defesa, por sua vez, é feita automaticamente quando você não está atacando, entretanto, é necessário utilizar a mesma base de luta do adversário.

Mas a mecânica mais interessante no game é o sistema de mira para as flechas e objetos atirados. É possível simplesmente atirá-los de forma imprecisa, mas o jogador também pode controlar o curso do objeto ao segurar o botão utilizado para atirar. A câmera, então, passa a seguir o objeto, que pode ser controlado através de movimentos verticais e horizontais do Sixaxis. A mecânica utiliza o controle do PS3 de maneira bastante interessante, inovadora e funcional.

Digno de cinema


A produção de Heavenly Sword é com certeza um de seus aspectos mais louváveis. Durante as animações, é possível notar o quão detalhado é o rosto dos personagens, passando a emoção do momento nas expressões faciais de forma bastante fiel. A animação dos modelos também é bastante realista, graças às sessões de captura de movimento feitas durante o desenvolvimento do jogo.

Os gráficos, no geral, são interessantes, embora apresentem alguns pequenos problemas
eventualmente, como quedas na taxa de quadros por segundo. Ainda assim, os problemas não interferem na experiência final e os gráficos de Heavenly Sword apresentam um resultado final positivo.

Tudo em Heavenly Sword favorece a criação de um clima cinematográfico à experiência, desde a própria narrativa até as animações e dublagens — que, condizentes com a qualidade das animações faciais, são dignas de cinema. Os efeitos sonoros também são satisfatórios e, ao lado da excelente trilha sonora, que combina ritmos mais modernos a músicas orquestradas, tornam a narrativa de Heavenly Sword ainda mais atraente.

Rápido e certeiro

A fórmula de Heavenly Sword segue o mesmo princípio do aclamado God of War, prezando pela ação em primeiro lugar e narrando o enredo de forma cinematográfica. Embora o jogo em si seja bastante linear e não apresente uma vasta gama de possibilidades — tendência comum nos títulos mais atuais —, um enredo bem estruturado e uma jogabilidade afiada fazem do game obrigatório para quem possui um Playstation 3.

Entretanto, nem tudo em Heavenly Sword é perfeito. Diferente de God of War, o título apresenta uma variedade pequena de adversários, tornando tudo um pouco previsível após algum tempo. Além disso, o game é curto demais — é possível terminá-lo em cerca de seis ou sete horas — e não sobram opções à quem o terminou além de jogar tudo novamente.

Heavenly Sword constitui um título de peso à não tão vasta lista de games do Playstation 3, sendo um dos poucos exclusivos. Entretanto, a Sony vai precisar de mais do que animações espetaculares e uma jogabilidade afiada para criar uma verdadeira obra prima exclusiva ao seu console, assim como o fez com God of War.

84 ps3
Ótimo