O equilíbrio quase perfeito entre o cinema e os video games.

Jogos reais. A sentença pode até parecer estranha, mas é isso que muitos jogadores esperam vivenciar ao controlar seus personagens virtuais através de um console. O fator “realidade” dos games é algo imensamente considerado por boa parte dos entusiastas e gamers casuais, que podem se espantar facilmente com cada título que traga gráficos e animações impressionantes, por exemplo. Superficialidade? Talvez.

Querendo ou não, é muito bacana ver como as máquinas da atual geração conseguem imitar ou recriar eventos que poderiam muito bem acontecer perto de sua casa. Títulos e mais títulos tentam trazer uma experiência fiel à realidade, baseando-se muitas vezes em outros retratos, fictícios ou não, que também buscam uma proposta semelhante, como os filmes, por exemplo.

Esta tendência à cinematografia não é de hoje. Desde a época do saudoso Nintendinho alguns games já demonstravam esta convergência. Um deles é Dragon’s Lair, game para arcades no qual o jogador vivia uma espécie de animação interativa. O sucesso foi enorme, e o título acabou sendo portado para diversas outras plataformas.

Com o avanço da tecnologia, os games conseguiram criar experiências ainda mais interessantes. Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots é um dos melhores exemplos desta atual geração, pois mistura ação com excelentes doses de momentos cinematográficos.

Mas, quando Heavy Rain foi anunciado, o mundo dos games surpreendeu mais uma vez. O exclusivo para PlayStation 3 é da mesma desenvolvedora responsável pelo peculiar Indigo Prophecy. E, como se pode imaginar, mais uma vez demonstra que jogos e filmes podem trazer resultados extremamente bacanas — para o deleite de uma geração.

Heavy Rain consegue trazer o equilíbrio, quase perfeito, entre o cinema e o entretenimento eletrônico. Gráficos de qualidade, animações bacanas e uma narrativa simplesmente excepcional são apenas alguns dos elementos que fazem desta criação da Quantic Dreams algo memorável.

Surpreendente

Quando os primeiros trailers demonstravam a jogabilidade de Heavy Rain muitos jogadores se perguntaram: será que teremos apenas uma inundação de minigames de contexto? Bem, se você pensava a mesma coisa, então é melhor rever seus conceitos.

Sim, a base da jogabilidade do game são os Quick Time Events (QTE). Entretanto, durante o jogo, você não será obrigado a simplesmente pressionar botões rapidamente e sem qualquer sentido. O modo de como este sistema foi introduzido ao game é diferente de tudo que já vimos, e deve servir como exemplo para os demais títulos que queiram aproveitar do recurso.

Mas, certamente, os minigames não são o elemento mais profundo do game. Heavy Rain consegue cumprir uma das missões mais difíceis da história do entretenimento eletrônico: criar um vínculo com o jogador. A imersão é garantida graças às ações propostas pelo game, as quais variam desde simples eventos até fugas intensas. Depois de escovar os dentes, ajudar sua esposa e brincar com seus filhos, não há como não se sentir na pele de Ethan Mars.

Como você já deve saber, Heavy Rain opta por uma narrativa com vários protagonistas. Você controla quatro personagens, cada com suas características e problemas. Cada um deles está ligado, de alguma maneira, ao outro, mas esta conexão só aparece com o decorrer do game. É interessante notar como a trama consegue criar um vínculo entre os personagens, que, aparentemente, não possuem nada em comum.

Quebrando as barreiras do roteiroTudo isso ainda pode ser facilmente entendido por nós brasileiros, pois o título conta com legendas e dublagens em português de Portugal. Esta opção está disponível nas versões estadunidenses do game, as mais fáceis de serem encontradas. Portanto, compre sem medo e reúna o pessoal — peça para trazerem pipoca também.

Assim como o título faz bonito nestas ligações, o jogo também possui a capacidade de prender o jogador por várias rodadas, graças à grande variedade de caminhos que facilmente fará você jogá-lo novamente. Suas ações influenciam no ritmo e nos acontecimentos do game, fazendo de cada nova partida realmente uma nova partida.

Sem dúvidas, Heavy Rain é uma grande obra, mas não é um jogo para qualquer. Espere por um título com uma proposta totalmente diferente, situada entre os cinemas e o entretenimento eletrônico. Uma jogabilidade quase simplória — com exceção dos já mencionados QTEs — e nada de miras, combos ou sistema de cobertura.

A Quantic Dreams provou que os jogos podem sim conter uma narrativa emocionante e, ao mesmo tempo, fornecer um bom nível de interatividade. O equilíbrio perfeito entre os filmes e jogos realmente parece possível, e aparenta estar mais próximo que nunca.

Se você está cansado de atirar, atirar, atirar e atirar, então compre Heavy Rain. Se você procura por um jogo distinto, que mal consegue ser classificado, então compre Heavy Rain. Se você deseja há tempos um título com uma história forte e completamente imersiva, então compre Heavy Rain. Ou seja, se você conta com um PlayStation 3, compre Heavy Rain.

Atmosfera digna de cinema

Não há como evitar. Passe os olhos sobre o game e pronto, você será surpreendido. Como? Com a atmosfera de Heavy Rain. Logo nos primeiros momentos, é possível perceber que a Quantic Dreams realmente não estava para brincadeiras. O clima é simplesmente excepcional, com ângulos, iluminação e ambientes que parecem ter saídos diretamente do cinema.

Você encontrará a beleza por toda a parte e em suas diversas formas, variando desde os ambientes mais comuns, como o lar e o shopping, até os locais mais distintos, a cena de um crime e um motel. A desenvolvedora conseguiu, sem sombra de dúvidas, envolver o jogador com uma apresentação ideal e sem precedentes.

Depois de alguns minutos de jogo você perceberá que já está enredado pelo game. Quando Heavy Rain tenta criar uma atmosfera feliz, você perceberá com um sorriso no rosto, declarando que a vida é realmente bela. Contudo, nos momentos mais obscuros e tensos, o jogador parece estar vivendo a mesma situação que o personagem, e tudo isso é demonstrado nas expressões do espectador/gamer. A dinamicidade é tanta que até mesmo momentos noir são vivenciados.

Quem desfruta de grandes clássicos do cinema notará que a Quantic Dreams também é fã da sétima arte. A direção de arte e a fotografia se misturam com os elementos do video game, criando uma oportunidade única e extremamente agradável para quem busca algo inovador.

Simples, mas eficiente

“Ok, então em Heavy Rain eu só preciso andar e apertar botões?” Sim, caro usuário. No bruto, a jogabilidade do game se resume a isto. Contudo, isto não significa que sua experiência será entediante — a não ser, é claro, que você esteja procurando por pancadaria, tiroteios e outras abundâncias frenéticas desta geração.

A trama é o pilar que sustenta, com tranquilidade, a simples jogabilidade do título. Você provavelmente jogará o game para conhecer seu desfecho, mas felizmente não faz tudo isso de graça. A interação é bem dosada e se adéqua perfeitamente a proposta de Heavy Rain.

Totalmente envolventeMas, então, como funcionam os minigames? Bem, imagine um sistema semelhante ao de God of War, mas mais complexo e elaborado. Os comandos aparecem na tela da maneira quase convencional, mas alguns exigem ações diferentes das outras. Em determinados momentos, o jogador tem de movimentar o analógico com cuidado, por exemplo, para que o personagem não quebre um dos pratos de sua sogra.

Fora isso, Heavy Rain também apresenta minigames em que é necessário pressionar uma cadeia de botões para que a ação seja realizada com sucesso, além de outros. O título ainda traz alguns momentos de exploração, no qual você deve utilizar um óculos especial para encontrar pistas. Em suma, esta pequena variedade é suficiente para a proposta e dificilmente deixará o jogador entediado. Assim como a trama, os minigames também são moldáveis às situações, e podem ser afetados da várias maneiras dependendo dos eventos.

Unicamente excelente

Heavy Rain é um jogo único e chega para comprovar a capacidade do, algumas vezes subestimado, entretenimento eletrônico. Ao contrário do que muitos pensam, os games podem sim criar uma empatia com o jogador, despertando sentimentos distintos dos rótulos associados aos video games.

O visual, tecnicamente falando, e a trilha sonora também colaboram para esta difícil missão que vem sendo constantemente exaltada por David Cage, diretor do título. Heavy Rain possui texturas e efeitos de tirar o fôlego, principalmente na modelagem fiel dos personagens.

Há um grande número de detalhes que surgem simultaneamente na tela, e algumas vezes parecemos mesmo estar assistindo a um filme. Quanto ao áudio, o título também surpreende. O game traz consigo várias faixas que se encaixam perfeitamente aos momentos e aos sentimentos do personagem. Em poucas palavras, uma trilha digna de cinema.

A escolha mais difícil desta análise não está no jogo

Heavy Rain é um título diferente e inaugura um novo gênero: drama interativo. Portanto, conforme já comentamos, não se trata de um jogo para todos. Além disso, existem sim alguns outros probleminhas que atrapalham a decolagem do título. Primeiramente, andar se tornou complicado. A desenvolvedora mapeou os controles de maneira estranha — você segura o R2 para andar e movimenta seu personagem com o analógico direito — e isso pode causar alguns problemas em certos momentos.

Além disso, o nível de screen tearing é alto, principalmente nas situações em que há bastante movimento. Alguns furos no roteiro também incomodam, mas não entraremos em detalhes para não estragar sua experiência.

É melhor ir de carro

93 ps3
Excelente