Uma rica história e muitos diálogos marcam o sucessor espiritual de Trace Memory.

Hotel Dusk: Room 215 é um jogo de aventura nos moldes mais convencionais do gênero, onde o jogador controla um personagem em uma engenhosa narrativa linear permeada por muitos diálogos e bons gráficos. O título foi desenvolvido pela Cing, empresa que já havia feito um game bastante similar chamado Trace Memory.

Aponte, clique e ande

Algo que chama a atenção logo no início é a maneira que o jogador deve posicionar o DS em sua mão: ao contrário do que vemos convencionalmente, as duas telas devem permanecer na vertical, enquanto as imagens da animação da primeira introdução é apresentada entrecortada pela divisão delas. Outro fator intrigante foi a opção pelo uso da estética dos filmes policiais noir para o tratamento gráfico.

O estilo lembra bastante os filmes de investigação dos anos 60, com um detetive misterioso resolvendo um caso cheio de reviravoltas e intrigas. Quanto à história, ela é introduzida de maneira bastante fragmentada. A única informação que o jogador tem no começo é a de que controla um policial chamado Kyle Hyde, perturbado por ter atirado em seu antigo parceiro, agora sob a dúvida se ele morreu ou não.

Após isso, o protagonista se afastou da polícia, arranjou um trabalho com um amigo de seu pai e agora vende mercadorias de porta em porta; desse modo a meta, aparentemente, é arranjar compradores em uma pequena cidade, especificamente, em um hotel chamado Hotel Dusk, onde inúmeras surpresas estão reservadas para o que parecia ser apenas mais uma viagem de negócios. Apesar da apresentação ser breve e sem muita orientação, no decorrer do jogo o enredo é passado gradativamente pelos inúmeros hóspedes, onde cada um deles dão pistas sobre o passado do jogador, além de revelarem incríveis coincidências com fatos que Hyde sequer poderia desconfiar.

A mecânica do jogo é bastante simples. Através do amplo uso da tela de toque do DS, as movimentações e interações vão sendo feitas através de toques com a stylus em uma das telas, que contém um mapa com o propósito de orientar o personagem, enquanto na outra é apresentada uma perspectiva em primeira pessoa do cenário. Na maior parte dos casos, a atenção é concentrada no mapa mas após um certo tempo o jogador pode se dar ao luxo de ignorá-la, já que o hotel não é muito grande e com muitos cômodos, o que tornam todos os locais familiares e conhecidos.

A quantidade de itens para interação são poucos, e quando existem, são descobertos conforme a necessidade de usá-los aparece. Isso concede uma fluência maior ao jogo e evita que se fique andando indefinidamente pelo mapa a procura de coisas para se fazer. Quando essa desorientação ocorrer, a dica é simplesmente vagar pelos corredores até que um dos hóspedes ou funcionários do Hotel apareçam e iniciem um de seus misteriosos diálogos.

Após observar esses aspectos da jogabilidade, é difícil não se lembrar de nomes como Day of the Tentacle e The Curse of the Monkey Island, antigos títulos para PC que tinham gráficos simples porém uma história envolvente, que conduz o jogador por uma jogabilidade simples, do tipo aponte e clique, que provoca uma cadeia de reações.

Um livro interessante em forma de jogo

Como foi dito, os diálogos são a principal atração do game. O primeiro que o jogador se depara é com a do dono do hotel, onde já é possível ter uma boa idéia de como as outras conversas decorrerão. Tudo se resume na seguinte fórmula: o jogador se aproxima de seu interlocutor, clica no botão de diálogo e aí, em uma das telas, Kyle Hyde aparece demonstrando suas reações às falas do outro personagem que, por sua vez, fazem trejeitos e rostos que apresentam aprovação, revolta, aborrecimento contra tudo o que o protagonista diz. A transição do comportamento das pessoas na tela é bastante natural, desenhadas em preto e branco contra o fundo colorido do cenário.

Após isso, várias outras pessoas irão interagir com Hyde de diversas maneiras: uma menina travessa e briguenta, uma senhora de idade com tapa-olho, um funcionário do hotel que o protagonista já conhecia anteriormente, uma bela moça, entre outros, todos eles irão demonstrar seus interesses e motivações aos poucos, e como estão ligados, de uma maneira ou de outra, com o principal mistério do jogo: se o parceiro de Kyle foi realmente morto e quais acontecimentos levaram ao protagonista atirar contra seu colega de trabalho.

Um fator que pode deixar alguns aborrecidos é a imprevisibilidade das reações dos personagens durante os diálogos, já que essa é uma das maneiras de provocar o game over. Se o jogador fizer perguntas indiscretas demais, ou falar certas assuntos inconvenientes, ele pode, de uma hora para a outra, ocasionar no fim do jogo, com o dono do hotel expulsando-o do local. Outra maneira de encerrar a partida é entrando em locais proibidos e ser observado mexendo em objetos que não deveria.

Cinema Noir

A apresentação gráfica é realmente um ponto considerável do jogo. Mesmo com as limitações técnicas do Nintendo DS, e aquelas inerentes aos sistemas portáteis, o jogo se mostrou bastante competente para comportar bons visuais, de agradável estética e remetendo perfeitamente ao melhor estilo do cinema noir. Mesmo que os cenários 3D, presentes em uma das telas durante a movimentação do protagonista, sejam um tanto grosseiros para os patamares atuais, o desenho dos personagens nos diálogos, por sua vez, são bonitos, lembrando bastante os desenhos feitos à mão.

Trilha sonora repetitiva

Dado que o jogo tem uma duração e várias horas, os desenvolvedores deveriam ter concentrado uma maior atenção à trilha sonora. No começo, durante o caminhar do personagem, soa uma música no melhor estilo jazz, de acordo com o caráter do jogo. Porém, bastam poucos minutos para que o jogador enjoe da melodia. Após um tempo, ela já começa a irritar. Nos diálogos ocorre a mesma situação — só há uma única música para horas e horas de conversas.

Uma maior variedade de estilos assim como presença de efeitos sonoros além dos passos de Kyle deveriam estar presentes, a fim de proporcionar uma experiência de jogo mais agradável. É provável que existam aqueles que prefiram jogar sem o fone de ouvido ou com o som desligado, para se ter uma idéia da gravidade do problema.

Um jogo de aventura para momentos de repouso

Hotel Dusk: Room 215 é uma ótima oportunidade para as pessoas com paciência e perseverança desfrutarem de uma boa história, através de um jogo bastante simples e sem momentos de tensão extrema. Os inúmeros diálogos podem tanto irritar os que procuram ação e reviravoltas retumbantes, assim como agradar os que apreciam ler por horas e horas.

Mesmo com a trilha sonora deficiente e gráficos ótimos (apesar de repetitivos), Hotel Dusk é bastante competente em apresentar o que ele se propôs a ser: um jogo de aventura que lembra um livro-jogo, com muita leitura e uma rica trama, com um desfecho inusitado.
77 ds
Bom