Mergulho em águas rasas

Responda rápido: o que é necessário para que um jogo seja bom? Embora estejamos tão acostumados a pegar o controle a passar horas em frente ao console, essa pergunta não é tão simples de ser resolvida quanto pensamos. Muitos vão citar gráficos, enquanto outros dirão que preferem uma boa história e vários outros elementos.

Particularmente, ouso dizer que é o conjunto de tudo isso que vai fazer um título se diferenciar de outro, fazendo com que você mergulhe na trama e naquele universo apresentado. É a imersão proporcionada que vai ditar o grau de diversão daquela obra. Quantas vezes você não se sentiu fazendo parte do game por conta de seu visual ultrarrealista ou de sua narrativa envolvente?

Existem vários exemplos que ilustram bem a questão – seja para bem ou para mal. Porém, é normal imaginarmos que há apenas dois tipos de introdução na obra: aquelas que “engolem” o jogador e as que falham ao tentar fazer isso. No entanto, o que dizer de jogos que conseguem ser as duas coisas ao mesmo tempo?

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É o caso de Hydrophobia Prophecy, desenvolvido pela Dark Energy Digital para PlayStation 3 e PCs. O título consegue, em determinados momentos, trazer uma experiência muito imersiva e empolgante, mas falha ao tentar fazer com que o jogador entre na história. É o típico caso em que uma característica consegue ser melhor que o todo.

Ecoterrorismo

O jogo se passa em um futuro não muito distante em que a população cresceu consideravelmente, fazendo com que os problemas sociais já existentes se agravassem a ponto de obrigar a humanidade a criar comunidades isoladas em alto mar, principalmente por conta da baixa oferta de alimentos. Desse modo, somos levados à embarcação Queen of the World, que abriga um bom número de pessoas, inclusive a engenheira de sistema Kate Wilson.

O que deveria ser um dia de trabalho comum para a moça se transforma em um caos após o ataque terrorista de um grupo denominado New Malthusian. Defensores das ideias de Thomas Malthus – economista britânico que, no início do século XIX, acreditava que era necessário ter controle sobre o crescimento populacional a fim de evitar a escassez de comida –, eles iniciam uma série de ações criminosas para “condenar” os responsáveis pela crise mundial.

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Por estarmos falando de um navio em meio ao oceano, a investida faz com que o local seja invadido pela água, sendo que os sistemas de segurança e de sobrevivência são, gradativamente, danificados e desativados – o que faz com que Kate tenha de correr contra o tempo para salvar todos os tripulantes da “Rainha do Mundo”.

Hydrophobia Prophecy não é um jogo ruim, mas também não consegue se destacar em meio ao mar de outros grandes títulos – perdoem o trocadilho. Mesmo trazendo uma água com física aprimorada e uma imersão fantástica nos momentos de mergulho, o game não empolga. A história é fraca e demasiadamente curta, o que faz com que todo o potencial existente seja simplesmente jogado fora.

Secos e molhados

Como é possível suspeitar por seu nome, o grande destaque de Hydrophobia Prophecy é a água. Ela estará presente para atrapalhar e ajudar a aventura ao longo de toda a narrativa, dependendo somente das circunstâncias apresentadas.

Logo de início, o líquido se destaca por sua física bastante realista. Lembra-se de quando você ia à praia e sofria para encarar a força das ondas, que simplesmente o empurravam para trás ou o derrubavam na areia? Pois a sensação é exatamente a mesma.


Como dito, diversos lugares do Queen of the World foram danificados, o que faz com que a inundação tome conta da embarcação muito rapidamente. Como cada ala e corredor possuem um nível de alagamento diferente, o jogador precisa se adaptar ao movimento da água para elaborar sua estratégia. Se você chega a uma sala parcialmente submersa, as ondas farão com que você se desequilibre ou perca a mira na hora de enfrentar seus adversários.

O inverso também é verdadeiro, já que as marolas podem também ser usadas para atrapalhar os inimigos. Do mesmo modo com que elas afetam a protagonista, é possível fazer  a agitação dificultar a vida dos terroristas e, para isso, você deve estar atento ao que acontece ao seu redor, a fim de tentar encontrar formas de fazer com que essa água aja da maneira desejada.

Mais do que simplesmente ser uma espécie de arma, ela também interfere diretamente na jogabilidade. Como citado anteriormente, você realmente irá sentir a movimentação ficar mais pesada quando a correnteza tentar carregá-lo, do mesmo modo que a personagem será arremessada para frente caso esteja diante da “corredeira”.

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Essa física realista também é utilizada na resolução de alguns quebra-cabeças. Graças à constante inundação, o nível da água sobe à medida que o tempo passa. Para evitar ficar submerso, é preciso abrir algumas portas para que o líquido escoe. O curioso é que isso é aplicado em várias partes da trama, seja para secar um lugar ou apagar um incêndio em seu caminho.

Por fim, a parte mais fantástica de Hydrophobia Prophecy são os momentos em que Kate Wilson fica submersa. Com o perdão da infâmia, a imersão proporcionada durante o mergulho é o grande ponto alto do jogo e fará com que muita gente realmente sinta-se sufocada.

A sensação que temos é de que realmente estamos embaixo d’água. A trilha sonora fica mais distante e lenta, o que deixa o desespero da protagonista evidente. É praticamente impossível não se sentir agoniado ao ver a barra de ar indo embora ao mesmo tempo em que a moça começa a tossir e a se engasgar. Isso faz com que a busca por oxigênio seja tão intensa quanto seria na vida real.

Desempenho invejável

A maior dificuldade na hora de desenvolver um jogo é trazer todos os elementos visuais apresentados na tela de modo realista, ao mesmo tempo em que se oferece um desempenho estável ao longo de todas as situações. Isso se torna ainda mais sério quando temos água na cena, pois a necessidade de certos shaders pode simplesmente levar a máquina ao seu limite, exibindo uma queda na quantidade de quadros por segundo.

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Sendo assim, é natural pensarmos que Hydrophobia Prophecy sofre com o mesmo problema. Um terrível engano, já que o game consegue criar toda a atmosfera submersa e oferecer uma jogabilidade que roda a 60 fps normalmente.

Claro que há algumas quedas em momentos mais sobrecarregados – muita água em lugares repletos de inimigos disparando loucamente –, mas de modo geral, toda a ação acontece de maneira fluida e natural. Mesmo que alguns elementos tenham sido sacrificados para manter esse valor (como será dito adiante), é gratificante ver os filtros serem aplicados corretamente, sobretudo o pixel shader.

Tão raso quanto uma poça

Ao mesmo tempo em que Hydrophobia Prophecy se destaca por trazer uma imersão fantástica nos momentos embaixo d’água, o jogo consegue ser incrivelmente raso quando o assunto é a história – elemento o qual muita gente vê como a porta de entrada para o “mergulho” no universo do game. Por mais que o enredo tenha um potencial gigantesco – principalmente por trazer um debate pertinente à sociedade – tudo é extramente simplista e sem a menor profundidade.

Prova disso é que você não se empolga com a narrativa. As ações terroristas, as motivações dos New Malthusians e até mesmo a evolução de Kate são incrivelmente desinteressantes, o que faz com que toda a jogabilidade seja feita de modo mecânico e sem o envolvimento merecido.

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Esse é um dos grandes problemas do título, pois compromete toda experiência. Ainda que tenhamos um desespero realista nas horas submersas – único momento em que o nome “hidrofobia” faz algum sentido –, isso logo é destruído quando voltamos a acompanhar a narrativa.

Se a heroína não traz nenhum dilema ou ponto que nos faça querer saber mais sobre seu passado, isso fica ainda pior com os inimigos. Somos rapidamente apresentados à vilã (extremamente sem graça, diga-se de passagem) e aos seus capangas, sem que seja dedicado um tempo maior para conhecermos as reais intenções e as causas dos ataques.

A impressão que temos é de que todas as informações são jogadas sem o devido tratamento. Como não há profundidade algumas no enredo, o tempo de duração do jogo acaba se tornando extremamente curto. São apenas três atos de história, algo que pode ser facilmente vencido ao longo de algumas horas.

Desafio nulo

Por mais que Hydrophobia Prophecy use a água para criar quebra-cabeças variados, isso não é o suficiente para dizer que o jogo é capaz de oferecer uma jogabilidade desafiadora. Pelo contrário, o sistema padrão de localização e dicas faz com que tudo possa ser concluído sem o menor esforço mental.

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Logo de início, Kate recebe o MAVI, um aparelho utilizado no setor de engenharia do Queen of the World que serve como uma espécie de GPS. Esse dispositivo vai indicar exatamente qual caminho deve ser tomado e com que objetos você pode interagir. Ainda que seja possível desativar essa função, ela é básica e certamente irá estragar a exploração de muita gente.

Até mesmo os puzzles já vêm respondidos. Ao chegar a um local em que é preciso usar o acessório para localizar os códigos de criptografia das portas, um indicador no canto da tela pede que você acesse o menu de jogo e selecione o MAVI. Quer algo mais didático e fácil do que isso?

Calem a boca

Sabe aqueles personagens cuja voz é tão irritante que você tem vontade que eles simplesmente nunca mais falem na vida? Pois Hydrophobia Prophecy é repleto de gente assim. Se não fosse pelos efeitos sonoros dos momentos de mergulho, a melhor pedida seria para jogar o game no mudo.

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A entonação de voz da Kate é tão inexpressiva quanto o enredo do jogo. Medo, euforia, susto e espanto soam sem profundidade alguma, dando a impressão que a dubladora apenas leu um papel sem se importar em dar vida à personagem.

Como se não bastasse, temos as constantes interferências de Scoot, chefe da protagonista, que insiste em fazer piadas e comentários sem graça. Com uma atuação digna de um teatro escolar, o rapaz torna-se um forte rival de Navi, a irritante fada de The Legend of Zelda: Ocarina of Time, no quesito “companheiros insuportáveis”.

Sacrifício válido, mas com pesar

Como havíamos dito no início desta análise, a imersão é uma das características fundamentais para conseguir atrair a atenção do jogador e, desse modo, ser considerado um bom game. Porém, isso não significa que certos cuidados devem ser eliminados para termos algo envolvente.

Mesmo com uma história capenga, Hydrophobia Prophecy consegue trazer uma água com efeitos realmente interessantes ao mesmo tempo em que mantém os 60 fps na maioria das vezes. Porém, como citado anteriormente, isso teve um preço.

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É nítido que a Dark Energy Digital teve de sacrificar alguns pontos gráficos para trazer o líquido e sua física aprimorada a uma taxa de quadros constante. A própria modelagem dos personagens é bastante simples e abandona algumas texturas e outros detalhes que poderiam engrandecer o visual do título – embora não seja algo prejudicial.

Por outro lado, a falta de cuidados em expressões faciais e na própria movimentação consegue comprometer a experiência. Kate se mexe de um modo estranho, principalmente enquanto pula ou cai de algum lugar. Já seu rosto é tão estático quanto o de uma boneca.

67 pc
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