Um retorno preguiçoso ao início da série

Sempre que uma nova remasterização chega ao mercado, eu me pergunto o porquê daquilo. Não que eu seja contra trazer os clássicos em HD, mas acho que investir apenas na alta definição é uma estratégia preguiçosa dos estúdios. Sempre vejo esse momento como uma segunda chance para corrigir pequenos deslizes da obra original para deixá-la ainda melhor — como a Nintendo fez com The Wind Waker.

Contudo, Kingdom Hearts HD 1.5 ReMIX é mais uma dessas adaptações que opta seguir pelo caminho mais fácil. Por mais que ele mantenha todos os elementos que conquistaram os fãs na última década, a Square Enix não se preocupou em corrigir os vários problemas desses títulos e, pior, ainda trouxe conteúdos interessantes de maneira mal aproveitada apenas para fazer volume no disco.

No fim das contas, o que tinha tudo para ser uma ótima comemoração de aniversário de 10 anos e o início dos preparativos para a chegada de Kingdom Hearts 3 se revela como uma produção que faz apenas o básico e não tenta ir além daquilo que foi feito há uma década, por mais que isso signifique nos irritar com velhos problemas.

A Square tinha um grande potencial em suas mãos. Há anos os fãs pediam o relançamento dos primeiros Kingdom Hearts na atual geração e o estúdio podia usar isso a seu favor, melhorando alguns pontos cruciais na experiência para fazer com que HD 1.5 ReMIX fosse mais do que uma remasterização, mas a porta de entrada para muita gente nesse universo que conquistou milhões de pessoas na última década. No entanto, o estúdio optou pelo caminho mais fácil, fez o básico e repetiu os mesmos erros do passado.

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Diante disso, o retorno de Sora e companhia nada mais é do que uma repaginação daquilo que vimos no PlayStation 2. Por mais que a estreia de Final Mix no Ocidente seja uma grande novidade para os fãs, os problemas ainda são os mesmos e é impossível não se irritar com essas pequenas falhas que tiram o brilho da coletânea. A decisão de trazer 358/2 Days como um vídeo é outra enorme decepção, principalmente para quem esperava conferir a jogabilidade do exclusivo do DS.

No fim das contas, Kingdom Hearts HD 1.5 ReMIX decepciona não por ser um jogo ruim, mas por conta do tratamento preguiçoso dado pela produtora. Por mais que seja ótimo revisitar as origens desta história, é muito triste encontrar a saga nesta forma quase que feita às pressas e sem o capricho merecido.

A volta do clássico

Apesar de tudo, é impossível não se empolgar com o retorno de Sora, Donald e Pateta aos vários universos Disney, sobretudo no jogo original. Afinal, já se passaram 10 anos desde o lançamento do primeiro Kingdom Hearts e a possibilidade de revisitar todos esses universos é algo incrível — principalmente para nos ajudar a entender a bagunça que a história se tornou.

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O que mais impressiona é que jogo continua muito bom mesmo depois de tanto tempo. Por mais que alguns elementos tenham se tornado datados — como a navegação pela Gummi Ship e o próprio sistema de menus, que foi aprimorado nos demais jogos —, não há nada que comprometa a experiência e nos deixe com a impressão de que o game envelheceu mal.

Na verdade, a realidade vai por um sentido bem oposto. As batalhas continuam ágeis e dinâmicas, o que faz com que tudo continue tão divertido quanto era no início dos anos 2000.

O visual retrabalhado também ajudou a dar essa renovada, mesmo com o excesso de polígonos espalhados por todos os cantos. Revisitar Destiny Island, Traverse Town, Hollow Bastion e ver cada um desses lugares com nitidez é algo que vale muito a pena.

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E como HD 1.5 ReMIX também conta com Re:Chain of Memories, o título se torna a oportunidade ideal para quem não pôde conferir o remake do jogo de Game Boy Advance entender quem diabos é Naminé e de onde surgiu a Organização XIII, peças fundamentais na trama de Kingdom Hearts II.

Estreia no Ocidente

Se você é mais um cético das remasterizações e se nega a comprar o mesmo jogo que você tinha em seu PlayStation 2 só porque ele está em alta definição, a Square Enix tem uma ótima surpresa. Isso porque Kingdom Hearts HD 1.5 ReMIX traz um conteúdo até então exclusivo no Ocidente.

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A chamada versão Final Mix foi lançada apenas no Japão e nunca chegou oficialmente neste canto do mundo, tendo sido jogado somente via importação ou por meio de downloads ilegais. Desse modo, os fãs da franquia podem finalmente quebrar essa limitação e conferir tudo aquilo que apenas os jogadores nipônicos tinham à disposição.

Com isso, por mais que você tenha virado o Kingdom Hearts original de cabeça para baixo dez anos atrás, a nova versão vai surpreendê-lo ao trazer cenas e batalhas que nunca passaram por seu antigo PS2 — o que já é um incentivo e tanto, principalmente pelo desafio que esses chefes inéditos oferecem.

Novo visual, velhos problemas

Como falei no início da análise, o lançamento de Kingdom Hearts HD 1.5 ReMIX era a oportunidade ideal para a Square Enix consertar alguns deslizes dos games originais, mas optou por ir no “feijão com arroz” e só trouxe um visual remodelado. E isso faz com que tudo aquilo que era irritantemente falho esteja de volta.

A câmera continua sendo a maior dor de cabeça de Sora em sua luta contra os Heartless. As lutas são “escondidas” a todo o instante por algum elemento do cenário ou por um inimigo, dando a impressão que o tela não é capaz de acompanhar a ação. Isso era algo que foi bastante criticado na época e que continua tão problemático quanto antes.

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E boa parte disso é responsabilidade da mira automática que, embora possa ser desativada, mostra que as funções padrão do jogo não melhoram em nada nessa última década. Prestar atenção em vários objetos é uma tarefa quase que impossível, já que o game praticamente pune o jogador sempre que ele tenta fazer isso.

Na luta contra a cabeça de tigre no deserto de Agrabah, por exemplo, você deve optar entre acompanhar os projetos disparados contra o herói ou se defender dos ataques de inimigos fora de seu campo de visão. Simplesmente não há como fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Já em Wonderland, o problema é o péssimo posicionamento da câmera, que insiste em se esconder atrás de uma parede ou outro obstáculo, fazendo com que você lute às cegas.

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Outras falhas menores — mas não menos irritantes — também estão de volta, como o péssimo controle da inteligência artificial. Por mais que você esteja sempre acompanhado de dois aliados em suas viagens pelos diferentes mundos, saiba que não é possível contar muito com eles, já que a dupla passa mais tempo inconsciente do que cumprindo seu papel de suporte.

HD, mas nem tanto

Trazer Kingdom Hearts HD 1.5 ReMIX não foi tarefa fácil para a Square Enix. Em uma entrevista recente, o diretor da série, Tetsuya Nomura, explicou que os dados do jogo original foram perdidos e o estúdio teve de recriar o game praticamente do zero. E apesar de se tratar de uma história tocante, não há como deixar de reparar que isso trouxe alguns problemas na parte visual do game.

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É possível notar em vários momentos o quanto a produtora tentou maquiar alguns problemas para deixar o resultado final mais “apresentável”. Elementos em segundo planos são desfocados ou apresentado com baixa resolução e é possível ver uma espécie de aura borrada em torno dos personagens durante as cenas mais claras, mostrando que nem tudo é alegria nesse relançamento em HD.

Sério, Square?

No entanto, nenhum dos erros da Square Enix com HD 1.5 ReMIX se compara com aquilo que ela fez com Kingdom Hearts: 358/2 Days. O capítulo exclusivo do DS também acompanha a coletânea, mas de uma maneira um pouco diferente, já que o estúdio optou por eliminar todos os elementos de jogabilidade e transformá-lo em um enorme filme focado na história de Roxas, Axel e no restante da Organização XIII.

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Ok, não deve ser fácil remasterizar um jogo do portátil — seria quase como um remake, como aconteceu com o próprio Re:Chain of Memories —, mas ainda assim não justifica. Por mais interessante que seja a história do Nobody, não faz sentido trazer um pacote de vídeos dentro de um jogo em um mundo em que existe o YouTube.

E o pior de tudo é que 358/2 Days é um dos títulos mais divertidos da série, principalmente por nos apresentar a perspectiva de outro protagonista. Trata-se de uma perda enorme para a coletânea, já que temos duas aventuras praticamente idênticas — tanto o Kingdom Hearts original quanto Re:Chain of Memories abordam os mesmos universos Disney e com os mesmos acontecimentos — e o  que poderia ser um diferencial é desperdiçado.

Será que não passou pela cabeça de ninguém que o pessoal quer jogar e que quem queria assistir às cutscenes já fez isso há tempos pela internet?

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