Uma boa história não precisa ser contada infinitas vezes

Déjà vu. O termo francês utilizado para descrever a sensação de já ter visto ou vivido determinada situação é a melhor forma de apresentar o novo Kingdom Hearts Re:Coded. A impressão de que tudo aquilo visto nas duas telas do portátil já não é novidade está presente a partir do momento em que você liga o aparelho.

Desde a música de abertura – alguém ainda aguenta ouvir “Simple and Clean”? – até os mundos e acontecimentos são praticamente os mesmos daquilo que já vimos nos jogos anteriores. E isso é realmente algo ruim?

Img_normalPor mais que isso pareça ser um enorme problema, é inegável que a nova aventura de Sora tem seu charme, já que essa aparente repetição tem uma razão de existir e que é muito bem explicada já nos primeiros minutos de jogo. Mais do isso, o título se mostra como essencial para quem acompanhou os demais jogos da saga e aguarda o já lendário Kingdom Hearts 3, pois ele é o elo de ligação entre o segundo e o terceiro jogo.

No entanto, também é impossível não perceber que essa repetição é cansativa, principalmente para quem já conhece a história e aguarda grandes novidades. Sendo o sexto game da série, é natural que todos os fãs esperem algo realmente inédito e que acrescente outros elementos ao universo criado por Tetsuya Nomura. Porém, Re:Coded consegue se diferenciar e empolgar como seus antecessores?

Passando a limpo seu diário de bordo

Apesar de chegar ao Nintendo DS somente agora, Re:Coded não é um jogo novo. Na verdade, o lançamento trata-se de um remake de um game disponibilizado para celulares no Japão em 2008, o que justifica a mecânica muito mais voltada para os puzzles e até mesmo a simplicidade na narrativa.

A história se inicia quando Jiminy Cricket – o Grilo Falante, de “Pinóquio” – decide organizar seus relatos das duas aventuras ao lado de Sora, Donald e Pateta. No entanto, ao verificar as anotações que correspondem aos acontecimentos do primeiro jogo, percebe que todas as páginas estão em branco e que as únicas palavras existentes não foram escritas por ele.

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O aparente pedido de socorro faz com que o pequeno inseto e o Rei Mickey peçam a Chip e Dale (conhecidos no Brasil como Tico e Teco) que inventem uma máquina capaz de resgatar os dados perdidos. A partir disso, eles descobrem que os diários foram corrompidos de alguma forma e a única maneira de consertá-los é eliminando os problemas internamente.

A solução para isso foi criar uma versão digital de Sora, o qual poderia utilizar o poder de uma Keyblade virtual para apagar todos os bugs e reescrever os códigos existentes nos mundos Disney. O problema é que o surgimento de uma figura misteriosa começa a fazer com que cenas que nunca aconteceram passem a ser exibidas, assim como o surgimento de novos pedidos de ajuda nas anotações.

Img_normalNem mesmo a promessa de ser o gancho com Kingdom Hearts 3 consegue salvar Re:Coded da mediocridade. Não que ele seja um jogo ruim, mas não consegue manter o mesmo nível dos demais games da franquia. Até mesmo 358/2 Days, criticado pela extrema repetição nas missões, consegue ser mais atraente.

A principal falha neste remake do título para celular é a falta de novidades na história. Por mais que adicione alguns elementos na trama, não é o suficiente para empolgar quem já conhece e é fã da franquia. Já jogadores que estão se aventurando pela primeira vez podem se divertir sem problemas, embora as câmeras e controles desanimem.

É impossível não comparar Re:Coded com Chain of Memories, o jogo lançado para Game Boy Advance e que fazia ponte entre os dois primeiros Kingdom Hearts. A história é basicamente a mesma: uma repetição de KH original, com apenas algumas mudanças no enredo. A diferença (e salvação) deste lançamento é a não utilização de um sistema de combate tão confuso e complicado quanto aquelas famigeradas cartas.

Por fim, a fragilidade da trama do game só deixa claro que não há mais terreno a ser preparado para a chegada de Kingdom Hearts 3. Não existe mais nenhum detalhe a ser revelado depois do que foi exibido em Birth by Sleep e a insistência em adicionar mais elementos pode fazer com que a série perca a força – o que pode ser fatal para a próxima aventura no 3DS.

Um estilo para cada mundo

O grande diferencial de Kingdom Hearts Re:Coded é a enorme variedade de jogabilidades existentes. Se você está acostumado com o estilo de RPG de ação das versões anteriores, prepare-se para ver Sora acabar com os Heartless das mais variadas formas.

Img_normalHá uma mecânica diferente para cada um dos mundos visitados, o que minimiza o efeito déjà vu do enredo. A princípio eles são iguais, com elementos de exploração e combate em tempo real, mas já com algumas peculiaridades para não tornar o game um remake do primeiro jogo. Em Wonderland, por exemplo, você deve iniciar sua jornada indo atrás dos fragmentos de memória dos personagens e então redefinir os acontecimentos. Já em Agrabah, você precisa correr contra o tempo para evitar ser vítima de um feitiço de Jafar.

A principal alteração é feita quando você encontra a Keyhole de cada universo, o que o leva aos códigos do local para que você encontre e elimine a origem das falhas. Contudo, esses bugs conseguem modificar completamente a mecânica do cenário.

É o caso de Traverse Town, que abandona todos os elementos em 3D e adota elementos de um jogo de plataforma. Já Wonderland vira um divertido shooter on-trail, enquanto Olympus Coliseum volta às origens do RPG e traz combates por turnos.

Essa variedade é uma ótima forma de diminuir o impacto negativo que temos ao reviver acontecimentos do primeiro jogo. Embora voltemos às cenas de Aladim e Hércules pela enésima vez, os novos sistemas fazem com que o enredo não soe tão repetitivo.

O melhor de tudo é que a essência de Kingdom Hearts continua intacta. Se você é apaixonado por esmagar botões para fazer com que Sora destrua todos os Heartless que encontrar pelo caminho, saiba que isso também está presente e na forma que consagrou a série no PlayStation 2.


Entretanto, é inegável que isso também causa uma queda de ritmo. Como são controles completamente diferentes para cada situação, é necessário um pequeno tutorial para explicar o funcionamento de cada um. Isso torna a ação burocrática demais, já que a cada instante é preciso parar e ler os detalhes apresentados.

Evolução planejada

Seria injusto dizer que Kingdom Hearts Re:Coded é apenas uma reciclagem dos jogos anteriores. Embora isso seja percebido em vários outros elementos, é preciso dizer que os recursos inéditos funcionam muito bem.

É o caso do sistema de evolução, aqui chamada de Stat Matrix. A árvore de progresso é bastante semelhante ao que já é utilizado em outros RPGs, com a diferença de que aqui são utilizados chips encontrados durante a aventura. A adição de melhorias nos atributos ou de novos níveis lembra muito a mecânica de 358/2 Days, mas sem tantas restrições.

O detalhe é que à medida que você insere esses cartões, o acesso aos processadores é desbloqueado e dá novas habilidades ao herói. Com isso, também é possível ampliar sua força a partir dos núcleos múltiplos e tornar, por exemplo, os combos mais extensos ou aumentar a quantidade de acessórios.

Outro recurso disponível na Stat Matrix é a liberação de truques – os famosos cheats. Calma, não estamos falando de nenhuma trapaça que atrapalhe a diversão, mas de pequenas alterações na probabilidade de aparecerem itens raros e até mesmo de modificar a dificuldade do jogo a qualquer momento.

O interessante desse sistema são as múltiplas possibilidades existentes. Você pode avançar pelo ramo que desejar, sem ser obrigado a seguir por um ou outro caminho. Algumas habilidades essenciais, como “Scan”, estão disponíveis em mais de um lugar, o que a torna acessível independentemente da evolução de Sora.Img_normal

Já a organização de itens e ataques no menu principal segue os mesmos moldes de Birth by Sleep. A Command Matrix permite que você equipe algumas habilidades, como “Fire” ou “Curaga”. Assim como já acontecia no jogo lançado para PSP, é possível fundir certos poderes para adquirir outros ainda mais fortes.

Apesar de tudo isso parecer complicado na teoria, tudo soa bastante natural e intuitivo na prática. Os tutoriais são apresentados à medida que você libera cada função, o que evita de tornar a aprendizagem tediosa.

Kingdom Hearts 3 cada vez mais perto

É fato que Re:Coded nos leva pela quarta vez aos mundos de Wonderland, Agrabah e outros universos Disney apresentados no primeiro jogo da série. Depois de vermos as histórias desses cenários serem contadas no KH original, em Chain of Memories e em 358/2 Days, o que mais nos motivaria a revisitar os mesmos locais?

A resposta está no futuro. Desde que o jogo foi anunciado para celular, em 2008, a premissa de que o enredo de Coded ligaria o segundo jogo ao aguardado Kingdom Hearts 3 fez com que a adaptação para Nintendo DS fosse ansiosamente esperada pelos fãs.

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Além disso, apesar de termos os mesmos cenários dos games anteriores, a trama de Re:Coded consegue trazer uma leve diferenciação. O retorno a Olympus Coliseum, por exemplo, deixa de ser o chato torneio das edições anteriores para mostrar uma nova busca pelo significado do que é ser um herói.

As misteriosas inscrições no Jiminy Cricket também são um convite para que você mergulhe ainda mais nos fatos e tente descobrir quem está por trás de todos os acontecimentos. Tudo se torna ainda mais envolvente se você já jogou as aventuras passadas, pois é inevitável tentar criar hipóteses e adivinhar o que está havendo.

Qualidade já característica

Mais do que a história cheia de detalhes e mistérios, a série Kingdom Hearts ficou famosa pela alta qualidade de gráfico e áudio que acompanhou toda a saga. Até mesmo o mais fraco dos títulos, Chain of Memories, conseguiu se destacar exatamente pelo alto nível do visual obtido no Game Boy Advance.

Em Re:Coded isso não é diferente. Ao ligar o Nintendo DS, você já é presenteado com a incrível abertura do jogo, novamente interpretada por Utada Hikaru. As cenas misturam trechos de todas as aventuras anteriores em ordem cronológica, indo de Birth by Sleep a Kingdom Hearts II.

As animações no meio do jogo – geralmente protagonizadas por Mickey, Donald e Pateta – também encantam. Se você faz parte do time de jogadores que considera o hardware do portátil fraco, deve dar uma olhada no que a Square Enix conseguiu fazer nas ações pré-renderizadas.

A trilha sonora também está no nível dos demais títulos, embora não tenha o mesmo impacto por se tratar de um reaproveitamento de tudo aquilo que já vimos anteriormente. O que mais chama a atenção é a dublagem, que continua impecável.

Estratégias em tempo real

Img_normalA grande novidade em Re:Coded está no sistema de batalhas. Além de reutilizar a mecânica tradicional, ele utiliza a touchscreen do DS para a elaboração de combos. Apesar de parecer complicado, funciona perfeitamente ao permitir que o jogador escolha qual finalização pretende utilizar.

Se em Birth by Sleep isso era feito no menu principal, na nova aventura isso é decidido a qualquer momento. A tela de baixo apresenta uma pequena árvore de evolução de golpes, que são habilitados à medida que pontos são adicionados ao medidor. Cada item dá um novo poder a Sora, como ataques elementais à Keyblade ou maior resistência a ataques mágicos. O interessante é que basta tocar em um deles para seguir por aquele caminho.

O único problema é que não é nada aconselhado sacar a stylus para fazer essa decisão no meio de uma luta. Contudo, nada o impede de utilizar o dedo para selecionar uma nova estratégia e alterar seu ataque final.

Mais do mesmo

Como você deve ter percebido, começamos a análise de Kingdom Hearts Re:Coded comparando-o como um grande déjà vu. Pois é exatamente essa a grande sensação que temos ao jogar a nova aventura, já que quase todos os elementos são reaproveitados dos jogos anteriores.

Algumas dessas “reciclagens” não são tão ruins, como o sistema de evolução e finalizações. Porém, é na história que percebemos o quão fraco isso é e que não há mais nenhuma lacuna que deva ser preenchida antes do lançamento de Kingdom Hearts 3. Em outras palavras, o que vemos é a mais pura e verdadeira enrolação.Img_normal
Isso acontece porque os mundos visitados em Re:Coded são os mesmo já vistos em outros três games da série. Por mais que utilizem algumas mudanças no roteiro para criar uma diferenciação, é impossível fugir do lugar comum. Alice estará novamente sem memória e Aladim terá de salvar Jasmim mais uma vez das mãos de Jafar.

Isso faz com que você não tenha ânimo para avançar na trama, afinal já sabe exatamente o que vai acontecer. Nem mesmo a perspectiva de que o grande gancho para o terceiro jogo está adiante consegue fazê-lo sentir vontade de continuar.

Sabemos que um pouco da “culpa” dessa reutilização de roteiro está no fato de o Coded original ter sido lançado para celulares, ou seja, visando também atingir um público mais causal e que desconhece todos os detalhes da franquia. No entanto, ver a mesma simplicidade ser transportada para o Nintendo DS chega a ser desanimador. Depois de vermos uma história do nível de 358/2 Days no portátil, não esperávamos um retrocesso tão grande por parte da Square Enix.

Câmera: o legado maldito

Img_normalApós seis jogos, chega a ser incompreensível como um problema tão grave consegue ser repetido por tanto tempo. Sinceramente, parece que a Square quer tornar a câmera débil uma característica permanente da série Kingdom Hearts. Sério que ninguém da equipe percebeu que é horrível lutar com o ângulo proposto e que quase todas as mortes ocorrem porque o inimigo está em um ponto cego?

Se nos outros jogos isso já era irritante, em Re:Coded a câmera consegue se tornar insuportável. Sabe quando você é atacado e nem sequer sabe o que o atingiu? Pois isso é algo bastante frequente, principalmente quando a tela insiste em ficar estática em um canto da parede.

A utilização de um ponto de vista fixo e ajustável pelo usuário não funciona no Nintendo DS, já a quantidade de botões nunca foi o grande forte do portátil. Sendo assim, é preciso apertar a tecla R para fazer com que a perspectiva se posicione atrás do personagem.

O problema é que isso não é nada intuitivo. A ação mais lógica de ser tomada é usar o R para girar a câmera para a direita, enquanto o L para a esquerda. Porém, este último botão possui outra função, o que faz com que você se atrapalhe todo durante os combates ou na tentativa de pular para um ponto específico. É possível apertar os dois botões ao mesmo tempo para ajustar da maneira que deseja, mas não é nada prático.

Isso se torna ainda pior quando o jogador decide travar a mira em um inimigo, já que o game tem a tendência de focar em blocos e itens do cenário. Em momentos que você está rodeado de Heartless, isso é fatal.

Pior ainda é quando o adversário é gigantesco, como o primeiro chefe. Se você tentar fixar seus ataques em um só ponto, a câmera decide se posicionar nas costas da enorme sombra, o que faz com que você enxergue somente uma tela preta.

As duas mãos esquerdas

Sabe aquele emblema de “Negativo” posicionado ao lado da nota desta análise? Perceba que a descrição do item “Ambissinistro” diz que é preciso ter duas mãos esquerdas para dominar os controles. Pois Kingdom Hearts Re:Coded é a personificação dessa medalha. Além da já comentada dificuldade de controlar a câmera, existem outros problemas que vão tornar a aventura um inferno.

Img_normalÉ o caso do menu de itens e habilidades, que utiliza o botão L para que você escolha a opção desejada. No entanto, o ícone de seleção gira somente em um sentido, o que faz com que você aperte o botão diversas vezes para chegar aonde deseja. Agora imagine como isso é prático na hora de buscar um “Cure” durante uma luta contra um chefe.

Segurar o L ajuda, já que você pode usar os botões X e B para mover livremente o cursor. Porém, isso traz uma nova dificuldade, já que esse modo faz com que você utilize o item selecionado ao pressionar o A, o que novamente causa transtornos durante os combates.

Já em alguns mini games nós temos a combinação entre câmera débil e controles confusos. Em um dos momentos do shooter em Wonderland, o ângulo de visão simplesmente gira, o que força o jogador a fazer o mesmo movimento com o portátil para conseguir controlar o personagem com perfeição.

Parece divertido à primeira vista, mas é um inferno na prática. Pare para pensar em como deve ser legal mudar a posição do Nintendo DS para evitar que Sora esbarre em blocos e chegue ao chefe quase morto. Acredite: o portátil de cabeça para baixo não é algo divertido de se segurar.

Diálogos desanimados

Se você já sabe exatamente por que caminhos a história de cada mundo vai seguir, é de se esperar que a desenvolvedora faça algo para tornar os diálogos mais empolgantes para que você não desista de jogar já no primeiro bate-papo, certo? Pois a Square Enix parece não ter se importado muito com isso em Re:Coded.Img_normal

Em vez de termos um balão ou caixa de texto na mesma tela que estamos, nós somos levados a uma nova cena em que aparecem figuras estáticas dos personagens. Lembra-se quando você brincava com seus bonecos e levantava um quando ele ia falar algo? Pois a sensação que temos neste Kingdom Hearts é exatamente a mesma.

Por mais que as posições e expressões variem de acordo com o que é dito, é inegável que esse formato não é nada atraente e cansa o jogador em pouco tempo. Há uma quebra de ritmo na história que prejudica toda a narrativa, que já não é das melhores, e faz com que você aperte o botão A sem parar na esperança de sair daquele papo-furado de uma vez.

72 ds
Bom