Descontrole

Imagine a seguinte situação: você é um detetive particular com uma carreira falida e, durante um caso, acaba se envolvendo com a magia chinesa. Agora, todos os criminosos da cidade estão à sua procura e, mesmo com seus conhecimentos de kung fu, eles são muitos e você é um só. A única solução é correr por sua vida.

Qualquer pessoa normal escolheria um veículo mais apropriado, como um carro ou até mesmo uma bicicleta para fugir dos bandidos. Esta lógica não funciona em Kung Fu Rider, game para PlayStation 3 no qual cadeiras de escritório, banquinhos e outros transportes nada ortodoxos são a escolha da vez.

O game é exclusivo para o console da Sony e utiliza o PlayStation Move, periférico de controle de movimentos do aparelho. Não é possível jogá-lo sem o acessório.

Como um jogo que deveria mostrar de forma divertida e criativa as possibilidades trazidas pelo PlayStation Move, Kung Fu Rider falha miseravelmente, e em todos os seus aspectos. Não é um game divertido, não é um game inovador e, acima de tudo, não serve como parâmetro para conhecer o periférico da Sony.

Ainda assim, existem pontos positivos que, em sua maioria, se concentram na área gráfica. Tais aspectos, porém, não são suficientes para salvar Kung Fu Rider. Caso você esteja em dúvida sobre a compra de um PlayStation Move, prefira games como Sports Champions ou The Shoot para tirar suas conclusões.

Física realista

Entre as artimanhas utilizadas pelos mafiosos para impedir a fuga dos personagens, está a utilização de objetos do cenário. A todo o tempo, latas, caixotes, frutas e até botijões de gás são lançados em direção ao personagem, e representam uma ameaça a mais ao equilíbrio de Toby e sua assistente, Karin.

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Os objetos possuem uma física extremamente realística. O efeito é obtido graças à utilização da engine Havok e sua alta qualidade na detecção de colisões. A tecnologia já deve ser velha conhecida dos jogadores, pois já foi usada em games como Uncharted 2: Among Thieves (PS3), Halo 3 e Star Wars: The Force Unleashed, apenas para citar alguns.

Os personagens também possuem um cuidado todo especial em relação à física que, neste caso, não é tão realista quanto a vista nos objetos. Ao serem atingidos, inimigos disparam em voo livre, atingindo e reagindo de forma caricata aos obstáculos pelo cenário. O mesmo vale para Toby e Karin. Ao caírem, ocorre também uma diminuição na velocidade do game, rendendo momentos divertidos enquanto os protagonistas se estatelam no asfalto.

Mundo colorido

Logo à primeira vista, é possível perceber que o foco principal do jogo é na diversão. O game apresenta um aspecto despojado e muito pouco sério. Isso é muito pertinente, pois, afinal de contas, não é possível esperar que um game sobre cadeiras de escritório correndo ladeira abaixo se leve muito a sério.

A cidade de Kung Fu Rider exala vida. Além dos diversos objetos que são arremessados em direção ao jogador, é possível observar transeuntes, carros trafegando, lojas funcionando e tudo que poderia ser visto em um município real. Todos os elementos interagem ao mesmo tempo de maneira natural e sem causar quedas na contagem de frames por segundo.

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Os personagens também são capazes de interagir com o que está acontecendo, e apresentam divertidas expressões faciais. Isso é percebido principalmente em Karin, protagonista que promete deixar muito marmanjo babando em frente ao PlayStation 3.

Péssima demonstração

Kung Fu Rider foi um dos títulos de lançamento do PlayStation Move. E, como a esmagadora maioria dos títulos que saem juntamente com um novo console ou acessório, tem como principal objetivo demonstrar as capacidades e possibilidades proporcionadas pela novidade.

Se a ideia da Sony com este game era demonstrar a que o Move veio, dá para dizer que o tiro saiu pela culatra. Kung Fu Rider não funciona bem, com controles que não respondem corretamente e jogabilidade falha. Estes problemas são encontrados de diversas formas diferentes ao longo do título, e contaminam praticamente todos os seus aspectos.

Um exemplo gritante é o tipo de movimentos que o game requer para realizar certas ações. Por exemplo, para andar mais rápido pelos cenários, é preciso chacoalhar o Move para cima e para baixo. Para fazer o personagem saltar, basta movê-lo para cima. Simples, certo?

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Tudo estaria bem se as ações não fossem parecidas e o game tivesse dificuldade em diferenciar uma da outra. Na maioria das vezes, o jogador se verá seguindo muito rapidamente na direção de um obstáculo quando, na verdade, a intenção era saltar sobre ele.

Outro problema parecido ocorre com o dash, que permite ao personagem um surto temporário de velocidade acima do normal e ativado ao se movimentar o Move para a frente. O game tem sérios problemas em entender quando o jogador realmente está fazendo isso e, desta forma, acaba levando o personagem em uma corrida constante, rápida e praticamente incontrolável.

Mas o principal empecilho, porém, está na calibragem do periférico. A sincronia do Move com a câmera se perde muito facilmente, e o resultado é um personagem virando sozinho para um dos lados enquanto o jogador segura o controle parado e assiste a tudo impassível. Para resolver isso, só calibrando o controle novamente. Após isso, é torcer para que a regulagem não seja perdida em um momento crítico.

Kung fu?

Apesar de estar no título do game, e da trama se passar em Hong Kong, praticamente não existem elementos de kung fu no game. Ou melhor dizendo, eles até estão lá, mas prestam pouco ou nenhum auxílio durante o game, e acabam passando apenas como perfumaria.

Movimentos da arte marcial são realizados por meio dos botões “quadrado” ou “triângulo”, aliados a movimentos com o PlayStation Move. Os golpes são acrobáticos e, por isso, levam alguns segundos para serem realizados. Durante o tempo que o personagem leva para realizar a pose, é muito fácil ser atingido por um ataque inimigo.

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Sendo assim, a utilização dos golpes acaba sendo deixada de lado em detrimento do ataque padrão, ativado pelo botão central do Move. Uma simples girada de cadeira é suficiente para acabar com os mafiosos pelo caminho, e excluem a possibilidade de morrer devido aos atrasos na animação do personagem.

Os golpes de kung fu não são os únicos que servem de enfeite no game. Os personagens também possuem um passo lateral, que teria como principal objetivo facilitar o desvio dos objetos no cenário. O movimento, porém, passa despercebido em meio a todo o caos que toma conta da tela e, na maioria dos casos, é melhor confiar apenas no Move para guiar o personagem ladeira abaixo.

Trama inexistente

Img_normalCostuma-se dizer que um game não é nada sem uma trama. Para rebater este argumento, alguns costumam dizer que um jogo na verdade é um conjunto completo, com todos os elementos coexistindo em harmonia para formação de um pacote final: roteiro, gráficos, jogabilidade, personagens carismáticos, são apenas alguns elementos de um game perfeito.

Este pacote harmonioso é muito distante do que pode ser visto em Kung Fu Rider. Além dos problemas de jogabilidade já citados, o game possui uma trama que está lá apenas para dizer que existe, e não é explorada em momento algum. A história é brevemente contada durante o menu inicial e, se cortada, não fará diferença alguma no restante do jogo.

Pouca variedade

Você termina uma descida alucinante por uma ladeira sinuosa, escapando de bandidos, coletando dinheiro e desviando de todo tipo de objeto possível. Passa para a próxima fase com recorde de pontuação. E começa tudo de novo. É basicamente a isso que Kung Fu Rider se resume.

Apesar da ideia inusitada e do cenário interessante, o game cansa muito rapidamente por impor sempre os mesmos desafios ao jogador. Não há inimigos diferentes, obstáculos variados ou novos objetivos à medida que se avança no game. Após duas ou três fases, a fórmula fica velha e pode levar o jogador a abandonar o jogo sem pensar duas vezes.

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O avanço das fases, e o aumento na dificuldade que o acompanha, seria a oportunidade perfeita para a introdução de novos elementos. O nível de desafio, porém, é ampliado simplesmente pela adição de um maior número de obstáculos, que passam a seguir em direção ao jogador cada vez mais rapidamente.

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