Uma jogabilidade rasa e controles imprecisos fazem de Lair uma decepção aos fãs do PS3.

De tempos em tempos, títulos de sucesso surgem do nada, desenvolvidos por produtoras pouco conhecidas e sem a tamanha expectativa gerada em seu torno que muitos outros games recebem. Entretanto, o contrário é muito mais comum; muita publicidade e expectativa sobre o game acabam causando uma tremenda decepção após o lançamento deste quando nem todas as promessas são cumpridas.

Lair é um destes games. Desenvolvido pela empresa responsável pela aclamada série Star Wars: Rogue Squadron, Factor 5, e publicado pela própria Sony, o título foi divulgado como uma obra digna de alavancar as vendas do Playstation 3, assim como a gloriosa série God of War fez com o Playstation 2.

Mas infelizmente promessa nem sempre é dívida. Lair peca em diversos aspectos, mas o mais destacável é a jogabilidade. Contando com uma proposta diferente — a única forma de controle em Lair é através do uso de movimentos do Sixaxis —, o título coloca você na pele de um montador de dragões de uma nação em conflito.

Uma guerra épica

Lair se passa em um mundo ameaçado por inúmeros vulcões ativos, causando um conflito constante pela sobrevivência. Desta guerra participam dois povos, os Mokai, cujo território possui recursos naturais escassos, e os Asylians, que vivem em um local onde a natureza ainda é viva, e os recursos, abundantes.

Você joga na pele de Rohn, um montador de dragões da tropa dos Asylians, que devem defender bravamente seu território. Os Mokai, em contrapartida, atacam constantemente os Asylians visando obter suas terras. No entanto, na corrida pela defesa e contra ataque de suas terras, os líderes dos Asylians se envolvem em conflitos internos e quem fica encarregado de desconbrir toda a verdade por trás disso é você.

O enredo de Lair é contado de forma linear e cinematográfica, com diversas animações entre as fases e uma série de narrações contextualizando cada uma das missões. A narrativa é feita adequadamente e deixa claro ao jogador como todos os eventos do game acontecem.

Chuvas de fogo

A proposta de Lair é diferente e inovadora; o jogo consiste basicamente em guiar um dragão pelos céus lutando contra outros dragões, monstros ou soldados. Entretanto, em plena época na qual jogos oferecem um caminhão de possibilidades, o título acaba tornando-se raso e, após algum tempo, monótono.

As missões consistem basicamente em proteger determinado aliado ou destruir certo alvo. Para fazê-lo, você possui uma série de possibilidades. Seu dragão cospe fogo e tem garras e dentes afiadíssimos que também são armas importantes, entretanto, cada inimigo exige determinada estratégia para ser derrotado.

Como a maior parte de seus oponentes são dragões, o mais usual no game é o combate aéreo. Ao visualizar um adversário em tela, uma pequena circunferência surge sobre ele, possibilitando ao jogador fixar a mira. Ao se focar em um inimigo, é possível cuspir bolas de fogo — que são bastante eficientes —, iniciar um combate aéreo (muito semelhante ao sistema de combate utilizado em God of War 2 com o pégasus) ou uma seqüência na qual Rohn pula de seu dragão e ataca diretamente o montador do dragão inimigo — para suceder o ataque, basta seguir uma seqüência de comandos indicados na tela.

Em determinados momentos, seu dragão também vai entrar em combate direto com o de seu inimigo. Neste caso, o jogador com reflexos mais rápidos tem vantagem; basta apertar quadrado, triângulo, círculo e X para soltar fogo e desferir golpes ou mordidas.

Quando o alvo está em solo, entretanto, há outras opções. Adversários menores podem ser carregados pelo dragão e arremessados para longe ou atacados pelo bafo de fogo da gigantesca criatura. Além disso, é possível pousar com o dragão e atacar diretamente seus inimigos com fogo ou golpes da cauda e garras do animal ou até engolindo-os.

Há ainda batalhas especiais contra chefes, que geralmente exigem táticas diferentes, como encontrar e atingir o seu ponto fraco e/ou acertar seqüências de comandos dispostos na tela para que os ataques surtam efeito sobre ele.

Embora grande parte do game se resuma às batalhas, há ainda outros tipos de objetivos ao longo do jogo, como destruir um gerador ou bombardear uma cidade, entretanto, nenhum deles oferece maior desafio, apenas uma dificuldade frustrante e sem fundamento por conta dos controles imprecisos do jogo.

Uma luta pela sobrevivência

Lair peca gravemente em um dos aspectos que mais havia prometido: os controles. O dragão é controlado através de movimentos do Sixaxis, ou seja, para virar à direita, por exemplo, é preciso inclinar o controle à direita e assim por diante. Pode soar inovador e até interessante, entretanto, os controles não respondem adequadamente aos movimentos e é impossível fazer manobras essenciais como curvas mais fechadas, por exemplo.

O Sixaxis também pode ser utilizado para outros tipos de movimentos mais específicos, como um giro de 180 graus em torno de si mesmo ou um aumento breve na velocidade do vôo, cujos comandos são um rápido movimento para cima e para baixo, respectivamente, com o controle. Entretanto, os comandos dificilmente funcionam de maneira adequada e geralmente acionar um deles significa realizar outro.

A imprecisão dos controles acaba com a jogabilidade, afundando todos os outros elementos do jogo consigo, pois interfere diretamente na diversão. É frustrante não conseguir realizar um objetivo simples e fácil por culpa dos controles e, após algumas tentativas frustradas, o mais natural é logo desistir do jogo.

Digno de cinema

Embora seja necessário muito mais que gráficos bons para salvar Lair, é importante frizar a qualidade da produção do game. Os gráficos são conceitualmente e tecnicamente muito bons, com cenários muito bem escolhidos, texturas interessantes e animações boas. O tema do game também colabora para a construção de um lugar repleto de castelos colossais, montanhas magestosas e paisagens exuberantes.

No entanto, há algumas falhas de programação que se refletem nas animações, como quando o protagonista cai no mar; ao invés de afundar, este rebate como se a água fosse uma cama elástica. Além disso, a câmera — adequada para dar um ar cinematográfico ao game — realiza mudanças de ângulo horríveis e faz você perder toda a noção do que está acontecendo ao seu redor. Isto ocorre principalmente quando o protagonista bate contra um objeto do cenário — há uma parede invisível que impede o dragão de atingir montanhas e torres, por exemplo, alterando o curso do vôo do animal e interferindo na posição da câmera.

A sonoplastia em Lair, por sua vez, é satisfatória; há efeitos de som bons e ruins durante o game. O mesmo pode ser dito das dublagens e narrações. A trilha sonora, no entanto, é de se tirar o chapéu. Compostas por John Debney, o famoso compositor da aclamada trilha sonora do filme “A Paixão de Cristo”, as músicas contribuem significativamente na construção de um clima cinematográfico e épico.

Quanto mais alto o vôo, maior a queda


Não há dúvidas que Lair é uma produção de valor, com um enredo muito bem contato, gráficos muito interessantes e uma trilha sonora excelente. No entanto, como jogo, o título deixa muito a desejar; os controles são imprecisos, a jogabilidade é rasa e a mecânica, como um todo, foi muito mal construída.

Mas o maior problema de Lair é a expectativa que foi gerada em torno do game antes mesmo deste ter sido lançado. Prometendo controles inovadores e uma jogabilidade intuitiva e dinâmica, o game decepciona, com controles sem resposta e uma jogabilidade fraca e rasa. Como produção gráfica e cinematográfica, Lair merece destaque; como jogo, entretanto, o melhor é esquecê-lo.

38 ps3
Vergonhoso