O desperdício de uma boa proposta diabólica [vídeo]

Gameplay BJ


Personagens movidos por ideais mesquinhos são algo relativamente raro na indústria de games. Afinal, o mais comum é encontrar aquele sujeito que “parece, mas não é” — o anti-herói, cuja complexidade psíquica normalmente oculta alguém tão moral quanto o Super-Homem ou o He-Man.

Bem, mas esse é exatamente o caso de Lucius. O pequeno protagonista do jogo homônimo não parte em nenhuma vendeta. Ninguém assassinou os seus pais de forma brutal para que ele, cegado pela raiva, passasse a matar de formas horrendas boa parte das pessoas que dividem com ele o mesmo teto. Na verdade, o pai e a mãe do menino não poderiam ser mais carinhosos e atenciosos.

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De fato, a Shiver Games não se vale de nenhum tipo e disfarce ou caminho oblíquo aqui. Lucius é simplesmente controlado pelo próprio Diabo para matar de forma sanguinolenta uma longa fila de vítimas tão desonestas, glutonas e asquerosas quanto qualquer ser humano pode facilmente ser. Afinal, o menino é o resultado direto de um pacto feito por seu avô em busca de sucesso e dinheiro.

Se isso tudo soa bem? Com certeza. Se a indústria andava precisando desesperadamente de uma desenvolvedora com liberdade criativa suficiente para desenvolver algo tão incrivelmente controverso? Sem sombra de dúvida. O problema é quando a coisa toda é colocada para funcionar...

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Lucius é mais um daqueles casos típicos em que uma ideia genial não é acompanhada pela parte mais técnica da coisa toda. São bons nacos de história, visões artísticas ímpares e uma boa pá de sacadas espertas temperadas com o salitre de uma engine tosca, de texturas defeituosas e de uma inteligência artificial digna do grupo das leguminosas. Mas, é claro, vale olhar tudo isso mais de perto.

Lucius é um caso absolutamente típico de uma ideia mal aproveitada. Com certeza a indústria de games necessita desesperadamente de propostas “imorais” que nascem da mais pura liberdade criativa — algo que se vê nas telas dos cinemas há muito tempo.

O problema é que a parte técnica aqui simplesmente não convence. Quer dizer, embora seja revigorante encontrar um protagonista tão irremediavelmente maligno e perturbador quanto uma criança possessa pelo Diabo, quando Lucius os objetos começam a atravessar paredes (sem intenção prévia) ou quando algumas texturas vergonhosas aparecem... Fica realmente difícil manter o pique.

Talvez o melhor seja tentar “ler” na proposta da Shiver Games um sinal de novos tempos — embora essa seja uma proposta bastante moralista, é verdade.

Genuinamente diabólico

Conforme dito anteriormente, Lucius não é o tipo de jogo maligno que traz consigo um “mas”. Não mesmo. Trata-se de um garoto de seis anos que, controlado pelo próprio Diabo, passa a matar empregados e membros da sua abastada família. E é só.

É claro, há um núcleo “bom” aqui. Trata-se do detetive que investiga a estranha sequência de mortes. Entretanto, o sujeito encontra-se completamente perdido durante boa parte do jogo e, bem, ele não é o protagonista, certo?

Complementando a boa proposta diabólica, Lucius mata sempre por motivos banais — incluindo bebedeira, humor ranzinza e certo caso de perversão — e sem sofrer de nenhuma crise de consciência. E mais: nem mesmo a mais leve suspeita chega a cair sobre os ombros do garoto — caso isso ocorra, é “Game Over” instantâneo.

Point and click + ação

A despeito de várias pontas soltas aqui e ali (mais detalhes adiante), Lucius consegue trazer uma boa combinação entre dois estilos quase mutuamente excludentes. Basicamente, na utilização de itens e interações, o game cai em cheio nas propostas clássicas de títulos point and click.

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Entretanto, há também momentos em que algo deve ser feito rapidamente, incluindo ainda situações em que Lucius tem que se manter longe das vistas para concluir seus intentos sombrios. E nesse momento, a trama ganha infusões leves mais bem-vindas de tensão e (vá lá) de adrenalina.

Boa atmosfera

Considerando-se a aura quase indie que permeia todo o game, é realmente interessante perceber que a Shiver Games realmente conseguiu criar uma boa atmosfera aqui. Quer dizer, ok, há glitches aqui, falhas de câmera ali (mais detalhes adiante) — mas há também excelentes tomadas (takes) e músicas que quase fazem esquecer os deslizes todos.

Inúmeras arestas por aparar

Não é preciso se embrenhar muito em Lucius para perceber que, tecnicamente, a coisa toda aqui deixa muito a desejar. São personagens com expressões caricatas, sincronia labial quase cômica, texturas defeituosas e alguns problemas verdadeiramente terríveis de interação entre o personagem e os cenários. Há membros e itens atravessando paredes a todo o momento mais uma série de movimentos em nada convincente.

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A boa e velha câmera

A câmera de Lucius pode realmente ser um problema. Embora a ideia de poder afastar ou aproximar o foco seja, a princípio, bastante interessante, isso não exatamente funciona como deveria. Dessa forma, em várias ocasiões haverá itens tapados pela cabeça do menino e as rotações de câmera normalmente levam a quebras gráfica capazes de mandar para o Inferno todo o clima.

Q.I. de abóbora

Sim, há um motivo pelo qual todos na mansão da família de Lucius mereceriam morrer. Isso porque, ao que parece, todos aqui são irremediavelmente estúpidos e robóticos — sempre percorrendo os mesmos caminhos, sempre disparando os mesmos comentários. Não há propósito e não há lógica em praticamente todas as interações “ao acaso” aqui.

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Liberdade ilusória

Considerando-se a imensa mansão pela qual Lucius perambula e executa suas maquinações, uma conclusão pode ser razoável: deve haver liberdade de escolha e de movimentação, certo? Errado. Há sempre apenas uma única forma de despachar cada uma das vítimas do garoto e, na maior parte do tempo, simplesmente não faz muito sentido sair explorando o cenário.

60 pc
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