A irregularidade de um sonho

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Afinal, o que são os sonhos? Há quem diga que eles são a expressão daquilo que se esconde em nosso subconsciente enquanto outros preferem vê-los como mensagens premonitórias. Ou seria uma forma de o cérebro organizar todas as informações e memórias acumuladas ao longo do dia?

São tantas teorias que é praticamente impossível dizer com exatidão qual delas está correta. E talvez tenha sido por isso que a AlphaDream tenha decidido abraçar todas elas para fazer com que Mario & Luigi: Dream Team se tornasse tão surreal quanto sua proposta. Afinal, no mundo dos sonhos, tudo é possível e não existem regras para nos dizer o que é certo e errado.

E esse é exatamente o maior trunfo do game. Como não existem limitações lógicas dentro desse universo onírico, a produtora teve total liberdade criativa para experimentar mecânicas inéditas e aproveitar os recursos do 3DS com alternativas únicas que surpreendem pela criatividade. Como em um sonho, o absurdo se torna plausível e incrivelmente convidativo.

O mundo dos sonhos oferece muita liberdade criativa, mas cobra seu preço por isso. Mario & Luigi: Dream Team consegue introduzir várias mecânicas inéditas com base no surreal para criar experiências únicas na jogabilidade. No entanto, essa grande quantidade de novidades vem acompanhada de muitas explicações que atrapalham a narrativa e fazem com que o progresso da onírica aventura seja repleto de tropeços e com um avanço bastante lento.


Isso não significa que Dream Team é um jogo ruim. Muito pelo contrário: ele é incrivelmente divertido e é muito prazeroso explorar o subconsciente de Luigi a fim de conhecer um pouco mais da personalidade do herói. O problema, na verdade, é o enorme potencial que a AlphaDream tinha em mãos, mas que não soube utilizar. Ela fez grandes promessas e até conseguiu trazê-las ao jogo, mas não soube costurá-las de maneira coesa de modo que a experiência completa fosse tão incrível quanto os trailers e discursos pré-lançamento indicavam.

No final das contas, a impressão que fica é que o novo Mario & Luigi é feito de grandes momentos que funcionam muito bem isoladamente, mas que não encontram uma forma coesa de se juntar e tornar toda a viagem na Pi’illo Island ainda mais prazerosa. Dream Team é um jogo divertido e interessante, mas longe do que ele poderia ter sido.

O atrativo do surreal

Isso só é possível, no entanto, graças à brecha que a própria história nos apresenta. Na trama, Mario, Luigi, Peach e os demais habitantes de Mushroom Kingdom são convidados a passar as férias em Pi’illo Island, a ilha onde seus sonhos se tornam realidade — embora de uma maneira muito mais literal. Lá, eles descobrem a existência de uma antiga sociedade que era capaz de visitar o mundo dos sonhos, mas que, de alguma forma, se perdeu no tempo.

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É a partir do momento em que a sempre indefesa princesa é raptada por um misterioso inimigo que a diversão começa. Como a frequência do sono de Luigi se assemelha muito à do povo que habitava aquele local, ele é capaz de abrir portais para esse mundo paralelo e de nos oferecer os momentos mais divertidos do jogo.

Como mencionado anteriormente, a falta de regras permitiu ao estúdio dar asas à imaginação e criar situações originais com mecânicas novas e incrivelmente viciantes. Por se passar em um sonho do herói de boné verde, fazê-lo se transformar em uma árvore, pendurar-se em seu bigode ou ver centenas de clones surgirem à sua frente são loucuras tão aceitáveis que você não vê a hora de repetir a dose.

E tudo isso funciona muito bem graças ao incrível uso da touchscreen do portátil. Como os trailers já mostraram, o verdadeiro Luigi dorme na tela inferior enquanto sua consciência e seu irmão exploram o mundo dos sonhos na parte superior, o que nos permite interagir com seu corpo para gerar efeitos variados dentro da aventura.


Isso também afeta o sistema de combates. Assim como nos demais jogos da série Mario & Luigi, a dupla deve agir em conjunto para enfrentar os inimigos da forma mais criativa possível. E, em Dream Team, o sonho também pode ser usado como arma. Prova disso é a utilização de centenas de Luigis para criar uma enorme bola que passa por cima de qualquer ameaça.

No entanto, por mais criativas que essas loucuras sejam, elas são bem restritivas. Só é possível executar determinado tipo de ação quando o jogo permitir, o que deixa a ação bem roteirizada, contrastando com a liberdade a qual o jogo se propõe. Além disso, essas habilidades só funcionam no mundo dos sonhos. Pi’illo Island também nos reserva algumas novidades, embora menos interessantes, como o uso das marretas para encolher os protagonistas para acessar áreas específicas.

Um RPG para todos

A série Mario & Luigi sempre se destacou por ser um RPG bem simplificado. E Dream Team mantém essa linha, embora consiga expandir as possibilidades e criar novos recursos ao mesmo tempo em que mantém a tradicional acessibilidade.

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Apesar de os cenários serem bem limitados, eles oferecem boas recompensas àqueles que decidirem explorá-los. São vários itens, habilidades e portais para o mundo dos sonhos que se escondem em cada canto do mapa.

O gerenciamento de habilidades e equipamentos também retorna, mesmo que com pequenas variações. O interessante aqui é a curva de aprendizado, que se desenvolve muito bem e conduz o jogador de forma intuitiva às especificações. Você passa a distribuir pontos de atributos e a adquirir novas habilidades com a mesma naturalidade com que comprava sapatos e macacões para os protagonistas no início da aventura.

Img_normalO sistema de combate também segue a linha de seus antecessores, trazendo apenas momentos que aproveitam o uso do 3D como grande novidade. De resto, temos a fórmula já conhecida que, com a adição do já comentado poder dos sonhos, torna tudo muito mais divertido. Ao contrário de outros RPGs, não se trata apenas de escolher a melhor ação, mas de saber executá-la na hora certa. Tudo gira em torno do timing ideal.

Um delírio artístico

Se você jogou os Mario & Luigi anteriores, certamente vai se impressionar com Dream Team. Isso porque ele mantém a mesma identidade visual, embora tenha conseguido fazer uma evolução artística impressionante.

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Apesar de o Nintendo 3DS ter um hardware capaz de ir muito além daquilo que a AlphaTeam ofereceu, a decisão de trabalhar com sprites deixou tudo ainda mais bonito e expressivo. Além da parte visual que já se destaca por si só, tudo é muito vivo e envolvente, reforçando o bom humor que já é típico da série.

Além disso, Dream Team consegue tocar em um ponto muito interessante em sua narrativa. Em determinado ponto da trama, visitamos o subconsciente do Luigi e conhecemos um pouco de seus medos e inseguranças. Para quem acompanha a saga dos irmãos há bastante tempo, é impossível não se sentir tocado com a forma como o “herói coadjuvante” se vê.

Blá, blá, blá

Apesar de Mario & Luigi: Dream Team tentar se afastar dos clichês dos RPGs ao trazer um sistema bem facilitado, ele não escapa da maldição dos diálogos infinitos. Na verdade, ele consegue ser pior do que a maioria dos jogos do gênero, trazendo longas explicações para toda e qualquer ação que seja possível dentro do jogo.

Isso faz com que as primeiras horas de aventura sejam dedicadas apenas à leitura de tutoriais e momentos guiados por algum NPC chato. O jogo quer ser tão acessível que trata o jogador como idiota, fazendo longos discursos sobre recursos extremamente intuitivos.

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Pode parecer brincadeira, mas a impressão que eu tive é que AlphaTeam realmente se perdeu na hora de introduzir suas mecânicas e decidiu pecar pelo excesso. O resultado é que, em muitos momentos, você é obrigado a ver duas vezes as explicações sobre o modo como uma habilidade funciona e não há nada que possa ser feito para evitar.

E isso não fica apenas nos guias. Ao entrar em uma área nova, você pode esperar um diálogo instrutivo que vai deixar explícito o que deve ser feito para superar determinado obstáculo. A exploração citada anteriormente não está na forma de resolver os puzzles ou superar um desafio, mas apenas em encontrar itens escondidos. Todo o resto é entregue com uma facilidade impressionante que mata muito da diversão do jogo.

Essas conversas desnecessárias não incomodam apenas por sua irritante frequência, mas por quebrarem o ritmo a ponto de você não se sentir incentivado a continuar. São tantas explicações prolixas que o sentimento de progresso vai morrendo aos poucos, dando ligar ao sono. Se a ideia era brincar com o sonho, o longo “blablablá” já conseguiu me dar sono.

75 3ds
Bom