Matterfall é pura explosão de partículas na tela com uma dose de desafio

Resogun ganhou minha admiração e fez com que a Housemarque, o estúdio responsável, também tivesse meu respaldo. Passei a observar os passos da desenvolvedora, que tem no currículo Alienation, Dead Nation, Outland, Super Stardust Delta, Nex Machina e, agora, Matterfall.

É curioso notar que os artistas independentes, quando estabelecem uma fórmula que funciona no mercado, importam a mesma filosofia a todos os seus projetos, em estilos que ficam muito próximos. Com Matterfall não é diferente: as mecânicas de tiro em twin-stick, o ritmo frenético em arcade e a explosão de partículas na tela estão ali, reutilizados de maneira inteligente e com o tempero do side-scrolling. É quase um sucessor espiritual de Resogun, um dos títulos de lançamento do PS4.

Gostoso de jogar

A história do jogo é mero pretexto; temos uma heroína cuja aparência lembra, por coincidência (proposital, talvez), a Samus Aran de Metroid. Autodenominada “freelancer”, a personagem deve conter uma ameaça alienígena.

Em Matterfall, o analógico direito é usado para atirar em formato multidirecional, enquanto os botões de cima executam praticamente todas as outras ações principais. O comando de pulo, por exemplo, é o R1. De cara, você estranha; com o tempo, se acostuma. E faz sentido: dessa forma, pode-se saltar e atirar ao mesmo tempo, sem deslocar os dedos para anular alguma ação.

O mapeamento focado nos quatro botões de cima é a grande sacada de Matterfall

O mapeamento focado nos quatro botões superiores, na verdade, é a grande sacada de Matterfall, que aposta nos seus reflexos ao executar os movimentos no meio do fogo cruzado. Por osmose é fácil recorrer ao X ou ao quadrado. É comum se confundir no momento em que você se lembra de usar os botões de cima. Mas, com o tempo, o exercício desse hábito se traduz em uma sensação de superação do jogador, do tipo: “eu posso me adaptar”.

Nó no cérebro…

L1 é o comando de dash (traduzido como "investida" no jogo). Pode ser usado no chão e no ar para se esquivar de projéteis inimigos e deixá-los vulneráveis. O L2, por sua vez, faz com que a protagonista gere “matéria”, que nada mais é do que um raio laser capaz de criar plataformas pré-definidas em algumas fases.

É uma pirotecnia de encher os olhos – embalada pela trilha sonora eletrônica que a Housemarque já demonstrou conhecer em projetos anteriores

É tudo bem dinâmico e funcional, mal dá tempo de processar as ações. Os inimigos pipocam na tela o tempo inteiro, de maneira aleatória, em pontos ingratos da tela. Alguns sabem pensar, saltam e usam escudos; outros são destruídos com um único tiro.

A mistura disso tudo dá um nó no seu cérebro – especialmente porque você só usa os botões de cima. O mesmo serve para os chefões: confusos propositadamente, mas colossais em tamanho.

Os únicos que têm alguma serventia no meio do controle são os botões do D-Pad (que trocam de arma) e o quadrado. Ele ativa o especial, que desacelera toda a ação, deixa você temporariamente invencível e ainda distorce todas as cores da tela. É uma pirotecnia de encher os olhos – e embalada por aquela trilha sonora eletrônica que a Housemarque já demonstrou conhecer em projetos anteriores.

Apesar do caráter aleatório, as seções se repetem e ofuscam um pouco o brilho do level design, que não consegue esconder muito bem os civis que você precisa resgatar. As fases são todas parecidas, praticamente se reciclam de uma para outra. O que vai impedir que o tédio se alastre é a rapidez com que toda a ação acontece, assim como em Resogun e Nex Machina, que são quase irmãos gêmeos.

Gravidade zero e pequenas frustrações

Além dos trechos em plataforma, dos saltos e dos tiros, Matterfall traz momentos de “gravidade zero”, em que você flutua e deve desviar de projéteis com a perspicácia que deveria ter em um G Darius ou em um Asteroids da vida. Prepare-se psicologicamente para sofrer nesses trechos e para uma pequena frustração: os tempos de loading são mais demorados que o normal e quebram o ritmo ao morrer e recomeçar.

Sem precisar ser profundo, ter ambições astronômicas ou criar complexidades, Matterfall é aquele chiclete que você coloca na boca e, enquanto o açúcar durar, é delicioso, mas, depois, enjoa um pouco e pede um intervalo

A esquiva com o L1 é interessante, mas confiar nessa única mecânica para desviar dos projéteis também pode fazer você torcer um pouco o nariz. Primeiro, porque não há um indicador na tela para apontar o resfriamento do mecanismo. Dessa forma, você tem que contar alguns segundos de cabeça para utilizar o golpe novamente.

Segundo, porque, por tabela, é absolutamente normal buscar a fonte dos disparos. Só é frustrante detectar que, bem, a personagem é inútil diante de alguns elementos que apenas atiram em você e simplesmente não podem ser derrotados – só dá para desviar, mas não eliminar.

Resumo da ópera

Matterfall é curto, mas reserva momentos agradáveis e desafios de sobra para quem quiser se arriscar nos placares de líderes e, sobretudo, platinar a aventura. Após fechar o game no modo Veterano, a opção Mestre é desbloqueada e o salto de dificuldade é significativo: seus tiros causam menos dano, você morre com mais rapidez e há mais inimigos na tela.

Sem precisar ser profundo, ter ambições astronômicas ou criar complexidades, Matterfall é aquele chiclete que você coloca na boca e, enquanto o açúcar durar, é delicioso, mas, depois, enjoa um pouco e pede um intervalo.

A ausência de um indicador do dash, a reciclagem de cenários e o penoso tempo de loading geram alguns momentos de frustração que logo são amenizados pela paulada que vem na sequência – e a explosão de partículas na tela é um colírio aos olhos para o alívio desses problemas.

Se você curtiu Nex Machina, Alienation e especialmente Resogun, vá fundo em Matterfall. A melhor forma de desfrutar dessa experiência é intercalando-a com outro jogo maior. Encare com um ar de descompromisso que a diversão estará assegurada.

75 ps4
Bom
"Matterfall é como um chiclete: a melhor parte vem no começo e, eventualmente, repete o sabor. Mas o selo de diversão da Housemarque está garantido"

Pontos Positivos

  • Partículas explosivas na tela são um colírio aos olhos
  • Desafiador na medida certa
  • Mapeamento dos principais comandos nos botões de cima é uma boa sacada
  • Trilha sonora eletrônica que combina com o ritmo do jogo

Pontos Negativos

  • Cenários que se reciclam
  • Level design simples e previsível, que não esconde muito bem os civis a serem resgatados e outros itens
  • Faltou um indicador de resfriamento para o dash
  • Tempos de loading um tanto ingratos, que quebram o ritmo