O melhor mix de shooter, stealth e survival está em Metro Exodus

Existe sempre um frescor quando experimentamos o design de um estúdio fora do circuito Ocidental, seja nas bizarrices japonesas de um Yakuza ou no folclore polonês de um The Witcher.

Por essa lógica, a franquia Metro é diferente por natureza, já que foi feita pelos ucranianos da 4A Games e inspirada pelos livros de Dmitry Glukhovsky, usando uma Rússia pós-apocalíptica como cenário.

Mas vai além disso. Metro se destaca por sua dificuldade, onde tudo que a guerra criou tenta matar você; pelo realismo e mecânicas de sobrevivência; pela melancolia e histórias ouvidas paralelamente que enriquecem a narrativa.

Você pode até concluir ao final deste review que Metro Exodus não é seu tipo de jogo, mas eu espero conseguir meu objetivo: mostrar por que ele é um game que não apenas vai além do convencional, mas também entrega uma campanha de 20 horas sensacional.

A viagem de um ano pela Rússia

O mundo de Metro, apresentado nos games anteriores como algo melancólico e claustrofóbico, ganha mais camadas de profundidade com a nova trama. Ao longo de um ano, o protagonista Artyom e seus colegas vão pela Rússia pós-guerra nuclear explorar áreas com climas e inimigos diferentes a bordo do trem Aurora.

A locomotiva também funciona como sua área segura entre as missões para descobrir mais sobre quem são as pessoas que viajam com você. Essa é uma tripulação formada por indivíduos que pouco a pouco vão revelando suas personalidades e ganhando espaço no coração do jogador.

Anna, por exemplo, é extremamente carismática e vai defender o lado de seu marido Artyom a qualquer custo. Você provavelmente vai querer passar um tempo a mais com ela para ouvir todas suas falas e sua visão sobre os eventos.

Metro Exodus Anna

Afinal, por baixo dos combates e perigos, Metro sempre foi sobre humanidade. Tudo que a sincronia labial desses NPCs deixa a desejar é compensado pelas ótimas animações faciais e de linguagem corporal.

Exodus não tem vozes em português, apenas legendas. No geral, o voice acting em inglês com sotaque russo é razoável. Existe a opção de vozes em russo que os fãs hardcore adoram, mas eu recomendo habilitar isso só em uma segunda campanha se você não falar russo, já que apenas diálogos acompanhados de perto são legendados e você pode perder informações interessantes.

Protagonista silencioso: será que funciona?

Artyom mantém na Aurora um diário bastante completo que traz descrição de lugares, armas e até revela o que ele pensa de cada personagem. Por isso é tão frustrante a decisão de design em manter ele como protagonista silencioso nesse terceiro jogo.

Apesar de tudo que é relacionado à ambientação ser extremamente eficiente em contar essa história, o elo frágil da narrativa está em controlar um personagem que entra em conversas com NPCs que às vezes precisam falar à exaustão para compensar a falta de diálogo.

Em diversos trechos do jogo, os colegas de Artyom tentam se comunicar pelo rádio, perguntando se ele está bem, se está vivo. E ele simplesmente não responde. Os desenvolvedores dizem que Half-Life foi a maior inspiração para a série Metro, mas não estamos mais em 1998 ou 2005, e protagonistas silenciosos, projetados para terem alguma personalidade, já não funcionam em jogos com foco em narrativa.

Metro Exodus Artyom

Artyom não é um char de RPG concebido como uma folha em branco ou Doom Slayer que só interage com tiros. Ele tem seus próprios pensamentos e tem uma voz, mas por algum motivo só a ouvimos nos interlúdios enquanto o jogo carrega. Se Isaack Clarke passou a falar em Dead Space 2, Metro Exodus também poderia ter mudado isso.

Um pouco de linearidade, um pouco de liberdade

Para acabar com qualquer preocupação dos veteranos, vale dizer que o feeling dos Metros anteriores ainda está lá. É verdade que os corredores escuros e apertados de 2033 e Last Light dão lugar a mapas que variam entre áreas lineares e abertas à exploração, mas você ainda tem a chance de passar horas em localizações fechadas e tóxicas no subterrâneo.

Aliás, algumas delas com um level design ainda mais criativo do que aquilo que foi visto antes. Já as novas áreas sandbox são grandes o suficiente para oferecer liberdade, mas não ao ponto de deixar o jogador perdido.

Metro Exodus Volga Mapa

A diversidade de cenários, no entanto, atenuou um pouco a clima de horror dos jogos anteriores. Exodus não nega a paranormalidade da série e traz algumas sequências de alta tensão em lugares escuros ainda, mas a ausência dos sombrios nesta história e a ênfase na superfície definitivamente direciona a sensações para mais longe do survival horror.

Cada novo cenário tem suas particularidades e parece um mundo completamente diferente do anterior. Enquanto no Rio Volga você precisa estar atento para não cair na água ou não levar rajadas de camarões mutantes, no Deserto Cáspio mutantes camuflados nas paredes vão te surpreender e nas florestas Taiga gravetos e alarmes caseiros podem acabar com sua estratégia furtiva.

Metro Exodus Cáspio deserto

Matar no caos, matar na surdina ou mesmo não matar

Cabe a você escolher como desbravar esses lugares. Seja como uma máquina de matar nada sutil ou como um assassino silencioso ou mesmo como um pacifista que poupa o inimigos quando tem a chance. Metro Exodus raramente vai decidir como você deve abordar seus adversários humanos — ainda que ele lhe aconselhe de vez em quando, em favor da história.

Nesses combates, eu encontrei inimigos com inteligência artificial satisfatória. Ela não é perfeita, já que ficar distante e bem posicionado com uma arma de longo alcance em mãos gera caos sem que os adversários te persigam.

No entanto, são NCPs que buscam cobertura, tocam o alarme, podem ser distraídos e, principalmente, são justos com a abordagem furtiva, não prevendo coisas que não deveriam ou ignorando sua presença quando deveriam percebê-la.

Metro Exodus matar ou não

Sem contar que se você aterrorizar o suficiente um grupo, os últimos membros não abatidos vão se render. Com os mutantes, o stealth é quase impossível e o combate é resumido simplesmente a matar ou fugir.

Mas cada espécie também tem seu próprio comportamento e estratégia, ao ponto de eu ver algumas vezes o último de uma matilha de patrulheiros fugir quando viu que todos os seus colegas de bando foram mortos.

Além do ciclo de dia e noite, que incentiva a criação de estratégias, entram ainda outros elementos como as tempestades de areia, a chuva que atrapalha a visão e as áreas com alto nível de radiação. O ambiente também é seu inimigo e suas mudanças e ciclos mudam completamente determinadas áreas, fazendo com que o seu gameplay pareça diferente do meu, no mesmo trecho do jogo.

Metro Exodus taiga mira sniper

Cada ação é uma escolha (mesmo que você não saiba)

Exodus é menos sutil que seus antecessores quando indica a perda de pontos de moralidade, mas mantém o compromisso de fazer isso sem alarde ou texto pipocando na minha tela e dizendo “fulano vai se lembrar disso”.

Em minha experiência, eu tive desfechos diferentes por definir quem morre e quem vive quando rejoguei alguns capítulos, afetando até mesmo o destino de tripulantes do Aurora.

Até onde pude ver, o jogo tem apenas dois finais e as variações ao longo da campanha não chegam a alterar drasticamente o estado das coisas, mas ainda assim é interessante ver que a forma que você joga provoca alguma consequência.

Metro Exodus inimigo rendido

O desafio é real

A série Metro realmente fica mais acessível a um novo e maior público com Exodus, mas isso não faz dele necessariamente um shooter banal ou fácil. É claro que quem decidir não matar os inimigos humanos vai ter um desafio muito maior do que aqueles que preferem criar tiroteios, mas no geral a dificuldade é adequada com ambas as abordagens.

Sobreviver em Metro Exodus envolve produzir sua própria eletricidade, usar máscaras de gás que consomem filtros e limpar suas armas para que elas não travem.

Eu gostei muito de essa particularidade do realismo e da manutenção não apenas ter voltado, mas ter trazido um novo nível de complexidade à série. A bateria pode ser expandida e seu bracelete ganhar aperfeiçoamentos como novos medidores, por exemplo.

Metro Exodus loot

Dois ou três tiros recebidos à queima roupa são o suficiente para morrer no modo normal e, mesmo com o sistema de crafting, recursos ficam escassos em certas áreas, dependendo de quantas batalhas o jogador decidiu travar.

Crafting simples e satisfatório

Sem lojas no caminho da viagem, as balas como moeda corrente dos games anteriores dão lugar ao crafting. Fabricar sua própria municação, filtros e projéteis é a forma de se manter abastecido longe de Moscou.

Para jogadores como eu, que fuçam em cada canto do mapa, o novo sistema flexibiliza a obtenção de suprimentos, mas quem preferir ir direto aos objetivos sem passar o pente fino pode sofrer um pouco mais.

Com um sistema que lembra o de The Last of Us, parte do gerenciamento e fabricação é feito em qualquer lugar, usando sua mochila, e certos recursos só podem ser usados nas mesas de manutenção. Isso faz você buscar desesperadamente por abrigos que tenham esse espaço quando a sua máscara estiver quebrando ou sua munição no fim.

Metro Exodus

Armas modulares e personalizáveis

As armas de Metro continuam espetaculares e originais, mas o novo sistema de customização que é a estrela aqui. Em várias situações, por exemplo, eu precisei invadir esconderijos de bandidos, então eu apenas parava às portas do local e trocava o cano mais potente da minha AK por um cano com silenciador para matar furtivamente.

Por mais que Exodus limite as armas que você pode carregar para duas comuns e uma especial, a mecânica de customização oferece inúmeras possibilidades. E mesmo que você só faça uso de algumas delas, é um sistema que, assim com o crafting, funciona de um jeito simples e satisfatório. 

Quanto a todas as armas que você usou e precisou abandonar, é bom saber que é possível recuperá-las na mesa do Aurora — é só lembrar de retirar os acessórios antes de jogar fora. 

Metro Exodus armas

De encher os olhos

Nos vários ambientes Metro Exodus impressiona com um dos visuais fotorrealistas mais bonitos da geração. Água e sujeira embaçam o vidro da máscara, texturas de couro da luva e de tecido são completamente convincentes.

Tudo é permeado por um belíssimo sistema de iluminação que conta com efeitos de partículas e sombras que são um espetáculo à parte. Só é estranho que eventualmente um item do no cenário seja coberto com texturas em baixa resolução em contraste com todo o resto.

O canal Digital Foundry, maior autoridade no assunto de comparações gráficas, concluiu que a versão com o pior desempenho é a do PS4, que apresenta screen tearing em alguns trechos e tem um pouco mais de quedas de frames que o Xbox One padrão. Ambos usam resolução dinâmica.

Metro Exodus comparação

Xbox One X é o melhor entre os consoles, com 4K nativo, seguido do PS4 Pro que roda em 1440p. Obviamente, o PC sai na frente com um desempenho e gráficos superiores, além do exclusivo sistema de física avançada e do recurso Ray Tracing, que oferece um sistema de iluminação ainda mais sufisticado, simulando luz em vez de emulá-la.

Controlar Artyom também traz algumas animações agradáveis aos olhos. Exceto pelo loot e customização, a interação do personagem com tudo ao seu redor é animada, como apertar botões e girar trancas.

A movimentação do protagonista também foi melhorada em relação a de Metro Redux, que era meio flutuante, e que agora parece muito mais natural. Com a ressalva de que às vezes rolam umas enganchadas nos pisos desnivelados, principalmente quando se está agachado.

A versão de lançamento precisa de reparos

Infelizmente, esse é apenas um dos vários problemas técnicos de Exodus em sua versão de lançamento. Como eu disse, eu experimentei tearing em cenas específicas, mas não parou aí. O tempo de carregamento passava de 1 minuto em áreas abertas mesmo em situações de respawn.

Pedras e vegetação pipocavam na tela por causa da pouca profundidade do campo de visão; grande parte dos inimigos abatidos tremiam ou às vezes desapareciam no chão, como nos tempos do motor gráfico Unreal 3; e por três vezes glitches em missões atrapalharam meu progresso.

Em uma das últimas missões de Volga, eu tive que rejogar o mapa aberto do zero, porque tinha confiado no save automático e não usei o recurso de save manual — não cometam o mesmo erro.

A gente até segurou esse review para ver se o prometido patch de atualização de lançamento corrigiria esses problemas, mas ele não veio — pelo menos não no PS4, que foi onde zerei o game.

Vale a pena?

Metro Exodus não é perfeito, mas é sem dúvida o melhor da trilogia e eleva a barra da série. É impressionante ver que a 4A Games, uma desenvolvedora apaixonada com menos da metade dos funcionários de um estúdio grande, fazer do seu projeto um concorrente à altura entre os outros títulos AAA.

Se não fosse pelo mau envelhecimento do design de protagonista silencioso e dos problemas técnicos de lançamento — que realmente espero que a 4A corrija logo —, eu não teria reclamações.

Metro Exodus patrulheiro

Existe a motivação de rejogar tudo mais de uma vez não apenas para ver as consequências das suas decisões e finais diferentes, mas também para experimentar como é atacar de forma diferente.

Você não precisa zerar os Metro anteriores para jogar Exodus, mas vai aproveitar melhor a história se o fizer. O final, que parece ser o canônico, traz contentamento, mas não fecha as portas para uma continuação — que eu definitivamente gostaria de ver.

Metro Exodus tem um design fresco que se destaca nesse mercado tão competitivo e cheio de FPS batidos. É uma experiência single player de primeira qualidade e um dos melhores shooters desta geração.

Metro exodus tikhar

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90 ps4
Excelente
"Metro Exodus é um FPS estratégico e diferente. Trata-se de uma experiência single player de primeira qualidade e um dos melhores shooters da geração."

Pontos Positivos

  • Boa história com personagens cativantes
  • Armas criativas e personalizáveis
  • Visual soberbo (especialmente no PC)
  • Mecânicas de sobrevivência excepcionais
  • Bestiário de mutantes bastante diverso
  • Inteligência artificial razoável
  • Liberdade para atacar como quiser (ou nem atacar)
  • Escolhas sutis que mudam eventos na trama
  • Mais liberdade em mapas do tamanho adequado

Pontos Negativos

  • Problemas de desempenho na versão de lançamento (pré-atualizações)
  • Pequenos bugs visuais e glitches consideráveis na versão de lançamento (pré-atualizações)
  • Protagonista silencioso é incoerente com o tipo de narrativa

Outras Plataformas

90 pc
90 xbox-one
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