Samus Aran em sintonia plena com o Nintendo DS.

Após o lançamento de uma versão de demonstração presente desde a saída da fábrica, os donos do portátil da Nintendo — o DS Lite — esperaram ansiosamente pela apresentação final desta que é uma das franquias mais estimadas pelos fãs da Big N. Entretanto, mesmo com tanta inquietação, os desenvolvedores protelaram um bom tempo antes de apresentar ao público as aventuras da protagonista Samus Aran aos jogadores. Eis que, após mais de um ano, a Nintendo introduz no mercado, em meados de março de 2006, o jogo Metroid Prime Hunters.

Para aqueles que não conhecem a série Metroid, vale dizer que o jogo já conta com mais de 10 títulos para várias plataformas da Nintendo lançados no decorrer dos últimos 20 anos, desde 1986, para o Super Nintendo. O enredo da série narra os conflitos entre os Metroids, alienígenas gelatinosos inteligentes em busca de poder e dominação sobre planetas e outras raças, e a ciborgue Samus Aran, uma mulher dotada de um uniforme blindado de alta tecnologia capaz de suportar os ambientes mais hostis possíveis. Junto a esta armadura, Samus possui armas potentes acopladas em seu braço com poder suficiente para atender aos seus objetivos que são, cumprir missões de sua entidade-chefe, a Federação Galática, além de buscar riquezas pessoais já que a protagonista também é uma caçadora de recompensas.

Interessante, onde estão os Metroids?

Curiosamente, Metroid Hunters foge um pouco do enredo-padrão da franquia, já que nenhum Metroid está presente no decorrer da aventura. Situado entre os games Metroid Prime 1 e 2, Hunters narra a história de uma mensagem telepática oriunda do Sistema Solar Alimbic. De uma maneira misteriosa, este sinal falava algo sobre a junção de 8 rochas e um grande poder concedido para aquele que as unissem. Quem mandou essa mensagem? Uma raça poderosa e nobre que foi extinta por uma força deconhecida. Sob a ordem de investigação da Federação Galática, Samus Aran parte solitária em sua nave para verificar a veracidade dos fatos, além de evitar que 6 outros mercenários coloquem suas mãos no artefato.

Essa premissa, apesar de simples à primeira vista, reserva algumas reviravoltas e interação bastante dinâmica entre esses mercenários inimigos. Mesmo que o jogo não forneça muitos elementos que realimentem a narrativa durante a partida, o jogador ficará bastante instigado a descobrir os mistérios que envolveram o sumiço dos autores da mensagem — a raça Alimbic — além do poder que essas rochas, chamadas Octoliths, reservam àquele que as unir.

Stylus como inferface para mira

Uma novidade relevante em Metroid Hunters que os jogadores irão perceber desde o início é o sistema de mira que faz proveito da tela de toque do DS. Com a possibilidade de se escolher entre o modo canhoto ou destro, o jogo permite que a caneta stylus seja manejada na tela de baixo do portátil propiciando desta forma uma mira precisa nos inimigos — algo até então bastante dificultoso em portáteis. O custo dessa função, contudo, é a dificuldade de se empunhar de maneira satisfatória o aparelho ao mesmo tempo em que o botão de disparo é feito através de um dos botões posteriores (o L ou o R). Neste caso, aquele lembrete presente nos manuais que recomenda uma pausa de 15 minutos a cada hora de jogo é perfeitamente desejável e plausível pois, caso contrário, o jogador certamente enfrentará fortes dores nos pulsos e na coluna cervical. Que fique avisado aqueles que já sofrem com a praga da tendinite.

Ainda no primeiro planeta, Samus Aran enfrenta com alguns inimigos com a ajuda de um tutorial que orienta como se devem ser usadas as funções do Scanner, as vantagens do modo “bolinha” — que permite o acesso a locais apertados — e a transição entre a arma principal e demais aparatos adquiridos no decorrer do game. Quanto a esse Scanner, o jogador deverá ficar constantemente atento à sua capacidade de decifrar as funções de diversos dispositivos presentes nos planetas em que irá explorar, já que ele não somente os acionam, como também instrui sobre seus usos além de revelar inscrições ocultas à visão normal de Samus Aran.

Após percorrer diversos corredores e salas, atravessar portas que requerem tiros para serem ativados e pular sobre plataformas que dão acesso a níveis superiores. O jogador irá ter acesso a um ambiente especial e macabro, repleto de elementos orgânicos presos às paredes; trata-se do habitat do chefe.

Ainda que chefes desafiantes e com habilidades inusitadas sempre foram uma tradição na franquia Metroid, Metroid Hunters peca ao apresentar chefes previsíveis e repetitivos, sejam nos seus movimentos, seja na sua incidência. A mecânica é sempre a mesma: uma criatura esférica fica presa a uma parede por 3 braços que devem ser atingidos de modo a causar a liberação desse ser. Uma vez liberta, ela voa em volta do jogador liberando bolas de fogo que causam dano latente. O desafio aumenta já que sua velocidade quase sempre está além da sensibilidade habitual do controle da mira, feito pela caneta stylus; some a isso os tiros intermitentes feitos por canhões presos às paredes e você estará sujeito a desequilíbrios reais que podem ocasionar sua queda da cadeira ou do próprio DS.

Eventualmente, existe uma variação ou outra dos chefes, havendo a necessidade do uso de uma arma especial ou outra, porém nada que realmente possa conceder a Metroid Hunters a virtude de ter chefes que desafiem a lógica do jogador. Uma exceção pequena a essa repetição fica reservada para o chefe da primeira fase: uma torre repleta de raios onde vários pontos na sua extensão devem ser destruídos.

Essa previsibilidade infelizmente também vale para os inimigos normais. Geralmente, tratam-se de criaturas em grande número, estúpidos e com movimentos elementares. Apesar de não atingirem a qualidade do game como um todo, a pouca variedade pode causar um pouco de aborrecimento, em especial para aqueles que gostam de um desafio um pouco mais elaborado.

Puzzles interessantes, combates intensos contra os mercenários

Outro fator que pode causar um certo desinteresse por parte dos veteranos da série Metroid é a escassez de quebra-cabeças (ou puzzles, como preferir). Aqueles que estavam acostumados com um enfoque que primasse por desafios complexos, que desafiassem a habilidade e o cérebro, ficarão um tanto frustrados ao perceber que Metroid Hunters preza mais pela ação do que pelos puzzles. Mesmo assim, estão ali algumas missões como, por exemplo, vasculhar o mapa a procura de armas especiais após passar por uma série de elevadores e plataformas móveis sob a forma de esfera. Por sua vez, algumas portas ou portais exigirão que o jogador recolha ou acione inúmeros itens espalhados pelo mapas antes que esse local de acesso seja liberado para uso.

Se falei que o enfoque é a ação, não foi por acaso. Após destruir o chefe e recuperar um dos 8 Octoliths, o jogador irá enfrentar na volta para sua nave 2 desafios: o primeiro é sair do planeta antes que um sistema de auto-destruição do local seja detonado ao fim da contagem regressiva de um cronômetro — invariavelmente, os portais que dão acesso instantâneo à nave estarão desativados, o que irá exigir que Sam percorra a pé todo o mapa. O segundo desafio reside na aparição repentina de um dos 6 mercenários.

Neste caso, o trabalho adicional está nas habilidades especiais que eles possuem. Enquanto um deles pode adquirir a forma de um inseto rastejante e gosmento, outro pode assumir a forma de um inseto colorido com o poder de lançar feixes de laser bastante danosos. A tarefa só é facilidade caso o jogador tenha ficado atento ao mapa (acessado ao se pressionar Start) e apanhado uma das armas especiais, que podem ir desde raios congelantes até um rifle de precisão.

Por fim, vale realçar que esta mecânica: aterrisar, atravessar o mapa e enfrentar inimigos e puzzles, juntar as armas especiais, derrotar o chefe, fugir do planeta antes que ele exploda (não sem antes derrotar um dos mercenários) irá se repetir de maneira óbvia durante o passeio entre os planetas. Por sua vez, o modo multiplayer de Metroid Hunters é muito bem desenvolvido, com suporte para o sistema online na Nintendo para até 4 jogadores. Os mapas são bem desenhados, com várias plataformas de pulo que concede ao jogo uma experiência inédita na plataforma em termos de tiro em primeira pessoa; algo digno dos melhores shooters do mercado, como Unreal Tournament 2004. Modos como Capture the Flag e Assassination estão entre os principais destaques.
 
Experiência 3D razoável, trilha sonora insatisfatória
 
Graficamente, Metroid Hunter é até certo ponto competente e de acordo com o potencial gráfico do Nintendo DS. As texturas estão simples e ligeiramente quadriculadas, o que denuncia a falta de suporte ao efeito de anti-aliasing. Contudo, os planetas possuem bastante personalidade e detém detalhes distintos. Existe a famosa fase do gelo, a fase da lava além de muitos locais com decoração high-tech e arquitetura avançada. As cutscenes, apesar de breves, relatam de maneira diferenciada os pontos-chave da narrativa.

Já os efeitos sonoros estão um tanto repetitivos, para não dizer cansativos. Existe a impressão de que alguns sons foram reciclados de outros jogos da série, ou até mesmo de um banco de dados padrão da Nintendo. Quanto às músicas, apesar de elas estarem adequadas ao clima do game, cansam rapidamente pela pouca qualidade sonora que a plataforma apresenta (que lembram os sons sintetizados à moda antiga).

Vida longa a Samus Aran

Metroid Hunters é um jogo imperdível para aqueles que gostam de tiro em primeira pessoa e são fãs da série. O título apresenta uma jogabilidade única para o Nintendo DS, um excelente suporte para partidas multiplayer e um modo campanha estimulante, ainda que singelo. Já que até agora não há nada da franquia para o Nintendo Wii, os fãs dos produtos da Nintendo certamente não ficarão decepcionados com o trabalho feito em Metroid Hunters.
81 ds
Ótimo