Ni No Kuni 2 escorrega de leve, mas é um dos JRPGs mais encantadores que há

Se você é fã da cultura japonesa, com certeza já se deparou com animações do Studio Ghibli em algum momento da sua vida. Se nunca viu, é fácil descrever: elas são únicas, mágicas, encantadoras e sentimentais. Bom, a essa altura do campeonato, você já deve saber que o primeiro Ni No Kuni foi desenvolvido em parceria com o estúdio criativo nipônico. A sequência, Ni No Kuni 2: Revenant Kingdom, não tem envolvimento com a companhia, mas ainda mantém a magia única que só Ghibli sabe criar.

O segundo game da (agora) franquia foi anunciado há um tempo e sofreu dois atrasos nos últimos anos. Mas fiquem tranquilos: o polimento fez diferença, e a longa campanha e seus extras valeram bastante a pena, criando uma experiência fora da cruva.

Ni No Kuni 2 é a aventura gostosa de se consumir, daquelas típicas de sentar no sofá e aproveitar o que está pela frente. O game é leve, agradável e simplesmente divertido. Sem dúvidas, uma surpresa bem inusitada em 2018, superando muitos pontos de seu antecessor, mesmo que escorregue em alguns elementos de sua campanha de mais de 40 horas.

Uma narrativa com tom de Studio Ghibli

Como o nome já entrega, Ni No Kuni 2 é uma sequência, mas é bom já deixar o aviso amigável desde o começo: se você não jogou o primeiro, pode se aventurar tranquilamente e sem peso na consciência. A trama se passa centenas de anos no futuro e há pouquíssimas referências aos eventos anteriores. Claro, o Ni No Kuni original ainda vale a pena se você quiser se aventurar, mas não precisa ter receio de perder algum acontecimento narrativo.

Apesar de não ter ligações claras com o passado, a qualidade continua intacta e conta com cada tiquinho de encanto do Studio Ghibli, mesmo que ele não esteja mais envolvido. A trama é muito gostosa de consumir: algo que é ao mesmo tempo sério e inocente de uma maneira levemente infantil.

Ni No Kuni 2

Na história, seguimos Evan, um rei juvenil que deve assumir o trono quando seu pai morre, mas é deposto por um golpe pouco tempo depois de ter a responsabilidade do trono nas mãos. É quase como uma história séria mascarada em um conto infantil: os golpistas e opressores são representados na forma de ratos, enquanto a oposição é retratada com gatos.

O enredo tem um tom sério, mas a aventura é recheada de missões divertidas e cativantes. A história principal é basicamente o grande ponto forte do jogo, e é lá em que residem as atividades mais interessantes, variadas e criativas (como seções de stealth, dungeons mais elaboradas e por aí vai), já que grande parte das sidequests são bobinhas e requerem ações simples do jogador.

Como não pode ter o seu reino de volta, Evan tem a ajuda de Roland (um presidente do “nosso” mundo) e muitos outros personagens para começar um novo governo. Infelizmente, não temos tanto drama (quem se lembra do começo de Ni No Kuni 1 saberá) nem interações com o mundo real, como ocorria no game original. Seria legal ter esses elementos presentes, mas eles não são os principais problemas aqui.

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Evan é o centro das atenções e não há problemas nisso, mas todos os outros heróis acabam ficando muito apagados e mal desenvolvidos. Claramente há papéis definidos: Lofty é o alívio cômico, Roland é um personagem de apoio, Batu é o brigão, Leander é o inteligente, e por aí vai. Não é algo tão ruim, mas as motivações deles não são bem explicadas, e a história de fundo de cada poderia ser explorada em missões secundárias, abrangendo mais o universo incrível construído pela Level-5.

Mais Kingdom Hearts, menos Pokémon

Sou suspeito para falar: amo um action RPG e não resisto a fantasias lindas com uma boa jogabilidade de ponta (Kingdom Hearts 2 é o meu jogo predileto da vida). Ni No Kuni 2: Revenant Kingdom é exatamente isso. É capricho puro em cada trecho de gameplay. E fala sério: você se lembra de quando foi a última vez que viu um JRPG de ação muito bem-feito no mercado? Não é algo comum, convenhamos. Caso você não se recorde, o primeiro Ni No Kuni utilizava turnos nos combates.

E, rapaz, como a Level-5 acertou dessa vez! É difícil ver um bom JRPG com um sistema de luta tão refinado assim. Ele pode não ser um hack ‘n slash, mas as mecânicas de golpes fracos, fortes, habilidades especiais, pulos, magias e muito mais vão mantê-lo entretido por muito tempo. Além disso, trocar de personagem a qualquer momento aumenta a variedade da jogatina e torna tudo mais interessante, pois cada um deles usa um tipo de arma diferente e tem golpes distintos.

Cada personagem possui um estilo variado que pode ser explorado para cada estilo de gameplay. Além de ter várias habilidades que são desbloqueadas automaticamente, o jogador pode desbloquear mais skills caso aprimore a loja de magias de seu reino, o que é um fator bem legal para incentivar o novo elemento do game.

O elemento “pokémon” sumiu, e não há mais as criaturinhas por aí, mas há os higgledies no lugar, que são basicamente incorporações dos elementos da Terra que ajudam o jogador durante a exploração com suas magias ou habilidades de combate durante as lutas, provando ser aliados muito úteis e uma mecânica bem divertida.

Combate muito bem-feito, mas mal aproveitado

Apesar de parecer simples, Ni No Kuni 2 tem um sistema bem complexo e que pode ser aproveitado ao máximo pelo jogador. Há um menu realmente muito grande e recheado de opções para temperar as funções de batalha: quer dar mais dano em elementais de fogo e receber mais dano de água? Basta alterar. Quer ser mais forte contra inimigos “sólidos” e mais fracos contra os “gelecas”? Só mexer.

Há muito mais. Você pode trocar experiência por dinheiro, aumentar a agilidade e por aí vai. Houve realmente muito esforço para criar um sistema que é altamente personalizável e que pode ajudar o jogador no maior dos perrengues. Bom, perrengues que você não vai passar, infelizmente. Ni No Kuni 2 é uma experiência bem tranquila.

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Nas primeiras 10 ou 15 horas, acaba não sendo um ponto muito notável, mas logo fica evidente que você não precisará se esforçar para progredir na história. Algumas sidequests, como as dungeons procedurais ou os monstros acima do seu nível podem apimentar as coisas, mas de resto não há nada que te faça suar. E isso acaba impactando a jogatina de longo prazo, tirando parte da diversão e realçando os elementos repetitivos.

É uma pena que isso seja mal aproveitado, pois uma simples opção de dificuldade maior poderia dar um brilho enorme à experiência por um tempo bem prolongado.

Alguns extras interessantes e divertidos

Mesmo o combate sendo o novo grande destaque do game, há outros elementos em que a Level-5 investiu bastante: o modo de criação de reino e as batalhas Skirmish. Já que Evan é um rei novato, nada mais justo que ele crie edifícios e estruturas ao redor do seu castelo e participe de batalhas.

E, de fato, esses extras são bem legais e divertidos para passar o tempo. Não espere nada complexo, claro, mas as batalhas de exércitos são realmente bem-feitas e é bem legal seguir algumas sidequests que incentivam esse tipo de atividade. Durante o combate, podemos tomar algumas decisões táticas e até mesmo usar habilidades especiais atreladas ao esquadrão selecionado.

Já a administração do reino tem seus pontos altos e baixos: é legal que muitas estruturas podem ser aprimoradas ao trazer mais pessoas a sua comunidade, algo que é inclusive explorado em sidequests, e isso ajuda o seu personagem a ganhar novas habilidades e itens especiais. No entanto, também é ruim que tudo seja produzido em tempo real e demandando que você volte frequentemente ao reino, quebrando o ritmo da sua jornada.

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Esse é justamente o ponto. Ni No Kuni 2 em curto e médio prazo é encantador. Já em longo prazo, ele perde a força e a magia inicial, se tornando uma experiência levemente repetitiva, principalmente no que diz respeito às novidades de gerenciamento de reino, que às vezes é obrigatório para o avanço.

Uma experiência audiovisual quase perfeita

Mas não tem jeito: o ponto máximo de Ni No Kuni 2 é a sua direção de arte. Mais uma vez, vale lembrar que o Studio Ghibli não está atuando com a Level-5, mas muitos ex-artistas do estúdio trabalharam para manter a essência visual e sentimental da primeira obra. Portanto, temos um visual simplesmente de encher os olhos.

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Cada nova cidade de Ni No Kuni 2 é uma nova dose de criatividade, seja nos desertos, em cidades aquáticas ou em uma cidade governada por regras da sorte. Todos os ambientes são muito bem desenhados, e talvez a sequência seja ainda mais incrível e rica visualmente do que o primeiro game.

Pode-se dizer que o primeiro Ni No Kuni era um pouco mais micro, com ambientes menores, corredores mais apertados e atenção aos detalhes. Ni No Kuni 2 é mais macro, ambicioso e espalhafatoso. Entretanto, a magia e a simplicidade ainda reinam soberanas.

Para completar, tudo roda em 60 fps e muito bem, mesmo com efeitos de partículas na tela. Há algumas quedas aqui e ali, principalmente em efeitos alfa ou em cenários mais complexos, mas nada que incomode. No PS4 Pro, o game roda em 1800p, enquanto o PS4 comum roda em 1080p.

Galeria 1

Caso deseje, você pode até mesmo escolher o áudio original em japonês ou o inglês, uma funcionalidade nem sempre disponível. Infelizmente, há um ponto negativo bem chato aqui: pouquíssimos trechos são dublados, e existem poucas cenas com animações de qualidade muito alta. Ao longo do tempo, isso pode cansar um pouco. Além disso, não há legendas em português (isso não contará na nota, mas é bom ressaltar).

Ni No Kuni 2 como maratona pode ser cansativo

Apesar de já ter citado diversos pontos negativos ao longo da análise, creio que seja melhor compilá-los e uni-los aqui, criando uma coesão de ideias. Basicamente, Ni No Kuni 2 em curto e, quem sabe, até médio prazo é muito bom. Muito bom mesmo. Entretanto, alguns fatores combinados, como a dificuldade baixa, a falta de diálogos dublados e sidequests simples, evidenciam dois pontos: a repetição e o ritmo lento.

Veja bem: todos os jogos têm elementos de repetição. Tudo depende do quanto você os sente. O combate é ótimo, mas com dezenas de horas fica evidente que ele é o mesmo sempre, e não há muitas estratégias ou variedades de golpes (ainda mais quando você pode matar os inimigos em um estalar de dedos).

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As sidequests também são legais no começo, mas, quando se tornam obrigatórias para aprimorar seu reino e avançar na história, fica claro que esses dois elementos podem ser maçantes em determinados momentos. A campanha, que é o grande foco do título (como um Final Fantasy), é incrível, mas sempre que o ritmo é quebrado vemos que há deficiências aqui e ali. Não defeitos graves, mas eles seguram um pouco a experiência incrível que Ni No Kuni 2 poderia oferecer.

Vale a pena?

No fim, Ni No Kuni 2 é muito mais ambicioso e complexo que o primeiro game. Em quase tudo que a Level-5 pensou de novo, ela foi bem-sucedida. Há alguns pontos melhores que outros e existem contrapontos, claro, principalmente no que diz respeito ao fim do jogo, quando a experiência perde um pouco da força.

Entretanto, Ni No Kuni 2 é um dos melhores JRPGs dos últimos tempos e, sem dúvidas, uma das melhores surpresas de 2018 até o momento. Claro, se alguns pontos fossem melhores, principalmente no que se refere à dificuldade, o jogo ganharia um brilho extra que o tornaria muito mais marcante, mas isso não ofusca seu próprio mérito.

Este jogo foi gentilmente cedido pela Bandai Namco para a realização desta análise.

88 pc
Ótimo
"Ni No Kuni 2 é sensacional e brilha muito em seus próprios méritos, mesmo que escorregue em alguns pontos que poderiam facilmente ser evitados"

Pontos Positivos

  • Trama gostosa de consumir e com um toque de elegância do Studio Ghibli
  • Combate totalmente em ação e extremamente bem-feito
  • A campanha traz elementos variados e sempre entretém o jogador
  • Os modos extras, Kingdom Builder e Skirmish, foram polidos e funcionam bem
  • A direção de arte é de encher os olhos e cada pedaço do jogo encanta, mesmo sem a parceria do Studio Ghibli
  • Tudo roda em 60 fps e há pouquíssimas quedas de frames

Pontos Negativos

  • Ao longo prazo, Ni No Kuni 2 perde parte da sua diversão por conta da repetição e dificuldade baixa
  • Grande parte dos diálogos não é dublada
  • A sidequests são, no geral, meio bobas e simples demais
  • Os demais personagens são pouco explorados e não têm muito destaque na trama

Outras Plataformas

88 ps4