A mais bela pintura do DS

Infelizmente, a cultura gamer da atualidade ainda continua com o triste costume de julgar um título pela capa. Há também os casos mais preocupantes, que acreditam que jogos bons são apenas aqueles que trazem um belo nível de realismo, abandonando uma das maiores dádivas da humanidade: a capacidade expor e manifestar perspectivas de mundo diferentes do achatado plano real em que vivemos.

É realmente frustrante quando vemos títulos com uma direção de arte espetacular, repleta de referências a estilos artísticos de culturas riquíssimas, sendo simplesmente ignorados pela ausência de um visual realista.

Demorou muito até que nós pudéssemos nos desprender de conceitos restritos e, finalmente,  nos libertarmos por meio da arte. Após a era do Renascimento, artistas começaram a se valorizar e a valorizar a arte pela arte, e não apenas como um simples retrato condenado a reproduzir fielmente o que já existe.

Incrivelmente, após quase seiscentos anos de grandes revoluções na arte, muitos ainda se recusam a enxergar o que vai além da realidade. Isso se reflete também no mundo dos games, mesmo que de maneira inconsciente para a maioria dos jogadores.

Img_normal“Quadros” como No More Heroes, Madworld, Prince of Persia, Jet Grind Radio e Braid simplesmente são ignorados pela grande massa por um simples motivo: eles não apresentam visuais que aproveitam toda a capacidade gráfica da plataforma para criar gráficos realistas. Até mesmo a própria lendária franquia Zelda sofreu com o preconceito quando The Wind Waker, para GameCube, chegou às lojas.

E é óbvio que muitos jogadores quebraram, e ainda quebram, a cara quando decidem colocar as mãos em games como os supracitados — seja por força ou apenas para tentar colher mais argumentos negativos.

Um dos exemplos maiores da triste tendência da cultura gamer atual é o belíssimo Okami. O título chegou ao PlayStation 2 em 2007, na mesma época em que o brutal God of War 2 aterrissava nas lojas. Em termos de vendas, Okami foi um fracasso, prejudicando até mesmo a própria desenvolvedora, a Clover Studio, que logo depois fecharia suas portas.

Mesmo assim, Okami é, definitivamente, um dos melhores jogos do PlayStation 2. Atualmente, o título conta 93 pontos no site Metacritic, que reúne análises do mundo todo e faz uma média. A Capcom, confiante no talento e na belíssima proposta do game, decidiu arriscar-se em favor dos jogadores, lançando também uma excelente versão para o Wii em 2008.

Desta vez, as vendas foram um pouco melhores, graças, principalmente, a impulsão dada pela mídia especializada, que aclamou o título original e acabou convencendo muitos jogadores de mente fechada.

Definitivamente, é difícil não gostar de um jogo tão bonito, divertido e inovador como Okami. Para a sorte de muitos, a Capcom conhece o potencial da franquia, o que foi comprovado quando Okamiden,a sequência do título original, foi anunciado.

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Agora, toda a jornada inspirada pela arte e por lendas japonesas pode ser desfrutada em suas mãos. Okamiden chega ao Nintendo DS com uma proposta bem semelhante à do original, mantendo todo o charme e a mecânica que consagraram o título como um dos grandes jogos do entretenimento eletrônico.

Mesmo sem as mãos do genial Hideki Kamiya — responsável pela criação de games como Devil May Cry, Viewtiful Joe, Bayonetta, entre outros —, Okamiden consegue reproduzir tudo o que o game original trouxe para a indústria, adicionando, de quebra, várias mecânicas que só seriam possíveis no portátil de duas telas da "Big N".

Um título com uma direção de arte baseada nas pinturas nipônicas de estilo sumi-e (tinta e água, ou nanquim) lançado para um portátil com mais de cinco anos de vida. Uma combinação perfeita para repelir muitos dos jogadores da cultura gamer atual. Mas, faça um esforço e acredite: Okamiden é uma obra e tanto. Ainda não se convenceu? Então fique com a nossa análise.

Okamiden é um dos últimos lançamentos do Nintendo DS. E, felizmente, o jogo não faz feio. A proposta da versão original foi mantida e os jogadores ainda ganharam uma experiência mais natural e intuitiva, graças aos recursos do portátil de duas telas.

Um novo personagem, novos ambientes e o mesmo humor e atmosfera que consolidaram o primeiro título como um dos grandes jogos do PlayStation 2. Okamiden pode não superar o original, mas definitivamente não deve ser dispensado pelos jogadores que possuem um DS. Abra sua mente.

O fantástico mundo de Okamiden

A primeira coisa que muitos jogadores vão se perguntar ao colocar em as mãos pela primeira vez e se é necessário jogar o primeiro game para conseguir entender a trama de Okamiden. Felizmente, o título consegue ser uma boa opção tanto para os fãs quanto para quem nunca sequer ouviu falar da franquia.

Se você já esteve ao lado de Amaterasu, a protagonista do primeiro título, durante as 30 horas de jogo oferecidas pelo modo campanha, então notará muitas referências e até mesmo personagens e cenários recorrentes. Quem conhece Amaterasu somente por sua participação em Marvel vs. Capcom 3 como lutadora também não deve se preocupar.

Na realidade, Okamiden será um choque e tanto para quem não teve a oportunidade de jogar o primeiro game. Primeiramente, você vai se surpreender com o belíssimo ambiente criado originalmente pela mente do mesmo designer responsável por Devil May Cry.

Ao contrário da aventura de Dante, temos um universo que parece ter sido minuciosamente pintado à mão, utilizando as mais tradicionais técnicas de pintura japonesa. Okamiden mantém todo este estilo, consolidando-se facilmente como um dos jogos mais belos do Nintendo DS.

É impressionante notar como a Capcom, responsável pelo desenvolvimento e pela distribuição do game, conseguiu reproduzir a grandiosa beleza da versão original de maneira tão magistral no  portátil da Nintendo.

Sendo um dos últimos títulos de grande porte a ser lançado para portátil — o 3DS vem aí —, Okamiden consegue explorar o potencial do console e criar um ambiente rico em detalhes, exibindo cores vibrantes, traços estilizados e animações fluidas.

Temos uma bela variedade de ambientes e vários efeitos que tornam o mundo de Okamiden ainda mais vívido. Isso sem considerar o design dos personagens, que esbanjam personalidade já no visual.

Mas não pense que Okamiden é apenas um game artisticamente bem feito. Tecnicamente, o game também se sai bem, tendo apenas algumas quedas na taxa de quadros por segundo, as quais são raras e não chegam a atrapalhar o desempenho.

Destaque também para o áudio, que traz trilhas pertinentes à atmosfera e até mesmo vozes para seus personagens, embora eles apenas resmunguem uma língua inexistente — ao melhor estilo Banjo & Kazooie.

Em suma, Okamiden é um dos jogos mais graciosos do Nintendo DS, conseguindo alcançar o ápice tanto na parte artística quanto tecnicamente.

Tal mãe, tal filho

No primeiro game, o jogador encarnava Amaterasu, a encarnação do Deus do Sol em um lobo branco. Agora, a heroína deixa a tarefa de salvar o mundo para seu filho, o pequeno Chibi — nada mais óbvio do que uma versão menor de uma heroína em um jogo para um console de bolso, não é mesmo?

O fato é que Chibi, mesmo sendo bem mais jovem que Amaterasu, compartilha muitas habilidades com sua mãe. O estilo de luta é praticamente o mesmo e as técnicas com o Celestial Brush (Pincel Celestial, numa tradução livre para o português) continuam sendo executadas de maneira semelhante.

Mas, e a trama, como fica?  Okamiden se passa nove meses após os eventos do primeiro game e traz não somente a filha de Amaterasu, mas também vários outros personagens que acabam tomando um papel importante durante a jornada. Novamente, quem retorna para aterrorizar o mundo é o demônio Orochi, que traz uma nuvem de maldição para toda a região.

Issun, o sétimo Envoy — ser responsável por retratar os deuses para que a população não perca a fé — reaparece nos primeiros momentos do game, orientando Chibi no início de sua jornada. Além da simpática criatura, o jogador também encontrará vários outros personagens e fará parcerias com muitos deles.

O esquema de parcerias é uma das novidades de Okamiden. Desta vez, o jogador conhecerá personagens que o acompanharão durante um bom tempo, auxiliando na batalha e também nos momentos de quebrar a cabeça.

O bacana é que todos eles mantêm o bom humor da série e são personalidades marcantes, conforme já conferíamos no primeiro jogo. Kuni — o filho de Susano, o herói bêbado de Okami —, por exemplo, é uma criança que finge ser um herói, mas treme da cabeça aos pés quando algum monstro está por perto.

Podemos dizer tranquilamente que Okamiden não se desprendeu de suas origens, mesmo não sendo desenvolvido pela mesma equipe que participou do primeiro título. Isso fica claro não somente na parte artística, mas também em toda a trama e no desenvolvimento dos personagens, que são outros pilares estruturais da série e geram excelentes resultados.

Pintando a cena

Os fãs do Nintendo DS sentirão certa semelhança aos jogos Phantom Hourglass e Spirit Tracks, ambos da série The Legend of Zelda, ao colocarem as mãos pela primeira vez no título. Definitivamente, Okamiden compartilha muitas características com esses games, trazendo várias mecânicas aclamadas para sua fórmula característica.

Basicamente, o jogador terá de resolver quebra-cabeças com a ajuda de itens e habilidades novas e também pisando em botões e desvendando enigmas. Ocasionalmente, você encontrará inimigos e então entrará no modo batalha.

Aparentemente, trata-se apenas de uma cópia de Zelda, não é mesmo? Mas, conforme viemos comentando desde o começo desta análise, as aparências enganam. Nada parece fora de contexto ou inserido somente porque Zelda é um jogo de sucesso e, imitando-o, Okamiden também seria um sucesso. Não tema, pois tudo é muito coerente e você apenas sentirá a semelhança, mas nunca terá a sensação de estar jogando apenas uma cópia.

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Um dos diferenciais do game surge com a Celestial Brush. Por meio da tela sensível ao toque do Nintendo DS, o jogador usa a stylus para conceber desenhos de forma intuitiva, capturando todo o conceito do game de maneira natural. São necessários apenas rabiscos básicos para ferir um oponente ou reconstruir um objeto, mas tudo se encaixa perfeitamente com a proposta de Okamiden.

Durante sua jornada, Chibi aprende várias técnicas novas, que só contribuem para o ritmo do game. Em pouco tempo, você terá de utilizá-las para poder avançar, criando uma relação bacana dos momentos normais com a “sessão pintura”. Só fique de olho no tempo e na quantidade de tinta restante quando estiver desenhando, algo convenientemente exibido na tela do portátil.

Partindo para a mordida

Quanto ao combate, Okamiden consegue criar uma experiência bem bacana, principalmente pelo fato de trazer o sistema de parcerias como uma das novidades. Aqui, o jogador encontrará alguns inimigos espalhados pelas dungeons, enfrentando-os em tempo real. Contudo, para os momentos mais perigosos, o jogo reserva uma espécie de sala especial, na qual tudo a sua volta desaparece e você se foca apenas nos combates.

O grande destaque vai para os chefões. Mesmo não oferecendo muito desafio, os maiores inimigos do game não receberam o título à toa. As batalhas são simplesmente fenomenais, criando um verdadeiro espetáculo no qual o jogador luta para descobrir qual é o ponto fraco do oponente. E cada chefe possui um design incrível, fazendo com que o jogador queira jogar o título inteiro só para conferir cada uma destas feras.

Seja contra chefes ou contra inimigos comuns, Okamiden oferece uma ação bacana, com golpes variados e muitas animações na tela — principalmente quando seu companheiro também participa do conflito. Mesmo sem muito desafio, as batalhas são gratificantes.

Um pequeno borrão

É difícil encontrar muitos pontos negativos em Okamiden. Mesmo assim, não há como deixar de lado alguns dos pequenos infortúnios que impediram o game de alcançar a perfeição. Talvez o mais agravante seja a repetição da jogabilidade, que se torna mais evidente da metade para frente do game.

Neste momento, a história é deixada um pouco de lado, e o jogador passa a apenas explorar dungeons atrás de dungeons, sem saber muito o motivo de tudo isto. Além disso, a ausência de desafio, tanto nos combates quanto nos quebra-cabeças, é um problema típico da série Zelda que também se repete aqui.

Também sentimos falta de mais habilidades com a Celestial Brush. Chibi possui menos de dez técnicas, que não deixam de ser interessantes, mas um número maior de pinceladas certamente deixaria a experiência muito mais atraente.

90 ds
Excelente