Quando a burocracia transforma homens em deuses

Uma das vantagens de jogos independentes é a liberdade em abordar estilos e temas que outros games não teriam a possibilidade de tratar. De que outra forma nós poderíamos falar de um título em que você é um agente da fronteira em um país fictício, em plena Guerra Fria?

Papers, Please é um game em que você não dá tiros, não derrota inimigos ou salva o mundo. A sua única tarefa é aprovar ou reprovar a entrada de pessoas em um país, tentando sustentar a sua família no processo.

Será que um jogo em que você assume funções extremamente burocráticas pode divertir e proporcionar uma experiência digna ou você quer distância desse tipo de coisa nos seus games?

Papers, Please é um título interessante, simples e desafiador, levantando diversas questões morais e mostrando como até o mais enfadonho dos trabalhos pode ter uma repercussão absurda na vida de outras pessoas.

O seu visual retrô pode incomodar alguns jogadores que estão cansados de ver essa escolha para o estilo dos gráficos, mas nada que vá atrapalhar a incrível experiência que o game pode proporcionar.

Esse jogo foi adquirido pelo redator André Luiz de Mello Pereira para a realização desta análise.

O destino de todos nas suas mãos

Papers, Please começa com a abertura das fronteiras da Arstotzka, na União Soviética. Uma loteria coloca você no cargo de agente da fronteira, liberando a entrada de imigrantes ou recusando que eles entrem no país.

O seu trabalho é checar a documentação de cada uma das pessoas que tentam visitar Arstotzka, procurando pequenas discrepâncias que podem colocar o país em risco. O jogo poderia ser resumido como “simulador de trabalho de escritório”, mas ele consegue ser muito mais que isso.

Img_normal

A cada dia que passa, você deve checar cada vez mais a fundo a vida das pessoas que tentam entrar no país, aumentando a dificuldade do jogo. Quais os motivos da visita, quanto tempo elas ficarão lá, seus documentos, filiações com partidos, tudo deve ser analisado por você. Caso um terrorista consiga entrar em Arstotzka, toda a culpa cairá em você. Você deixou alguém com documentos irregulares passar, pensando que ninguém veria? Se prepare para receber uma multa no seu já limitado salário.

Outro elemento bem interessante dessas escolhas é o fato de você, com o tempo, começar a se sentir como o responsável pela vida de cada uma daquelas pessoas que ficam na sua frente. Em alguns casos, os personagens têm uma história própria, como um parente que também precisa entrar no país, mas seus documentos estão irregulares. O destino daquela família está em suas mãos.

Img_normal

Claro que você pode assumir tudo como funções frias e calculadas, apenas pensando que precisa fazer aquilo para continuar o jogo e vencer no final. Porém, o que impressiona é a maneira como tudo é apresentado, já que o próprio clima do game faz com que você comece a se importar com os outros personagens.

Com o avanço do tempo, você encontrará pessoas tentando entrar em um país melhor que aquele em que vivem, apenas buscando uma vida mais digna para eles e suas famílias. Quando você percebe que aquele trabalho, por mais enfadonho que seja, traz repercussões para outras pessoas, tudo começa a fazer mais sentido, deixando o jogo mais emocionante.

Cuidando do país e da sua família

Logo no início de Papers, Please, ao ser designado para o serviço na fronteira, o governo de Arstotzka também providencia um apartamento para você e sua família. Em momento algum você vê rostos e nomes dos moradores da sua residência — apenas sabe que são filhos, esposa, sogra, tios. Todos eles dependem de você para sobreviver.

Se cuidar de quem entra ou não no país é era complicado, se preocupar com a sua família se mostra um desafio bem maior do que você pode imaginar. Isso porque o seu salário é um tanto limitado para que você possa fazer muita coisa, ainda mais por variar conforme o número de passaportes analisados diariamente.

Img_normal

Por causa disso, pode acontecer de você passar por dias sem dinheiro para pagar pela alimentação, pelo aquecimento (afinal de contas, estamos falando do Leste Europeu) ou o aluguel do apartamento. A saúde dos integrantes da sua família pode começar a deteriorar, levando o seu personagem a perder tudo (inclusive o jogo).

A maneira como você utiliza o seu dinheiro é importante, já que, além das despesas normais, você deverá gastar com outras coisas, como presentes para seus filhos e sua mulher, tratamento médico de emergência etc. Esse tipo de elemento faz com que as suas ações durante o período de trabalho na fronteira ganhem um peso muito maior, já que você também deve pensar no bem-estar da sua família.

Até quando teremos jogos com gráficos retrô?

Papers, Please tem um defeito que pode não ser considerado um problema para muitas pessoas, mas que realmente limita o sucesso e alcance que ele pode ter. O game é focado em um nicho de mercado que o torna pouco atraente para uma legião de jogadores que poderiam se interessar pelos seus questionamentos morais.

Por apostar em um visual que homenageia a era 16 bits, Papers, Please acaba se enfiando em um estilo que está sendo usado à exaustão em jogos indies, os quais, por isso, se tornam enfadonhos logo nos primeiros momentos.

Img_normal

A onda retrô que domina a cena independente de games tem em Papers Please um bom exemplar de jogo que, se tivesse um visual um pouco diferente, talvez um pouco mais atual sem ser ultrarrealista, poderia ganhar mais destaque.

90 pc
Excelente